Jornal A CIDADE

Economia

Sabado, 12 de Janeiro 2008 - 19h35

Produtor de cana deve ter ano difícil

Delcy Mac Cruz

Os fornecedores particulares de cana-de-açúcar terão um 2008 nada açucarado. Responsáveis por 20% de toda a matéria-prima processada pelas usinas da região Centro-Sul do país, eles devem apurar, neste ano, perdas de 30% nos valores recebidos pela tonelada. Esse também foi o resultado apurado em 2007 e vai ocorrer novamente porque há oferta de cana superior à demanda.
“Teremos neste ano 40 milhões de toneladas de cana nova no Centro-Sul, que na safra encerrada em dezembro moeu 423 milhões de toneladas”, diz Manoel Ortolan, presidente da cooperativa Canaoeste, sediada em Sertãozinho, com 2,5 mil produtores cooperados e que se prepara para uma produção de 11,5 milhões de toneladas neste ano, 500 mil acima da oferta de 2007.
Na média, o produtor recebeu R$ 35 pela tonelada no ano recém-terminado, R$ 15 abaixo do que chegava a apurar em 2006. Conforme as estimativas do setor, uma tonelada tem custo de produção médio de R$ 45.

Financiamento caro
Segundo Ortolan, 2008 será um ano difícil para os fornecedores porque, incentivados com os bons preços recebidos há dois anos, investiram na compra de máquinas e implementos, e também arrendaram terras para cultivar mais cana.
“Geralmente esses investimentos são obtidos por financiamentos rurais ou programas como a Finame, que ficam mais caros neste ano”, diz. Ele exemplifica: a partir de agora, os 0,38% de PIS/Cofins passam a incidir nos financiamentos.
Na opinião do presidente da Canaoeste, dificilmente será possível alterar o quadro negativo. “A safra de açúcar da Índia, que está no segundo mês, tem registrado baixa produção, o que pode ampliar os negócios para o açúcar brasileiro, mas é pouco para afastar o pessimismo”, avalia.
A safra 2008, diz, será marcada pelo crescimento do consumo interno de etanol. “Por conta dos veículos flex, saímos de 1 bilhão de litros consumidos em maio passado para 1,5 bilhão de litros consumidos em dezembro”, comenta.
O que também pode ajudar é uma esperada queda de produtividade. “Choveu muito pouco em 2007, cerca de 1.460 mililitros, ainda assim mais no começo do ano passado, o que vai refletir na cana a ser disponibilizada”.
Outra notícia ruim, mas que vem em auxílio dos fornecedores, é que os baixos preços servem para reduzir o cultivo de cana na região Oeste do Estado, chamada de nova fronteira do setor. “O processo de expansão canavieira por lá perde força porque concorre com a soja e com a pecuária, que têm preços mais atraentes”, diz.


Setor quer receber pelo bagaço entregue
Essenciais para o setor sucroalcooleiro, embora 80% da cana moída pertençam às usinas, os fornecedores buscam, por meio de suas lideranças, estratégias contra a crise anunciada. Uma delas é a remuneração pelo bagaço, que chega a ser disputado porque é matéria-prima para a produção de eletricidade, e que é uma outra fonte de receita para as fábricas.
Reivindicar essa remuneração, no entanto, exige alterar as regras do Conselho dos Produtores de Cana-de-açúcar, Açúcar e Álcool do Estado (Consecana), que sistematiza o pagamento da matéria-prima.
Segundo Manoel Ortolan, presidente da Canaoeste e integrante do Conselho, a cada cinco anos são revistas algumas das regras. A última atualização foi há duas safras e, segundo ele, já estão em estudos mudanças em busca do pagamento pelo bagaço. “O sistema de amostragem do Consecana também precisa ser revisto porque foi idealizado com a cana queimada e inteira, enquanto hoje a maioria da matéria-prima é crua e picada”.

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