Vicente Golfeto
Segunda-Feira, 14 de Janeiro 2008 - 22h42 Por que a sociedade se mobilizou tanto contra os atos do governo Collor de Melo, obrigando o presidente da República renunciar ao mandato e não se mobilizou agora, quando Renan Calheiros – renunciou depois – foi mantido na presidência do Senado? A explicação mais comum é que a sociedade civil brasileira está perdendo a capacidade de protestar. Tenho comigo que não é nada disto.
Antes do presidente Collor, o presidente Jânio Quadros, logo após sua eleição em 1960, sucedendo o presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, igualmente renunciou ao mandato porque cometeu o mesmo equívoco político de Collor.
E qual foi o equívoco político cometido? Pretender dar uma machadada definitiva no pacto getuliano, que governa o Brasil desde a Revolução de 1930, que levou Vargas ao poder.
Qual é este pacto? É um acordo do qual participam como os beneficiarios: 1- os empresários que têm privilégios governamentais (concessões de serviços estatais, financiamentos a juros negativos são, dentre outros, alguns exemplos) e; 2- a alta burocracia, o funcionalismo publico, que fica sempre com qualquer coisa como a metade da receita governamental – dos três níveis de poder – restando a outra metade para todo povo brasileiro.
Mais ou menos o seguinte: metade da receita para 2 milhões de pessoas e, a outra metade, para 170 milhões de pessoas. Há maior concentração de renda do que a provocada pelo Estado brasileiro?
Já disse. E repito. Collor caiu porque quis romper este pacto. Como Jânio Quadros quisera antes, na década de 60 do século passado.
Renan Calheiros e o Senado não quiseram nada disto. Por que ABI, UNE, CNBB, OAB, ditos representantes da sociedade civil – mas nunca representaram absolutamente nada – iriam mobilizar o povo? Os privilégios estão mantidos, não é mesmo?
O pacto ficou intocado. A máfia nos ensina que “às vêzes, ser honesto é muito perigoso”.