Jornal A CIDADE

Júlio Chiavenato

Terça-Feira, 15 de Janeiro 2008 - 22h21

A febre e o Homem


De 1896 a 1904, a febre amarela matou quase a metade da população de São Simão. A epidemia cresceu porque os coronéis diziam saber mais que a ciência. Resolveram que a febre amarela se “pegava” por contágio. Em 1903, quando estavam desesperados, com as fazendas abandonadas e a cidade morrendo, eles fugiram e permitiram a Emílio Ribas matar os mosquitos. Em 1904 a febre estava vencida.
Enquanto isso, em Ribeirão Preto, os coronéis locais isolaram a cidade. Nas fazendas a italianada e os pretos não podiam sair. Quem “pegava” a febre era “isolado”: às vezes “executado” para não “contagiar” outros. Mas os coronéis de Ribeirão aprenderam rápido: em 1905 limparam a cidade. Carroças saíam das casas, dos becos, das ruas, levando lixo dos focos onde cresciam mosquitos.
Em São Simão os coronéis preferiram acreditar que a febre se “pegava” por contágio, para evitar que os sanitaristas enviados pelo Estado conhecessem o seu feudo. Depois disseram que a decadência da cidade foi causada pela febre amarela. Mentira: foi por causa do anacronismo político, interferindo no desenvolvimento econômico para manter o autoritarismo do PRP.
No Rio de Janeiro, em dezembro de 1904, Oswaldo Cruz comandava equipes protegidas pela polícia, que invadiam casas pobres e barracos nos morros, para combater o mosquito, o que provocou a Revolta da Vacina.
Cientistas de todo o mundo reuniram-se em Londres, em 1909, na Society of Tropical Medicine and Hygiene, para aprender com Emílio Ribas como combater o mosquito. Ele foi pioneiro no Brasil na luta contra a febre amarela. As glórias ficaram para Oswaldo Cruz. Emílio Ribas morreu pobre e esquecido, trabalhando voluntariamente num leprosário.

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