Júlio Chiavenato
Sexta-Feira, 18 de Janeiro 2008 - 22h48 Dizem que não haverá epidemia de febre amarela. Como é o governo quem diz, acreditamos. Ainda mais se pensarmos que no século 21 febre amarela é heresia. Mas estamos no Brasil, país herético por excelência.
Deus nos livre de uma epidemia de febre amarela. Metade dos que a têm morrem, disse a médica norte-americana Mary Elizabeth Wilson, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Harvard. Então temos de acreditar, pois gringo não mente, a não ser sobre as causas das guerras onde há petróleo.
Mas imaginem se o Diabo Velho apoiar uma epidemia de febre amarela. Dos doentes, pelo menos 60% serão crianças. A mortandade nos tempos de febre amarela pode ser conferida nos registros dos defuntos de São Simão.
Em 1902, ano mais fraco da epidemia, existiam 512 crianças em São Simão: morreram 312 (61%) apenas na cidade (na zona rural a população era maior e não há registros). Para se ter uma idéia da tragédia: em 1928 morreram 5 crianças e em 2002 apenas 2.
Hoje uma epidemia em São Simão mataria 1.396 crianças, das 2.289 que o IBGE registra na cidade. Projetem essas proporções para Ribeirão Preto e vejam as milhares de mortes infantis possíveis numa epidemia de febre amarela, se não houvesse vacinação.
As crianças pobres mortas em São Simão sequer tiveram os nomes anotados. Jogavam-nas nas covas e no obituário escrevia-se que se enterrou um feto, um inocente, duas ou três, ou quatro crianças empilhadas. Eram os filhos dos pobres, imigrantes. Suas covas e seus nomes sumiram. Ainda bem que o governo diz que estamos livres dessa tragédia.
Mas nem tudo é triste no Brasil: este fim de semana a Presidência da República gastou R$ 56 mil em flores para dona Marisa.