Boa Mesa
Quinta-Feira, 24 de Janeiro 2008 - 22h27
ANIMADA Dona Maria de Lourdes não se intimida com o desafio do próximo domingo - participar do grupo que vai cozinhar para pelo menos 2,5 mil pessoas
A fé católica do interior, que resiste da forma mais simples junto às companhias de reis, vai muito além das cores vivas das vestimentas e bandeiras, da voz emocionada dos cantores ou dos arranjos simples da viola caipira. A comida saborosa e abundante dos panelões trazem o desfecho gentil com ares de gratidão às apresentações que mesclam religiosidade e cultura popular.
No próximo domingo, dia em que ocorre o 16º Encontro Nacional de Folias de Reis em Ribeirão Preto, a cozinha ganha trabalho redobrado. Um pequeno exército de 30 cozinheiros voluntários arregaça as mangas. Antes mesmo do sol raiar, por volta das 5 horas da manhã, os voluntários rezam e, depois da prece, tomam um rápido café da manhã para suportar o longo dia de trabalho. É por volta das 16 horas que as atividades são encerradas para valer. Depois do preparo demorado do almoço, tem sempre a fase da limpeza, em que as louças sujas se multiplicam, também à espera dos voluntários.
Com o céu ainda escuro, o primeiro passo do dia é colocar panelas com água no fogo. É hora de fazer o almoço de domingo para pelo menos 2.200 pessoas. No cardápio, comida caseira, simples, cheirosa. O mais importante é acertar no sabor e na quantidade. São pelo menos 105 quilos de macarrão, 250 quilos de batata, 50 quilos de feijão, 150 quilos de arroz. Entre as delícias mais esperadas estão a carne de panela picadinha, o frango ao molho ou frito, a farofa “gordinha”, com bacon, ovo e lingüiça.
Tradição da roça
Segundo a diretora de atividades culturais da prefeitura, Mariangela Quartim, a tradição de servir almoço às companhias surgiu porque os ritos aconteciam nas fazendas e as caminhadas eram muito longas. Para organizar uma festa tão grande, a coordenação do encontro nacional começa a se reunir quatro meses antes para discutir o cardápio e a quantidade de alimentos. O município arca com a maior parte da comida, mas também existem doações da sociedade.
O trabalho é acompanhado por nutricionistas. Mas é sob os olhos atentos e as orientações experientes da dona-de-casa Maria de Lourdes Marques Alves que a cozinha rende um almoço gigante e apetitoso. Há 16 anos, a dona-de-casa cozinha para as companhias de reis.
A dedicação é total. As panelas da festança, por exemplo, vêm da cozinha da casa de Maria de Lourdes. Na véspera elas são levadas para a capela de Santos Reis, junto à igreja Maria Goreth, onde ocorre o encontro. É ela quem coordena passo a passo o andamento da cozinha, mas quando “aperta”, não tem jeito, ela, pessoalmente, assume o fogão.
Lista de alimentos
Muito antes do dia do encontro, é dona Maria também quem faz a lista com os alimentos necessários.
- Às vezes a gente coloca chuchu refogado com cenoura ou uma sopa de mandioca. Tudo depende um pouco também das doações que recebemos, conta Maria de Lourdes.
Apesar de se adiantar na organização, não existe forma de agilizar antes o preparo dos alimentos. É em cima da hora que começam as fervuras, jeito de garantir uma comida fresca às companhias. A cozinheira garante que, apesar da grande quantidade de comida, os erros são mínimos.
- Às vezes a gente deixar queimar um pouquinho o arroz, mas no tempero não tem erro. Experimentamos várias vezes e sempre pensamos que é melhor faltar do que sobrar sal, ela explica.
O encontro
O 16º Encontro Nacional de Folia de Reis acontece a partir das 8 horas na praça José Rossi, na Vila Virgínia. Serão 50 companhias da região de Ribeirão Preto, mas também do interior de Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina. O evento será aberto com a chegada da imagem de Nossa Senhora Aparecida trazida pelo Clube dos Peões de Boiadeiro de Ribeirão Preto. Também haverá a celebração de uma missa pelo padre José Carlos Rossini. Às 16 horas será encenada a chegada dos três reis magos ao presépio vivo do Centro Cultural Arco Íris. Também haverá a exposição de um varal de trovas e de fotografias.
Refeições
O pouso do almoço das companhias
De acordo com o professor do Instituto de Música da Unesp em São Paulo, Alberto Ikeda, historicamente as companhias, que antes passavam por várias fazendas, encontravam ao longo do percurso o “pouso do almoço” e o “pouso do jantar”. Os donos da casa combinavam previamente que serviriam as refeições para as companhias. A comida servida era uma forma de retribuir às companhias em nome da espiritualidade.
- Como são representantes das entidades divinas, no caso os três reis magos, as companhias sempre foram muito bem tratadas, ensina o professor.
De acordo com ele, assim como a música e a dança, o beber e o comer fazem parte do ritual religioso durante a apresentação das companhias.
- Normalmente, o dono da casa, ou seja, quem oferece a comida, esmera na quantidade oferecida, que precisa de abundância, e na qualidade. Não é apenas um mero almoço. Aquela comida passa a ser um componente espiritual, passa a ter um valor diferenciado porque tem o sentido de ser servida aos três reis magos, avalia Ikeda. Para o professor, as festas de Santos Reis, apesar de terem enfoque religioso, transmitem a identidade brasileira e regional aos participantes.
- Os princípios do catolicismo são o mote oficial e formal, mas a reunião em si e os festejos têm um sentido de inclusão na vida comunitária, explica o professor.
Receita
Maçã da Paleta da Folia de Reis
Ingredientes:
• 1kg de maçã da paleta
• sal
• 5 dentes de alho
• pimenta-do-reino
• óleo
• 1 cebola
Preparo:
• Limpar a carne, removendo 70% das gordurinhas
• Picá-la em quadradinhos
• Refogar o alho e a cebola no óleo até dourar
• Jogar três pitadas de pimenta-do-reino
• Colocar sal a gosto, sempre com cuidado para não exagerar
• Refogar a carne até dourá-la
• Cozinhar por cerca de 1h, mexendo sempre e não acrescentar água
Dica da dona Maria de Lourdes: deixar um pouco da gordura na carne pode torná-la mais saborosa depois do longo tempo de cozimento.
ADRIANA MATIUZO