Caderno C
Quinta-Feira, 24 de Janeiro 2008 - 22h32
SÁTIRA INTELIGENTE Nem mesmo figuras clássicas do imaginário infantil como o Papai Noel e a Branca de Neve, escapam do raro humor dos atores que integram o grupo de teatro paulistano Parlapatões
Imagine um espetáculo onde um palhaço aterroriza o público ameaçando explodir tudo se tiver que fazer uma festa infantil. Ou que mostre uma reunião absurda do Sindicato dos Trabalhadores em Fantasias Tipo Cabeção. Pois isso é o grupo Parlapatões.
O novo trabalho da trupe paulistana que comemora 17 anos de serviços prestados ao teatro nacional, tem como alvo os clichês politicamente corretos que nós, adultos, tentamos impor ao mundo infantil. O título não poderia ser mais explícito: Proibido para Menores.
- Na verdade, é uma pequena vingança de alguns membros do grupo por terem trabalhado como animadores de festa infantil, ironiza o sócio-fundador do Parlapatões, Hugo Possolo, em entrevista por telefone.
Popularidade
Escrito, dirigido e protagonizado por Possolo e sua trupe, “Proibido para Menores” não é exatamente um espetáculo para crianças (a idade mínima recomendada pelo Sesc Ribeirão é de 12 anos), mas abusa da temática infantil com sarcasmo exemplar.
Apesar de defender um humor que respeite o espectador, criança ou adulto, Possolo acredita que o bom senso não pode também ser uma camisa de força.
- A função do artista é cutucar a ferida, o que pode, às vezes, incomodar o público, acredita.
Os Parlapatões fazem parte desta categoria rara de artistas que conseguem ser populares, sem ser populistas. Estabeleceram uma linguagem inovadora na comédia brasileira que se comunica perfeitamente com o espectador.
E esta interação é, de acordo com Possolo, um dos principais motivos que impedem que o grupo invista na TV. Para o ator e diretor, o grupo trabalha conectado com o público.
- Já negociamos com todos os canais, mas quando falamos que queremos gravar ao vivo com presença de platéia, ninguém topa, revela.
Trabalho coletivo
Os Parlapatões tiveram sua gênese em 1991, quando Possolo conheceu Alexandre Roit na Escola de Circo de Santo André. No ano seguinte, outros dois atores/palhaços, Jairo Mattos e Arthur Leopoldo Silva, juntaram-se temporariamente à equipe.
Em 1994, entra Raul Barretto que, ao lado de Possolo, forma a dupla central do grupo, no comando até hoje. Ou quase isso, já que os Parlapatões privilegiam o trabalho coletivo.
- A gente toma o cuidado de valorizar o trabalho de todo mundo, informa Possolo.
Além de Hugo e Raul, Claudinei Brandão, Henrique Stroetter e Hélio Pottes completam o time. Hélio, que é anão, entrou quase que por acaso no grupo.
Integrante de uma entidade que luta contra o preconceito às pessoas pequenas, foi “fiscalizar” os Parlapatões durante um ensaio. Gostou tanto que entrou para a companhia.
- Demos sorte, porque já fazia um tempo que precisávamos de um anão, lembra o diretor.
Teatro próprio
Hoje, o grupo, que por anos foi conhecido como “Parlapatões, Patifes e Paspalhões” tem sede, escritório e teatro próprios: o Espaço Parlapatões, na Praça Roosevelt, centro histórico de São Paulo. Algo curioso para uma companhia que se especializou em apresentações na rua.
- Queríamos uma sede, mas que não engolisse o grupo. Graças a nossa experiência no TBC, percebemos que era viável ter um espaço, conta.
Os Parlapatões cuidaram por dois anos da programação da sala de repertório no Teatro Brasileiro de Comédia, com 96 lugares.
- Hoje as condições de trabalho são muito melhores, comenta.
Instituição
Mas para chegar onde chegaram, Possolo e cia. percorreram um duro caminho. O diretor lembra que os primeiros cinco anos de grupo foram bem difíceis, mas graças a um trabalho que envolvia determinação e persistência, os Parlapatões sobreviveram aos altos e baixos do teatro nacional.
- Conquistamos o público com muita insistência. Muitas vezes tirávamos dinheiro do bolso para nos apresentar em cidades do interior, revela.
Possolo conta que os Parlapatões sempre acreditaram no espectador fora dos grandes centros. Para tanto, no início, chegaram a se apresentar para platéias de até trinta pessoas.
- Muitos grupos de São Paulo não acreditam no público fora do eixo. Nós resolvemos arriscar, ressalta.
E deu certo. Depois de mais de 29 espetáculos no currículo, os Parlapatões tornaram-se quase que uma instituição. Mas garantem que não descansam sobre os louros da glória e estão longe de repetirem fórmulas.
- É claro que temos uma marca, um estilo. Mas existe uma preocupação permanente em não nos repetirmos, conclui.
CRÍTICA
Para especialistas, grupo vai além da liguagem infantil
Para o artista plástico Jair Correa, membro do grupo de teatro Fora do Sério, a grande qualidade dos Parlapatões é mostrar a figura do palhaço em todos os aspectos.
- Eles exploram a sensibilidade deste personagem falando de coisas sérias com muito humor, afirma Jair que diz acompanhar o trabalho da trupe desde o início dos anos 90.
Gilson Filho, professor de teatro e fundador da ONG Ribeirão Em Cena, afirma que Hugo Possolo e cia. desenvolvem um trabalho que ultrapassa os limites do teatro infantil.
- Realizam um trabalho de pesquisa, laboratorial mesmo, com excelentes resultados. Os Parlapatões são uma referência no teatro paulista, argumenta.
Serviço
Proibido para Menores
Com o Grupo Parlapatões. Amanhã, às 20h30, no Galpão de Eventos do Sesc-RP. Ingressos a R$ 8, R$ 4 e R$ 2.
Inf.: (16) 3977-4477