Caderno C
Sexta-Feira, 25 de Janeiro 2008 - 23h2
MOACYR FRANCO Aulas de inglês e planos de se apresentar no Carnegie Hall, em Nova York
Moacyr Franco morre de amores por Ribeirão Preto. Viveu na cidade por dois anos, na década de 50, mas revela que foi um período que o marcou para sempre. Aqui trabalhou na lendária rádio PRA-7 ao lado de outras feras como Rogério Cardoso, o Rolando Lero da “Escolinha do Professor Raimundo” e até mesmo no Jornal A Cidade.
Homem de vários talentos, começou ainda garoto como cantor em Uberlândia, cidade onde viveu durante a infância e adolescência. Nascido em Ituiutaba/MG há 71 anos, fez fama na Rádio Nacional e principalmente na TV Rio, onde lançou o personagem Mendigo, da Praça da Alegria.
Tornou-se tão popular que foi convidado para gravar uma marchinha que o elevaria à estratosfera: “Me dá um dinheiro aí”. Desde então, gravou vários álbuns e ganhou dezenas de discos de ouro.
Moacyr apresenta hoje e amanhã no Palestra Itália os grandes sucessos de 47 anos de carreira. Em entrevista por telefone, falou sobre seus anos de ouro e seus projetos para o futuro. Um deles é cantar no Carnegie Hall, em Nova York.
A Cidade – Alô Moacyr, aqui é do Jornal A Cidade...
Moacyr Franco – A Cidade? Você sabia que eu já trabalhei neste jornal? Eu desenhava uns cabeçalhos na página de um colunista chamado Antonio Alberto Alvergaria. E fazia cartazes também para os cines São Jorge e Centenário, além de outras coisas. Eu era “letrista”.
A Cidade – Mas você trabalhava também na rádio PRA-7?
Moacyr – Sim, tinha uns 18 anos. Fiz teste para ser comediante e passei. Eu e o Gilberto Garcia, que é pai da Rosana e da Isabela Garcia. Ficamos fazendo programas da casa como “Bafo e Seo Iô-Iô”, que falava do Comercial e do Botafogo. E também era crooner de uma orquestra onde cantava coisas da época como calipso e rock. Aí um belo dia pedi ao senhor (José da Silva) Bueno, dono da rádio, para me mandar embora, porque estava indo para São Paulo. Ele disse: “você está comprando um bilhete de loteria”.
A Cidade – Por que ele disse isso?
Moacyr – Porque eu tinha uma vida muito boa em Ribeirão. Com todos os trabalhos que fazia, ganhava uns Cr$ 9 mil, sendo que o salário mínimo na época era de Cr$ 2,5 mil. Pra você ter uma idéia, eu pagava Cr$ 700 de aluguel. Mas então o Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, ex-Rede Globo) já dirigia um programa em São Paulo na TV Record. O Aluisio Silva Araújo, que era um grande autor, já fazia um trabalho na TV Paulista. Então resolvi ir embora.
A Cidade – O que Ribeirão Preto representou pra você?
Moacyr – É um referência de felicidade. Fui muito feliz em Ribeirão Preto. Tenho muitas saudades, mas toda hora eu passo por aí pra visitar os amigos.
A Cidade – E foi aqui que também conheceu o Rogério Cardoso?
Moacyr – Sim. Foi um dos melhores amigos que tive. A gente jogava futebol de salão e o Rogério era um goleiro engraçadíssimo. Um ano depois que vim embora para São Paulo, encontrei ele num bar em frente à TV Excelsior, de terno e gravata, vendendo biscoitos de chocolate pra Nestlé (risos). O Rogério era uma das poucas pessoas que eu tinha certeza que era genial. Tinha um estilo completamente diferente de todos. Aí levei ele para o Boni na TV Excelsior, que o contratou na mesma hora.
A Cidade – Então você apadrinhou ele?
Moacyr – Sim. E além disso, ele fez a letra de dois grandes sucessos da minha carreira: “Balada para um Louco” e aquela música conhecida (cantarola) “Há um mundo bem melhor...” (É “Pequeno Mundo”, versão de “It’s a Small World”).
A Cidade – É verdade que vocês dois viviam cantando no banheiro da PRA-7?
Moacyr – É que naquele tempo não havia câmara de eco e a gente ia ensaiar no banheiro. A PRA-7 tinha 32 banheiros (eram 33). O Seo Bueno tinha mania por banheiros. Mas a PRA-7 era importantíssima.
A Cidade – Viu o que aconteceu com o prédio da rádio?
Moacyr – Virou uma loja de carros, não é? (Na verdade, é uma loja de peças). É uma judiação, porque aquele prédio tinha que ser tombado. A PRA-7 era uma referência em todo o país. Nas décadas de 50 e 60, era o equivalente ao o que a Rede Globo é hoje. Uma coisa impressionante.
A Cidade – Você é ator, cantor, humorista e roteirista. Naquela época, todo artista tinha que ser completo ou você era uma exceção?
Moacyr – Fui obrigado a fazer de tudo, porque as nossas referências da época também sabiam tudo. Inclusive sapateado, porque os “showmen” da época, que a gente chamava de “chansonniers” faziam isso. Morris Chevalier, Sammy Davis Jr. e todas as estrelas dos Estados Unidos e da Europa cantavam, faziam humor e atuavam. E agora isto está na moda de novo. Como é que se chama mesmo?
A Cidade – Comédias “Stand Up”?
Moacyr – É, isso aí. Aqui em São Paulo tem uns cinqüenta shows por dia disso. Mas eu fazia do meu jeito, porque tinha pressa pra aprender as coisas. Imagina uma rapaz que saiu de Uberlândia e pouco tempo depois estava convivendo com o pessoal (dos estúdios de cinema) da Atlântida, da Vera Cruz e cantando com artista americano. Foi uma loucura.
A Cidade – Mas você nasceu em Ituiutaba?
Moacyr – Sim, mas passei a minha adolescência em Uberlândia. Em Ribeirão Preto foram dois anos, mas parece que vivi aí uns 20. Foi um período muito importante pra mim. Os dias pareciam ser muito longos. Parecia que do café da manhã até a hora do almoço você fazia uma monte de coisas. A tarde também era interminável. Eu acho que deve ter acontecido alguma coisa no planeta que encurtou o dia.
A Cidade – Mesmo assim você não pára. Está aprendendo inglês agora.
Moacyr – Sim, sem cultura a gente não sobrevive. Principalmente nesta área de comunicação. Além disso, ainda tenho esperanças de fazer um show no Carnegie Hall um dia.
A Cidade – Sério?
Moacyr – Claro. Tenho 71 anos, minha cabeça tá boa, continuo escrevendo muito e canto melhor hoje do que antes. Mas como rádio não tem mais nada a ver com música, quero investir na internet, no meu site (www.moacyrfranco.com.br), fazer meu blog e usar todas estas mídias.
A Cidade – E como vai ser este show aqui em Ribeirão Preto?
Moacyr – É o que eu sempre digo. Podem ir sossegado que não tem nenhuma novidade. Porque não tem nada pior para um fã do que um artista antigo que fica cantando coisa nova.
Serviço
Procura pelo show é grande
A procura pelo “Show Imperdível” de Moacyr Franco no Palestra Itália de Ribeirão Preto foi tão grande que não há mais mesas a disposição para hoje à noite, só ingressos individuais. O cantor e humorista também vai se apresentar amanhã no “Almoço com Moacyr”, a partir do meio-dia. A mesa para quatro pessoas custa R$ 60. Mais informações pelos telefones: (16) 3636-5000 e 9729-9121.