Jornal A CIDADE

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Marcelo Canellas

Sabado, 26 de Janeiro 2008 - 17h21

Sobre mangas, travestis e trólebus


Foi há vinte anos. Eu era um foca, jornalista recém-formado, vindo do sul, alumbrado com o que via. Em Ribeirão Preto havia cana, me diziam. E terra vermelha. E um calorão bravo. E um chope inigualável. Mas o que me espantava era pé-de-manga.
Na minha terra tinha pessegueiro, pereira, macieira, todas as frutas do frio. Manga só dava em prateleira de supermercado. Meu pai tentou proteger uma muda de mangueira atrás de um galpão. A arvorezinha se animava toda no verão, mas sucumbia na primeira geada invernal. A gente sabia de uma mangueira ali, outra acolá, estóicas e quixotescas, enfrentando o vento minuano com a galhardia tropical dos exilados. Mas ver uma manga no pé, redonda e graúda, só vi mesmo aos vinte e dois anos de idade, aqui em Ribeirão. Árvores enormes, apinhadas, os galhos vergados pelo peso, as frutas no chão. Ninguém apanhava.
Passantes enfarados de tanta manga desdenhavam do tesouro acumulado nos quintais. A vontade que eu tinha era comer tudo aquilo, ou abrir uma quitanda. Aluguei um apartamento na avenida Francisco Junqueira, em cima de uma loja de autopeças. Fui com a cara do prédio, de esquina, porque tinha uma mangueira defronte. Só à noite, quando voltei do trabalho na então TV Ribeirão, é que descobri que a porta da minha casa era ponto de prostituição. Fiquei chapa de Vera Biscoito, um travesti de um metro e noventa de altura, que depois do expediente, toda manhã, me acompanhava até o terminal da praça Carlos Gomes. Vera só queria conversar. Chorava de saudades de Araraquara. O pai, metalúrgico, só a aceitava de volta se ela tornasse a ser Raimundo. Mas Vera queria continuar Vera, Raimundo não mais existia. Ela tomava um trolebus, e eu tomava outro. Ela para casa, eu para o trabalho.
No caminho, eu dividia minha atenção entre uma bela loura com crachá da Ceterp, com quem flertei durante um ano sem nunca trocar palavra, e as mangueiras alinhadas nas calçadas. O cheiro da manga me entorpecia. Certa noite, numa mesa do Pinguim, eu falava, embevecido, das árvores da cidade. O Rubão Volpe e o Datena gargalhavam, fazendo troça do gaúcho, alter ego de caipira, tonto de espanto com a novidade. Vinte anos. Foram-se os trolebus, ficaram as mangueiras. E Vera? O que será que foi feito de Vera?

Marcelo Canellas é jornalista e repórter especial da Rede Globo

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