Caderno C
Sabado, 26 de Janeiro 2008 - 17h23
TRADIÇÃO Companhias de Reis são preservadas graças à dedicação das famílias do interior. Os foliões representam os três reis magos e vestem fardas e adereços coloridos
Muita gente pensa que Baltazar Aparecido Alves recebeu o nome em homenagem a um dos três Reis Magos que, de acordo com a Bíblia, visitam o recém-nascido Jesus Cristo na manjedoura. Mas ao explicar os reais motivos de seu pai Adolfo Alves ao lhe batizar, é de uma sinceridade desconcertante.
- Na verdade, Baltazar era um jogador que fez muito sucesso no Corinthians no ano que nasci, em 1957, conta.
O fato é que, além da paixão pelo Corinthians, pai e filho nutrem um incrível espírito de devoção e determinação pela defesa de uma das manifestações populares mais tradicionais do interior brasileiro que é exemplar.
Além de ter organizado o primeiro festival de Folia de Reis em Ribeirão Preto há 16 anos, a Cia. Irmãos Adolfo foi uma das grandes responsáveis pela criação de uma lei municipal que oficializou a festividade no calendário municipal.
- Na época, chegaram a me dizer que Folia de Reis era algo enterrado, mas conseguimos provar o contrário, conta Baltazar.
Início
Naquele dia 26 de janeiro de 1992, um caminhão foi utilizado como palco na Vila Virgínia, e cerca de 15 companhias compareceram. Mesmo com pouca divulgação, o evento reuniu um número expressivo de pessoas. Nos anos seguintes, o encontro se confirmou como uma das festas mais populares na história de Ribeirão Preto. No ano passado, contabilizou um público de mais de 12 mil pessoas.
- O povo é carente desse tipo de festividade. Principalmente o pessoal que vem do campo, que tem saudades destas manifestações, acredita Baltazar.
Este ano, a Prefeitura espera a presença de 50 companhias das regiões do interior de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e até mesmo de Santa Catarina.
- Além disso, muita gente vem de todo o país para ver o encontro. Esta semana mesmo recebi telefonemas de Curitiba e do Rio de Janeiro, diz.
Baltazar ressalta que os grupos de fora comparecem ao evento por conta própria, sem qualquer ajuda de custo para a viagem.
- Isso ainda é um problema, porque houve uma proposta de se criar um fundo para ajudar estas pessoas. Mas até agora só ficou na conversa, comenta.
Cavaquinho
Baltazar está na Cia. de Reis Irmãos Adolfo há 45 anos, desde o exato momento em que seu avô lhe presenteou com um cavaquinho, instrumento que toca até hoje. A companhia conta atualmente com 19 pessoas e 14 são membros da mesma família.
O grupo tem seis jovens entre 12 e 16 anos, incluindo a filha adolescente de Baltazar, o que prova que a nova geração também se interessa pela tradição.
- Acredito que se houvesse um trabalho de conscientização junto a garotada, principalmente nas escolas, muitos demonstrariam interesse, argumenta.
Os Irmãos Adolfo são uma das poucas companhias da região que tem material gravado. Lançaram dois CDs independentes, com uma tiragem de mil cópias cada.
O primeiro volume traz toadas tradicionais, cantadas de pai para filho durante décadas. E o segundo volume tem composições inéditas escritas por Baltazar.
Para ele, a Folia de Reis é quase que uma filosofia de vida. Ao tentar explicar sua fé, repete um texto escrito por ele na capa de um dos CDs gravados.
- Para nós é uma manifestação religiosa, para os intelectuais, uma manifestação cultural. Para os protestantes é uma heresia, mas para Deus todas as manifestações em seu nome são bem-vindas, por isso a abençoa, conclui.
Programação
Encontro de hoje começa com chegada de imagem de Nossa Senhora
A Prefeitura é responsável por toda a estrutura do evento. Desde a montagem do palco até a alimentação e estadia de alguns grupos. O encontro começa às 8 horas, na Praça José Rossi, na Vila Virgínia, com a chegada do Clube de Peões de Boiadeiro de Ribeirão Preto, que carregam a imagem de Nossa Senhora Aparecida e celebração de missa pelo padre José Carlos Rossini. Com o hasteamento das bandeiras vão ser entoados cânticos pelo grupo da Igreja Santa Maria Goretti, Vadinho e Umiraí e Companhia de Reis Irmãos Adolfo.
Presépio Vivo
As companhias vão se apresentar durante o dia todo até às 20 horas. A patronesse da festa, Carmen Luiza de Rezende, vai ser homenageada. Carminha foi a coordenadora da primeira festa do Folclore de Ribeirão em agosto de 1991, na avenida Costa e Silva.
Outra atividade da programação de hoje é a revoada de pombos no Centro Cultural Arco Íris, às 16 horas, com encenação da chegada dos Três Reis Magos no Presépio Vivo.
A cerimônia vai ser encerrada com um Varal de Trovas, coordenado por Nilton Manuel, e Exposição de Fotografias do MIS (Museu da Imagem e do Som) e Cine Foto Clube Ribeirão Preto.
História
Festa chegou ao Brasil no século 18
A Folia de Reis é uma festa religiosa de origem portuguesa, que chegou ao Brasil no século 18. Reproduz a viagem dos Reis Magos (Baltazar, Melchior e Gaspar) a Belém para adorar ao Deus-Menino (Jesus Cristo), e freqüentemente é organizada por devoção ou pagamento de promessa.
Com a promessa o fiel assume um compromisso de participação na folia de reis por, no mínimo, sete anos. Tradicionalmente, o número de componentes, ou foliões, são de no mínimo 12. Mas Baltazar Alves, da Cia. Irmãos Adolfo, diz que existem grupos de três a 40 pessoas.
Os foliões representam os soldados dos Reis Magos. Vestem roupas denominadas fardas, semelhantes a uniformes militares, e organizam-se a partir de critérios estabelecidos de acordo com a função de cada um.
Mestre
O mestre é a autoridade suprema e todos lhe devem obediência. O contramestre é o encarregado de recolher donativos e complementar a cantoria, por vezes ininteligíveis. O bandeireiro é o encarregado de levar a bandeira. Os palhaços assumem o papel de divertir as pessoas.
Seu ciclo de apresentação vai de 24 de sezembro a 6 de janeiro, podendo se estender até o final do mês de janeiro, de acordo com cada região. Cantam as jornadas dos reis magos ou passagens da vida de Jesus em frente às casas, pedindo a abertura de portas. Finalizam com o agradecimento e a despedida.