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Caderno C

Terça-Feira, 29 de Janeiro 2008 - 21h42

Na Reta Final

Régis Martins
J.F.PIMENTA/ESPECIAL Na Reta Final EMBAIXADORES DOS CAMPOS ELÍSEOS Carros alegóricos são montados em barracão próprio

Ser presidente de escola de samba não é nada fácil e às vésperas do Carnaval a situação é ainda pior. Eles não dormem, se alimentam mal e tiram dinheiro do próprio bolso para garantir os espetáculos na passarela.
- Já estou no vermelho no banco e até o mês que vem meu salário está comprometido, informa Carlos Eurípedes da Silva, o Carlão, presidente da Tradição do Ipiranga, campeã do ano passado.
Carlão diz que sequer vai pra casa. Funcionário público, sai do serviço direto para o Parque de Exposições, no Jardim Aeroporto, onde os carros alegóricos são montados. No último final de semana, dormiu no chão do local, para adiantar o serviço.
- A gente vem montando os carros com três pessoas. Só a partir desta semana que colocamos mais três, ressalta.

Cooperação
A Tradição é o exemplo de que a união faz a força. Por questões financeiras e estruturais, todos participam das decisões da escola. Os carnavalescos são os próprios integrantes da diretoria.
- Aqui, cada diretor de ala fica responsável pela sua área, explica Carlão.
Esta filosofia de trabalho rendeu frutos. Ano passado, a escola entrou na passarela por último com pouco mais da metade do repasse da Prefeitura. O resto foi usado para pagar dívidas.
Apesar dos problemas, foi a grande vencedora de 2007, acabando com uma invencibilidade de anos da dobradinha Bambas/Embaixadores.
- Este ano ainda estamos atrás de patrocínio para fechar a conta, mas com certeza, entramos na passarela mais confiantes, garante o presidente.

Segredo
A escola é a última a preparar seus carros antes do desfile. Carlão informa que as alegorias são colocadas na manhã do domingo de carnaval. Mas ele jura que não se trata de estratégia para manter segredo até o último momento.
- Temos peças de ferro, madeira, mas também muito isopor e por isso não podemos nos deslocar muito, explica.
Para o enredo de “Azam Keza, Tradição no reino de Zinga a rainha quilombola de Matamba e Angola”, a escola vai contar com três carros alegóricos: o abre-alas com o célebre beija-flor, símbolo da Tradição, em seguida, o carro da Fauna e Flora e por último, o carro dos animais da África.
Carlão afirma que o carnaval local melhora a cada ano e a Tradição provou que hoje qualquer escola de Ribeirão tem condições de fazer bonito no desfile. Otimista, diz até que as escolas estão mais unidas.
- Pra mim, sempre houve cooperação. Se não tivesse, não dividiríamos o mesmo espaço para montar os carros, argumenta.

Pneu murcho
Jair Valeriano de Brito, presidente da Camisa Preto e Branco concorda que as escolas se ajudam, porém com ressalvas.
- O problema é quando os carros amanhecem com os pneus murchos. De resto, tá tudo bem, ironiza.
Assessor parlamentar, Jair diz que também tira dinheiro do bolso para garantir um desfile de qualidade. Tudo por amor à escola.
- Na verdade, não gosto de desfilar. Sou um administrador e não um folião, revela.
Há quase dois meses, ele e a esposa trocaram a casa pela quadra da Preto e Branco, que fica no Conjunto José Sampaio, bairro onde vivem.
- Já levei até fogão e cama pra lá, diz a esposa e vice-presidente Cleusa Maria Santos Brito.
O sonho do casal é, no próximo carnaval, montar os carros na quadra da escola, mas pra isso precisam terminar as reformas no local.
- Quero transformar nossa quadra num grande centro cultural para a comunidade, afirma Jair.

Sítio do Picapau
O tema do samba-enredo deste ano da Camisa Preto e Branco é o tricampeonato da agremiação nos anos de 92, 93 e 94. O título não poderia ser mais sugestivo: “Relembrando o Passado – Os três anos de Ouro do Camisa”.
O abre-alas é um livro imenso acompanhado dos personagens do Sítio do Picapau Amarelo, todos feitos com zinco retorcido. Obra do artista plástico Adilson Antônio Sacilotto, o Aasa.
- Faço desde miniaturas em metal até mega esculturas, explica Aasa.
Adilson não é o único profissional contratado pela Camisa. A escola conta com três carnavalescos para os desfiles de domingo. Para tanto, Jair prevê gastar cerca de R$ 53 mil, oito mil a mais do que o repasse municipal.
- Este resto vem de patrocínios e do meu bolso mesmo, comenta.
Para o presidente, R$ 53 mil é um preço razoável para “um carnaval mediano”. Para um desfile realmente bom, ele acredita que o repasse da Prefeitura deveria chegar a R$ 80 mil.
- Mas já acho nosso carnaval de rua o melhor da região. O que precisa é a maior participação da sociedade, conclui.

Embaixadores
A única escola a ter um barracão próprio para a montagem dos carros é a Embaixadores. Seu presidente, Luiz Carlos Nascimento, conta todo ano com um grupo de funcionários que trabalha arduamente num grande galpão de uma transportadora desativada que fica bem em frente a quadra da escola.
O local, na Vila Mariana, foi emprestado pelo dono da empresa e desde então é utilizado para a construção e confecção dos carros alegóricos da agremiação.
Neste clima de intensa produção, a maioria dos carros já está praticamente pronta e é um exemplo de beleza e luxo. Com 40 anos de vida e diversas vezes campeã, a Embaixadores é um exemplo administrativo, porém isso não foi suficiente para o título do ano passado. A Tradição do Ipiranga tirou o tetracampeonato das mãos de Nascimento.
O que prova que, a exemplo do futebol, o Carnaval é uma caixinha de surpresas.


Reivindicação
Entidade pede a implantação de um Sambódromo em Ribeirão Preto
Para o presidente da União das Escolas de Samba de Ribeirão Preto e região, ala dissidente da Liga Ribeirão-pretana das Organizações Carnavalescas, o carnaval de Ribeirão não deve nada para as cidades da região, até mesmo aos tradicionais desfiles de Batatais. O problema, para André Justino Neto, é outro.
- O que nós precisamos mesmo é de um local adequado para os desfiles, um sambódromo. Temos que sair daquela avenida Mogiana, afirma.
O assunto é antigo, porém longe de uma solução. André reclama que a atual administração sequer tem a proposta de um local ou mesmo um cronograma de obras.

Centro de Eventos
O presidente da União afirma que o sambódromo funcionaria numa área que já tem até nome, Centro Municipal de Eventos, com uma programação variada o ano inteiro. A verba arrecadada seria revertida para as escolas e para a infra-estrutura dos desfiles.
- Seria até uma forma de desonerar a Prefeitura, mas não há interesse. O que a gente precisa é de um prefeito que goste de Carnaval, afirma.
O secretário da Cultura Vicente Seixas revela que realmente ainda não há qualquer definição sobre o assunto. Nem mesmo uma análise inicial de se instalar o Centro Municipal na área dos galpões abandonados na Rodovia Alexandre Balbo foi avante.
- Esta idéia não evoluiu. Mas este ano pode ser que haja alguma definição, diz.

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