Caderno C
Quarta-Feira, 30 de Janeiro 2008 - 22h26
DE OLHOS BEM ABERTOS Truques do mágico Darles chamam a atenção de quem passa pelo Calçadão da praça XV de Novembro, bem no Centro de Ribeirão Preto
Praça 15, Centro de Ribeirão Preto, 11 horas da manhã. Um grupo de curiosos de todas as idades e credos se aglomera a poucos metros do calçadão para ver um show gratuito de truques e muita perspicácia.
- Aqui se encontra a habilidade, grita o rapaz de 24 anos que não pára de falar sequer um minuto.
Enquanto coloca fogo num jornal picado, guarda uma cobra numa pequena bolsa, retira um ovo de um saco cinza. Farley Ferreira dos Santos ainda tem tempo de tirar sarro do repórter e do fotógrafo:
- Falem bem do baiano, senão eu faço uma macumba pra vocês, brinca.
Na verdade, Farley é mineiro e o que ele faz não tem nada de feitiçaria. É mágica, na qual, como ele próprio repete, “a mão é mais rápida do que o olho”.
- O segredo eu não posso revelar. E se vale a palma, podem aplaudir, diz para a platéia.
Telepata
Farley, mais conhecido como o mágico Darles, diz que se apresenta nas ruas de Ribeirão Preto desde os sete anos. A paixão pela mágica e outras artes ilusionistas vem de família, já que o pai também se apresentava como telepata, a exemplo do irmão mais velho, Sérgio Rodrigo dos Santos. Os dois irmãos trabalham juntos.
- Já trabalhamos em vários circos como o Moscou e o Beto Carrero World e nos apresentamos em TVs de São Paulo, conta Farley.
Sangue cigano nas veias, os irmãos Santos percorrem todo o Estado apresentando-se em festas, escolas e eventos em geral. Mas principalmente nas ruas.
- Trabalhar na rua é bem gratificante, porque circo e TV não pagam muito bem, garante.
Pomada
Mas para faturar nas “vias públicas”, como gostam de dizer, os irmãos Santos utilizam uma estratégia diferenciada. Ao invés de rodar o chapéu logo após o show, eles vendem alguns produtos que vão desde sabonetes a uma tal “pomada da Amazônia”, feita com cânfora, que cura “desde dor de cabeça a inflamação na coluna”.
- Compra quem quer, porque não ficamos abordando as pessoas, mas é preciso ser bom de papo, garante o mágico, que chega a ficar afônico após as apresentações.
Farley/Darles vive em Sertãozinho com mulher e filho e diz que percorre diariamente a região com seus shows de magia. E garante que é em Ribeirão onde mais ganha dinheiro.
- Aqui o pessoal dá valor para o artista, garante.
Associação
Farley revela que aprendeu alguns de seus melhores truques na Associação dos Mágicos de São Paulo, onde os profissionais trocam informações e buscam atualização. Mas revela que a rua também é uma grande escola.
- É um local onde você precisa improvisar bastante e nunca se repetir, porque as pessoas querem novidades, informa.
O rapaz diz que nunca a mágica esteve tão popular e, ironicamente, acredita que isso aconteceu desde o aparecimento de Mister M, aquele sujeito que revelava truques de todo o tipo em horário nobre.
- A verdade é que ele só revelava truques antigos e obrigou muita gente a se renovar, comenta.
Advocacia
Os irmãos Santos se revezam durante o show. Enquanto o mágico Darles descansa de suas estripulias, o irmão Sérgio entra em cena com a esposa e suas habilidades telepáticas.
Pai de seis filhos, chegou a cursar advocacia durante um ano e conta que se apresenta em Ribeirão e região desde 95. A exemplo do irmão caçula, também gosta de fazer shows na rua.
- Acho bem melhor. Aqui, tem trabalho o dia inteiro, diz.
Sérgio afirma que as técnicas utilizadas em áreas abertas são bem diferentes dos shows fechados.
- Quando somos contratados para festas e eventos, é uma apresentação mais profissional com roupa e aparelhos específicos, explica.
Mas, mesmo sem toda a parafernália necessária, os irmãos agradam o público. Que o diga o pedreiro Ciro Santos da Silva, de 19 anos, hipnotizado pelo jeito carismático e bonachão da dupla ilusionista.
- Acho “da hora”. Vejo eles direto quando venho aqui para o Centro, ressalta.
Farley, ou melhor, o mágico Darles se anima:
- Vou fazer isso até morrer, conclui.
Protetor
São João Bosco é o padroeiro dos mágicos
Segundo informa o site www.magicando.com.br, a data de hoje é comemorada em homenagem a São João Bosco, padroeiro dos mágicos, que segundo a tradição era também um ilusionista.
O pai da mágica no Brasil é João Peixoto dos Santos, mineiro da cidade de Formiga. Ele aprendeu a técnica com mágicos árabes que viajavam pelo Brasil fazendo apresentações. Com dezenove anos foi estudar Mágica em Paris. Escreveu grandes livros sobre mágica, que foram traduzidos em seis línguas.
Os pais do cinema, Augusto Lumiére e George Mélies eram aficionados por mágica. Lumiére inventou o cinematógrafo e Méliès foi pioneiro do cinema na França.
A palavra “abracadabra”, de acordo com o site, é derivada do deus grego Abraxas.
O Mestre
Houdini foi o mais famoso de todos
O húngaro Ehrich Weiss, mais conhecido como Harry Houdini, foi o mágico mais famoso dos Estados Unidos, e conseqüentemente de todo o planeta.
Teve uma infância muito pobre e praticamente fez de tudo até se tornar um ilusionista. Foi perfurador de poços, fotógrafo, contorcionista, trapezista e até ferreiro. Foi nesse ofício que aprendeu os primeiros truques. Certa vez, foi encarregado de abrir um par de algemas cuja chave um policial perdera. Após inúmeras tentativas usando serras, Houdini teve a idéia de usar uma pinça para abrir a fechadura. A técnica serviu de base para abrir todas as algemas, correntes e cadeados que usava em seus shows.
Outro de seus vários talentos era ficar vários minutos dentro d’água sem respirar. E foi numa destas demonstrações de suas habilidades - a “incrível resistência toráxica” - que morreu, em 1926.