Jornal A CIDADE

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Vicente Golfeto

Sexta-Feira, 1 de Fevereiro 2008 - 22h29

A vinha das almas


O carnaval moderno – sobretudo o brasileiro – é a restauração do paganismo transportado para os ditames da sociedade do espetáculo. Speculum, no latim, quer dizer espelho, algo ligado à visão, à ops, opis – dos gregos – que tem o oftalmo, o olho, como instrumento.
O rei do carnaval é Momo, das loucuras, das folias. Mas, como a maior festa pagã do universo, vai sofrendo mudanças.
O olho mudou o carnaval. Que passou de ser vivido e visto para ser apenas visto.
O carnaval ainda existe nos salões – onde pode ser sentido – e, mesmo numa escola de samba, ele é sentido pelos figurantes. Mas, cada vez mais, os desfiles acontecem para exibições.
Os que desfilam, se expõem. São os componentes das escolas. Já os que assistem aos desfiles, na verdade, observam, vêem. São a esmagadora maioria.
Cresce a condição do carnaval como festa de espetáculo. E cai, na condição de festa para ser vivida, sentida. Conhecemos, então, as pessoas pela máscara. O oposto da vida real, em que a máscara esconde o rosto. No carnaval, a máscara – escondendo o rosto – mostra o interior, a alma. Desrecalca-se.
É por esta transformação, que representa um ajuste de Momo aos tempos atuais – tempos de voyeurs – que podemos verificar a contaminação da sociedade pelo espírito do carnaval.
Falamos da descontração. Em festa de Momo, Eros e Baco são sempre convidados. E por aí vem o aumento da liberação pessoal.
Forma-se o trinômio loucura, amor e vinho, uma combinação que enche os olhos e nos convida também a ser espectador.
O olho continua sendo a avenida de Eros, de braço dado com as loucuras de Momo e com as bebidas de Baco. Aliás, bacanal – festa de vinho e de sexo – é folia cuja chave de abertura é dado por Baco, pelo vinho.
Eros chega depois. Mas chega, não raro acompanhado de Bia, a violência.
Afinal, os romanos já diziam que a verdade está no vinho. Um carnaval cheio de paz. E de alegria.

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