Jornal A CIDADE

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Júlio Chiavenato

Sabado, 2 de Fevereiro 2008 - 20h50

Tríduo momesco


Primeiro dia do tríduo momesco. Como sou um baita intelectual, desses que leu as orelhas dos livros e pesquisa na Internet, sei que a origem do Rei Momo está na península ibérica, no distante – mas para mim nem tanto – século dezesseis.
Antigamente os historiadores, que nada sabem, pois quem sabe tudo é jornalista e mais que todos os livros, os manuais de redação, como dizia?, sim, antigamente os historiadores e os eruditos em geral (estes nem mais existem) grafavam os séculos em algarismos romanos, para diferenciar dos números comuns. Eu, cá por mim, tascarei em letrinhas – século dezesseis – porque, convenhamos, século 16 é coisa de jornalista.
Feito o preâmbulo, continuemos. Neste carnaval muita gente morrerá nas estradas.
A televisão mostrará travesti argentino e artista baiano se esgoelando atrás, em cima e debaixo do trio elétrico. Pode chover, ou não. As escolas de samba do Rio desfilarão em pleno dia. Mulatas mostrarão seios e bundas. Uma cantora negra será convidada pela Globo para falar das comunidades: no carnaval favela vira comunidade.
Escolas de samba marcharão militarmente, ao rufar de bumbos, tambores e instrumentos primitivos. Mas os entendidos dirão que existe coreografia, fuga e contraponto e temas históricos. Negros, índios, florestas amazônicas e coisas do gênero encherão os olhos dos embasbacados telespectadores.
Alguém dirá que São Paulo mudou muito, não é mais o túmulo do samba. Ah, sim, os bicheiros estarão na comissão de frente, junto aos velhos da comunidade, de ternos estranhos, arrastando os pés.
E tem as tias zicas ou coisa parecida. Se ainda não morreu, veremos o Jamelão sem fôlego, ajudado por um cantor desafinado. É isso.

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