Hamilton de Andrade Lemos
Quarta-Feira, 6 de Fevereiro 2008 - 22h46 Embora distante da qualificação de católico apostólico romano, por um legado cultural costumo guardar a quaresma.
É que, como brasileiro, estou medianamente acostumado às impossibilidades e aproveito o período para não fazer ainda menos coisas prazerosas.
É uma maneira de desagradar o corpo, na esperança de purificar o espírito. Acompanhe minha lista.
Obviamente não comerei picanha. Serei rigoroso com o preceito. Mas também não comerei peixe, que está pela hora da morte e este ano a piracema ainda não acabou. Ajudo meu bolso e a natureza ao mesmo tempo.
Sobram as frutas, verduras, legumes e milkshakes, dos quais consumirei somente os últimos.
Não torcerei nem uma vezinha para o Botafogo e nem para o Comercial. Eles fazem jejum de vitórias e eu de presença no estádio. Mesmo sendo esta a única oportunidade de ver um frango.
Não pagarei contas. Mais por falta de caixa do que uma opção religiosa, admito.
Também é falta de tempo, porque as lotéricas não aceitam cheques e ainda querem restringir o horário de atendimento.
O mundo acolhe meus propósitos santos.
Os antigos tinham o hábito de não ouvir música nestes dias. Também adotei a renúncia.
Será um imenso sacrifício ficar 40 dias sem os inefáveis acordes do axé music, do pancadão, do sertanejo de zona e do pagode.
Para completar não vou pegar folhetos nos semáforos, não vou andar de avião, não vou viajar para o Caribe, não beberei champanhe francesa e nem comerei jiló. Também não farei ironias.
Como se pode ver, a quaresma será uma trágica mudança de rotina. Não sei se vou agüentar. Que Deus me ajude!