Jornal A CIDADE

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Hamilton de Andrade Lemos

Quinta-Feira, 7 de Fevereiro 2008 - 23h39

Aleluias e vestibulandos


A sabedoria do povo da roça povoou boa parte de minha infância. Foi com essa gente simples e atenta que aprendi que um crepúsculo rosado pode trazer geada no inverno. Ou que não se brinca no riacho em tempo de chuva. Pode chover na cabeceira, trazendo enxurradas repentinas. Um perigo, como vimos nos jornais.
Um dos aprendizados caipiras infalíveis que guardo também está relacionado com as chuvas. Neste fevereiro, em que elas parecem eternas, me lembro de observar os sinais de seu fim. E este sinal vinha com a revoada das aleluias, um tipo de cupim muito comum que sabe melhor do que qualquer meteorologista quando vai estiar. Juntou aleluia, pode saber que vem tempo firme. Uma festa para os bichinhos e uma trégua para os humanos.
Lembrei-me do fato quando vi, do alto do edifício onde trabalho, outros bichos: os que passaram no vestibular (provavelmente na Fuvest). Ô, alegria! Um bando de garotos pintados, molhados, com cabelos mal cortados e sutiãs sobre as camisetas, infestando os cruzamentos e semáforos da cidade com sua euforia. Muita gente não gosta da folia destes bichos, assim como também devem achar que os insetos incomodam. Eu não!
Se tenho moeda, dou. É para ajudar na festa, que é mais que merecida. Se não tenho, dou bala e parabéns. E sempre ganho um sorriso ou um “obrigado, tio”. Um momento destes deve mesmo ser celebrado e nós que já passamos por isso sabemos como é perene na lembrança.
Sei também que, como as aleluias, vai chegar a hora de perder as asinhas, encontrar um parceiro e se enfiar de novo na terra para ganhar a vida. Mas agora não! Agora o céu se abriu e chegou o tempo de festejar a esperança. Aleluia, meninos! Povoem o ar com sua alegria.

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