Júlio Chiavenato
Sexta-Feira, 8 de Fevereiro 2008 - 23h47 Dia 6 de fevereiro comemorou-se o quarto centenário do nascimento do padre Antônio Vieira. Em 1654, em carta ao rei João IV ele traçou o retrato do Brasil, que permanece intocado até hoje (ou retocado para pior). O rei queria saber como se roubaria menos no Pará: nomeando dois capitães-mores ou só um governador. Vieira profetizou: “(...) menos mal será um ladrão que dois: e que mais dificultoso serão achar dois homens de bem que um”.
É preciso acrescentar algo? Talvez, que hoje não há mais escritores como o Vieira, que punha o dedo na ferida com graça e estilo. Nem é possível, pois os ladrões se multiplicaram e o roubo é banalidade só contestada pelos ingênuos. O povo não sabe, a maioria não se importa e a minoria se farta.
João IV porém, insistia em encontrar governantes honestos. Vieira lembrou-lhe que no Brasil, como em Roma e em todos os tempos quando se trata de governar o bem público, há alguém “que nada tinha” e outro “que nada lhe basta”. Ao final ambos se locupletavam: “(...) pois não sei qual é maior tentação, se a necessidade, se a cobiça”.
Ele falava do Pará, lugar paupérrimo que no entanto dava riqueza aos governantes, roubada “(...) do sangue e do suor dos tristes índios”. O governo doava aos explorados a cesta básica da época.
Para mostrar tal indignidade Vieira conta que uma portuguesa vinda dos Açores confessou-lhe “(...) que em três meses morreram-lhe cinco filhos, de pura fome e desamparo; e, consolando-a eu pela morte de tantos filhos, respondeu-me: ‘Padre, não são esses os por que eu choro, senão pelos quatro que tenho vivos sem ter com quê os sustentar e peço a Deus que os levem também’.” O Brasil continua o mesmo. Sem o padre Vieira.