Jornal A CIDADE

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Hamilton de Andrade Lemos

Sexta-Feira, 8 de Fevereiro 2008 - 23h47

Arte de lavar carros


Também sou contra o desperdício de água, a manutenção sustentada do aqüífero etc etc etc. Mas sábado é dia de lavar o carro e ainda podemos dispensar um ou dois baldes d’água nesta missão.
Carros são lavados, geralmente, nas calçadas, de onde cumprimentamos os vizinhos, trocamos impressões com os transeuntes e observamos o movimento próximo. Portanto, lavar o carro é, antes de tudo, interação social.
O ato é também uma questão de higiene, menos do carro e mais da mente. Abolida a mangueira (gasta muita água), juntamos balde, sabão, esponja, panos macios e muita disposição para passar horas revendo a vida. Enquanto ensaboamos a lataria, refletimos sobre as relações amorosas. Tirando o pó do painel, lembramos dos problemas acumulados. Escovando as calotas, concluímos sobre os pequenos dissabores da semana. Depois tudo vai embora no enxágüe e ficamos limpos novamente.
Outra função importante de lavar o carro é preparar-se para o fim de semana. Um homem que lava seu carro no sábado planeja uma noite movimentada. Geralmente o carro é novo ou há uma mulher nova à vista. Já uma mulher lavando seu carro, de short e camiseta, conseguirá em breve um homem. Nem que seja para ajudá-la a lavar este carro.
A maneira com que alguém lava seu carro dá boas pistas (desculpe, o trocadilho saiu sem querer) sobre sua personalidade. O obsessivo-compulsivo terá entre seus apetrechos uma caixa de cotonetes. O vaidoso e superficial lava apenas o lado de fora. E o distraído lava o carro do vizinho, por engano.
Mas o pior é o ciumento, que após um dia de trabalho quer perpetuar sua obra. Guarda na garagem e só sai na segunda. E ai de quem sugerir um passeio!

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