Marcelo Canellas
Sabado, 9 de Fevereiro 2008 - 14h29 É a água. Só pode ser. Das profundezas do aqüífero Guarani para as torneiras de Ribeirão Preto. Límpida, leve e mágica. É isso: eu bebia direto da bica. Então levei esse banzo comigo. Ao acordar, tem vezes que ainda abro a porta da varanda esperando a chuvinha de fuligem que o vento traz. Ou me vejo sentindo o bafo do calor mormacento que abate o sujeito. Mas a gente gosta, né? Abre a camisa, põe a bermuda e reclama da quentura; da boca pra fora, que nosso esporte favorito é falar mal de mentirinha. Sorvo a espuma pastosa do meu chope em goles largos e, escondido no Pinguim, posso ver, quem sabe, o Datenão e o Sócrates salvando o mundo numa mesa de canto. Noutra mesa, vejo os conterrâneos Murilo Pinheiro e Chico Ferreira, servidos por um terceiro gaúcho. E é ele, o próprio, o Gaúcho, garçom e gente boa, quem berra o bordão famoso: salta mais um, tchê? Depois, caminho pelo Centro e espio o Golfeto tomando cafezinho, em pé, num balcão de esquina. Ou então estico para o Jardim Irajá, pra ouvir a boa música do bar do Val. Quem sabe não encontro lá o Fernando Kaxassa, o mago do Cauim, beliscando petiscos e ruminando fotogramas? Ando a esmo nos devaneios da saudade. Pelas ruazinhas da Vila Valqueire, sentindo o aroma de curau vindo das casas de pátios gradeados. De onde tiram tanto milho verde? O curau fora de época da Vila Valqueire sempre foi um mistério pra mim. Subo ao alto do Ipiranga pra, bem de longe, me admirar da massa urbana lá de baixo, e desse tamanhão todo que a cidade alcançou. E se vier uma enxurrada daquelas? Cá de cima, vejo córregos entornando, alagando a Baixada, fazendo as moças levantarem as saias e correrem para dentro dos velhos sobrados, lamentando a fuga da clientela. Nem sei se essa cidade ainda existe, mas é dela que sinto saudade. Dos dias de Come-Fogo, dos passeios no Bosque, nas Sete Capelas. Da estradinha pra Bonfim Paulista, do domingo em Jardinópolis, do namoro em Batatais. E, claro, do erre dobrado, redondo, liso, feito um seixo esculpido pelo Pardo. Erre de Viterbo, onde vi, acredito, um caipira arquetípico pela primeira vez. Com todos os erres musicais, de botina, acocorado, e sentado nos calcanhares. Sentar nos calcanhares é atestado de caipirismo. Até tentei imitar o homem, mas não chego a tanto, me dói a coluna. Só que ninguém me tira essa sensação de ser também um pouquinho caipira. E esse gosto bom de garapa, de pastel da praça 15. Sei lá. É a água? Só pode ser.
Marcelo Canellas é jornalista e repórter especial da Rede Globo