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Classe A

Sabado, 9 de Fevereiro 2008 - 14h37

Meio médico, meio ‘deus’: é o Dr. Franco

J.F.PIMENTA/ESPECIAL Meio médico, meio ‘deus’: é o Dr. Franco "Eu também, é claro, estou junto com ele para te ajudar, mas quem vai te ajudar primeiro é Deus, eu sou secundário, eu sempre motivo as pessoas a despertarem o seu deus, mas eu, particularmente, não sinto, vou ser honesto para você"

“Nós não temos cartão corporativo, não temos bolsas do governo, nós tiramos dinheiro do bolso para nossas pesquisas”, diz o médico José Franco Júnior, que pegou uma via independente para trabalhar na área de reprodução humana e investiu tempo e carreira na construção de um centro de referência nacional em Ribeirão Preto. Hoje, 20 anos e mais de quatro mil crianças depois, ele faz um balanço da atividade em que já recebeu casais célebres, como Willian Bonner e Fátima Bernardes, apresentadores do Jornal Nacional, da Rede Globo. Mas já atendeu, também, mulheres humildes, que tinham o desejo de engravidar e não podiam pagar o custo do tratamento, orçado em torno de R$ 12 mil. Como sabe que o sonho da maternidade não tem preço, doutor Franco prioriza, excepcionalmente, casos assim. E mesmo fora da Universidade, publica pesquisas internacionais sobre o que mais gosta de fazer: reproduzir a vida.


ENTREVISTA A SIMEI MORAIS E ANGELO DAVANÇO


Simei Morais - Onde o senhor se formou?
José Franco Júnior - Sou formado aqui, na faculdade de Ribeirão Preto, muitos anos atrás, naquelas histórias que você conta para seus filhos, em 1969.

Simei - O senhor é de Ribeirão?
Franco - Não, eu sou santista. Esta bandeira do Santos [sobre a mesa de trabalho] vem dos tempos do Pelé, isso é muito antigo.

Angelo Davanço - O senhor veio para cá para estudar?
Franco - Sim, vim fazer a faculdade aqui no ano de 1964, naquela época da revolução, aquela história toda. Aí terminei em 69 a faculdade e fui para a área da ginecologia e obstetrícia, que era a área que me atraiu mais, uma formação clássica na área de ginecologia. Passei um bom tempo trabalhando nesta área, como médico em Ribeirão. Por volta dos 37 anos, 36 anos, me deu vontade de mudar dentro da especialidade. Isso é visão de quem trabalha. Eu achava que o que eu fazia, daqui a pouco haveria mais de quinhentas pessoas fazendo, a ginecologia clássica e tudo, e eu achava, como qualquer pessoa normal, que quer melhorar de vida, como eu, como vocês, eu achava que teria mais espaço numa coisa mais especializada ainda em ginecologia e obstetrícia, então fiz uma subespecialização. Lá pelos anos de 82 eu comecei a pensar nisso, mas fui para os Estados Unidos em 84, aí, como eu já tinha doutorado, que eu já tinha feito mestrado e doutorado aqui na faculdade, apesar de que, já no doutorado eu já estava trabalhando como médico, já não estava mais no corpo da faculdade, aí eu resolvi, achava que tinha que fazer uma especialidade, aí eu parei a clínica, vivia de clientes particulares naquela época, parei a clínica e passei um ano e meio fora, nos Estados Unidos, com uma bolsa do CNPq. Eu tive muita sorte, na verdade eu achava assim - para fazer uma subespecialidade, eu achava que devia fazer alguma coisa em que eu tivesse mais vocação, na área da ginecologia, não tinha outra área, então eu tinha duas opções, ou ia trabalhar na área de câncer de mama, que eu achava que era uma área desfalcada em nível de Brasil, eu pensava longe, não pensava curto, era meio megalomaníaco, e a outra área era a de reprodução. Eram as duas opções que eu tinha, e estava começando naquela época, o primeiro bebê de proveta é de 78, eu já estava indo cinco, seis anos depois. Eu não tinha muita visão do que ia acontecer, mas sabia que tinha que fazer isso, para quando ficar mais velho, ter mais poder de sobreviver, na competição, uma coisa normal, em qualquer profissão, em qualquer área. O problema é que naquela ocasião eu tinha filhos, de 11 anos, 12 anos, tinha uma clínica que me dava um rendimento xis por mês, tinha casa própria, estava estruturalmente bem. Daí fui pagar para ver, já não era mais moleque. Muita gente dizia que isso não daria certo, que entraria numa área que não viraria nada. Em Ribeirão Preto não tinha nada, não se apostava nada em reprodução humana.

Simei - Era motivo de piada?
Franco - Não chegava a ser piada, mas o pessoal achava que era loucura, que eu devia ficar apenas com a clínica, mas eu pensava que queria mais. Porque como eu tinha uma formação mais clássica, acadêmica, eu achava que trabalhar somente no escritório eu estava desprezando outro lado que eu tinha potencial. E esta clínica, como um todo, ela tem um charme, o pessoal não gosta muito disso, o pessoal ligado à universidade, porque a gente produz muito, cientificamente, e eu estou na iniciativa privada, então é um certo contrasenso, pois aqui a gente publica mais que muitas universidades.

Simei - Desde quando vocês publicam?
Franco - Regularmente, desde que começou esta clínica. Publicamos uma média de quatro, cinco artigos em periódicos internacionais por ano. O último foi nesta aqui da Inglaterra (Reproductive Biomedicine Online), que eu sou editor científico dela. Não é porque eu sou editor não, pois a gente manda alguns para lá, e não aceitam também. É uma revista clássica, cujo editor-chefe é o Robert Edwards, que é quem fez o primeiro bebê de proveta.

Simei - Hoje o senhor é colega dele então.
Franco - Não digo que eu seja colega, mas eu tenho um bom relacionamento.

Angelo - No início do seu trabalho, como os casais viam a possibilidade da reprodução humana?
Franco - Naquela época a gente tinha pouca, quando eu fui para os Estados Unidos, na verdade só tinha um grupo que fazia isso, que na verdade não fazia, que era em São Paulo, com o finado Nakamura, que trazia um pessoal de fora para fazer para ele. Isso quando eu fui para os Estados Unidos, depois começou a aumentar, obrigatoriamente aumentou. Existia muito pouca conversa sobre isso. Do ponto de vista religioso sempre foi negativo qualquer procedimento que trabalhasse com embrião humano, mas os casais de uma forma geral não tinham noção, como eles não tinham noção era difícil ter uma demanda, depois, quando começou a aparecer o nascimento de crianças por reprodução assistida, isso foi se divulgando de uma forma mais forte e foi atingindo mais gente.

Simei - Como o senhor atraiu o primeiro casal de pacientes?
Franco - A gente deu a entender que estava fazendo isso, na época ainda trabalhava na Sinhá Junqueira e as pessoas apareceram e a gente começou a fazer, a gente avisava aos colegas que tinha algum relacionamento que estava começando a fazer e que eles indicassem às pacientes.

Angelo - Qual a técnica utilizada naquela época?
Franco - A fertilização in vitro clássica. Coletava os óvulos, depois preparava os espermatozóides, tudo o que eu tinha visto fora.

Simei - E naquela época existia a dificuldade de perder vários, de ter que implantar vários embriões?
Franco - Naquela época a gente era um pouquinho mais liberal, a gente transferia uma quantidade maior do que hoje. Hoje é uma quantidade muito pequena de embriões que a gente transfere.

Angelo - Houve problemas com a Igreja?
Franco - Não, nunca houve. No Brasil eu não percebi essa pressão da Igreja. Nunca houve ninguém telefonando, pressionando a Sinhá Junqueira, que poderia ser pressionada, dizendo que não era para fazer isso, que isso estava ferindo. Não sei se a religião católica no Brasil é uma religião que, não sei te dizer, parece não ser tão forte quanto em outros países, como o Chile, por exemplo, que é extremamente forte e tem uma influência muito forte no governo, por exemplo na Costa Rica, que a igreja proíbe fertilização in vitro e ao mesmo tempo o governo proíbe, então tem uma composição, a igreja e o Estado muito juntos. Aqui no Brasil já é, não sei se por causa do clima, você pode ser católico, espírita, praticante de umbanda e qualquer coisa desse tipo, as coisa se duplicam, triplicam, tem três religiões. E a igreja, como um todo, eu não consigo perceber pressão.

Simei - E o senhor tem uma religião?
Franco - Infelizmente ou felizmente, eu não sei te dizer, eu não sou muito ligado, eu acho que eu respeito todas, mas ainda não consegui me identificar.

Simei - Mas o senhor acredita em alguma divindade?
Franco - Eu penso assim, você tem o seu deus, por exemplo, você tem o Buda, se você tiver o Maomé, se você tiver Jesus Cristo, que seja o seu deus, eu respeito e sempre falo para as pacientes que se tem alguém por quem elas devam rezar é para o deus delas, o deus que elas acreditam. Agora eu, particularmente, torço para o deus das minhas pacientes, ele tem que cumprir a missão naquilo que elas acreditam. Agora eu tenho dificuldade. Meu irmão também, que foi desembargador, mais velho que eu uns quinze anos, dezesseis anos, também não era de religião. Em casa não era muito assim de religião, mas eu respeito o sentimento dos outros, sou a favor de que você tenha a sua religião, mas eu particularmente não tenho. E eu torço pelas pessoas, peço para as pessoas - olhe, reze para o seu deus.

Angelo - A partir do trabalho de sua equipe, quantas crianças já nasceram?
Franco - Talvez uma faixa de quatro mil e quinhentas. Uma conta difícil, pois a gente tem ganhos e perdas, mas vai por aí. Um número submetido a todos os tratamentos.

Simei - Numa média de dez nascem quantos?
Franco - De três a quatro. Depende muito, é o faturamento anual de 200, 250, pois tem muito gemelar. Aqui também eu conto assim, tipo Obama e Hilary - o sujeito chega eu ligo o ‘fertilômetro’. Se você for para a sua casa depois que consultou comigo e engravidou é ponto. Você pode dizer - ah, é psicológico, mas eu coloco na contagem. Só fertilização in vitro já está com três mil e tanto, mas contando tudo chega perto.

Angelo - Olhando os álbuns de fotos ali fora dá para perceber o carinho por parte dos casais.
Franco - Não tenha dúvida. Isso é uma coisa que dá para perceber. Porque maternidade e paternidade são duas coisas muito importantes. Você é pai?

Angelo - Ainda não.
Franco - A maternidade e a paternidade são instintivas, já nascem com a pessoa. É como qualquer animal. O senso de reproduzir é inerente ao animal. E o homem não deixa de ser um animal, um animal racional.

Angelo - E o senhor se sente meio ‘paizão’ de todas estas crianças?
Franco - Nesta altura do campeonato eu já não tenho essas reações que as pessoas acham que eu deva ter.

Angelo - Mas no início o senhor tinha?
Franco - No início sim. A primeira gravidez com fertilização in vitro me deixou bastante assustado, eu achava que não ia dar certo. Porque como a gente nunca tinha feito, naquela ocasião, em Ribeirão no ano de 88, não tinha gravidez assistida no Interior do Estado de São Paulo. Tinha em São Paulo, uma vez que deu certo em Belo Horizonte, era pouco. Aí voltei dos Estados Unidos, passei um tempo em São Paulo, não tinha espaço, foi uma briga enorme para conquistar espaço. O brasileiro é um povo estranho, você sabe que não é muito normal. Quanto mais você está preparado, mais inimigos você encontra. Então na ocasião, quando eu voltei dos Estados Unidos, eu tinha me descapitalizado em termos de dinheiro, mas ao mesmo tempo eu estava preparado teoricamente para fazer as coisas. Uma coisa é você estar preparado teoricamente para fazer, e outra coisa é você tornar aquilo uma realidade. Porque existe, entre o sonho e a realidade, tem uma defasagem muito grande. Seus sonhos podem ser muito grandes. Esse sonho começou em 82, 83, quando eu tive a idéia de ir para os Estados Unidos, para ir para lá, convencer família, passar lá, voltar, achar espaço para trabalhar, pode colocar aí uns seis, sete anos. Antes do primeiro caso nós haviamos feito uns dez ou doze, aí apareceu a primeira gravidez. Não demorou muito não, e isso foi um ponto importante, pois se tivesse demorado muito eu acho que ficaria muito frustrado. É como jogador de futebol. Como o Santos hoje, precisa ganhar. Se você não marcar o gol logo, dá problema. Eu estava numa instituição, eu estava sem dinheiro, a instituição que ajudava a pagar isso, pagar aquilo, eu tinha que mostrar serviço logo.

Angelo - Até porque, no caso do futebol, o primeiro que cai é o técnico.
Franco - Pois é, exatamente. E eu estava numa situação tensa de trabalhar. Mas graças a Deus sempre fui acostumado a trabalhar com tensão. Não me angustiei. Eu achava que daria conta, acreditava muito naquilo que eu tinha feito.

Simei - E o senhor mantém contato com os primeiros bebês?
Franco - Até certo ponto, ele nasceu no dia de Ribeirão, em 19 de junho de 1988. Foi cesariana, a paciente que programou, ela que decidiu. Se você pegar os anais do jornal A Cidade vai encontrar esse nascimento documentado. Foi antes da Faculdade de Medicina, com toda essa prosa de intelectualidade, dos cientistas de Ribeirão, porque eu não sou considerado cientista em Ribeirão. Todos, só podem ser da faculdade, se você não tiver o umbigo ligado à universidade, o pessoal não aceita essa possibilidade. Isso para eles foi o maior desaforo, até hoje acontece isso. Mas não tenha dúvida, está marcado no jornal A Cidade. A primeira gravidez de fertilização in vitro em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo foi feita pelo nosso grupo. Esse é um trabalho de grupo, mas precisa ter um chefe, neste caso eu sou o chefe, mas você não faz nada sozinho.

Angelo - Há dez anos vocês reuniram todas as crianças para uma comemoração. Como foi?
Franco - Isso, há muito tempo atrás, em 1998.

Angelo - Como foi esse reencontro?
Franco - A gente reunia todo ano, desde que a gente começou a crescer, mas na última vez, em 1998, demos uma bruta festa lá no Lona Branca, só que foi mais de quatrocentas crianças, mais pai, mais mãe, só que destruíram tudo, como acontece quando você reúne crianças. Eu pensei - ah, não vou dar outra festa não. Foi uma coisa muito confusa mesmo e eu prometi não fazer. Esse ano nós tivemos uma recaída e nós pensamos que como vamos completar 20 anos reais agora em 19 de junho, mas aí já nos arrependemos, pois primeiro não conseguimos um lugar para comportar todo mundo, tem que ser um lugar muito grande, e a brincadeira ia ser absurda do ponto de vista econômico. Então nós tivemos duas opções agora, nós vamos fazer duas coisas - vamos fazer um concurso cultural para todas as que trataram aqui, para concorrerem a uma viagem para o exterior e vamos dar um prêmio para jornalistas também, nós vamos fazer o primeiro encontro de jornalismo científico de reprodução assistida e nós vamos dar um prêmio para o melhor trabalho jornalístico sobre reprodução assistida publicado entre uma data - esse não vai valer, pois a data não começou ainda - que a gente comemorar, até o dia do evento, com algumas aulas sobre jornalismo científico e depois o prêmio sobre reprodução científica, pode ser sobre gêmeos, sobre doação de óvulos, doação de esperma.

Angelo - Por falar em jornalistas e gêmeos, como a Fátima Bernardes e o William Bonner vieram parar aqui?
Franco - Aquilo foi indicação de uma médica da Fátima, no Rio de Janeiro, que é minha conhecida. Desde que a gente pegou aquele caminho de publicar coisas. Naquela época a gente tinha os congressos de ginecologia, e como eu era uma pessoa meio ligada neste ambiente antes de ir para os Estados Unidos, então a gente começou a apresentar estes trabalhos, tinha congresso no Rio, apresentava, congresso não sei onde, apresentava, e esta médica da Fátima era minha conhecida e quando ela falou que queria fazer falou que ao invés de ir para São Paulo preferia vir para Ribeirão, mais tranqüilo, pois ela não queria muita publicidade, muita gente em cima dela, então Ribeirão também deu sorte, no caso da Fátima, por causa disso. Primeiro que foi uma médica amiga que mandou, que falava que a gente era muito bom de serviço, apesar de estarmos em Ribeirão Preto. Esse é um outro ponto complicado.

Simei - Por que apesar de?
Franco - Ribeirão é fora de rota. Existe uma certa coisa que não modifica, por mais que você queira. Para nós hoje não afeta nada, no começo afetava muito. E a clínica não ficou maior ainda porque ela não está localizada numa capital, num centro maior. Porque sempre tem aquela idéia de que uma coisa no interior não é tão boa quanto aquilo que é na capital. Mas eu posso lhe garantir que este centro de reprodução, não posso dizer que é o melhor de todos, mas não deixa a desejar e é melhor que a maioria.

Simei - Vocês são os maiores em número de embriões congelados?
Franco - Sim, temos cinco mil. Isso representa cerca de 85% do que existe no Brasil. Naquela época, no início, ninguém congelava embriões.

Simei - Quanto custa para manter um embrião congelado?
Franco - Custa pouco, só o gasto do nitrogênio, mil reais anuais. Pode-se congelar óvulos também, mas isso não significa que a pessoa vai engravidar depois, tudo o que a gente faz está sujeito a situações não previsíveis, ou seja congela o embrião, na hora de descongelar o óvulo, na hora que você quiser, e não hora não fertilizar, existe um risco desse tipo.

Simei - Qual a técnica mais nova empregada aqui?
Franco - A mais nova é o Super Icsi, essa é a mais nova, que ninguém faz quase, que é uma técnica que nos permite visualizar o espermatozóide num tamanho maior, não digo que seja o mais moderno, mas é o mais atual que a gente faz aqui, faz um ano e meio mais ou menos que estamos trabalhando com ele, tentando resolver o problema do fator masculino.

Simei - Hoje quais são os principais problemas?
Franco - Os de sempre. Problemas referentes à produção de espermatozóides, isso é quase 50%, um espermatozóide de baixa qualidade, em número baixo. A gente tenta selecionar. Você trabalha com um número grande de espermatozóides, então, no que você está vendo no Super Icsi, você é capaz de selecionar melhor, um espermatozóide absolutamente normal, dá para separar o joio do trigo, enquanto que nas técnicas em que você injetava um espermatozóide em cada óvulo, que é a tradicional, para correção de fator masculino, a gente não enxergava muito bem, mas agora a gente consegue até identificar lesões dentro do espermatozóide, possibilitando excluir aqueles lesionados por outros normais, com o objetivo de melhorar o potencial.

Angelo - E na mulher, quais são as principais causas?
Franco - São inúmeras. São problemas, por exemplo, de anovulação, causas uterinas, causas tubárias. Todas as causas que impeçam a gravidez, causas ligadas à produção dos óvulos. Hoje a gente tem outros estudos sobre o óvulo, que são tentativas de selecionar qual seria o melhor óvulo. A gente faz isso como pesquisa.

Angelo - Existe algum grande mito com relação à reprodução humana?
Franco - Mito? Por parte dos médicos ou dos pacientes?

Angelo - Por parte dos casais, dos leigos. Os casais pensam que, ao chegar aqui, podem definir a personalidade, as características do bebê?
Franco - Eles chegam aqui pensando que a gente vai resolver o problema inteiro. Não pensam em gastar dinheiro sem a gente resolver o problema para eles. Alguns, quando já têm filho, vêm com a questão da escolha do sexo, uma coisa que eles acham que a gente tem esse poder de escolher o sexo. A gente tem, mas o custo-benefício não compensa e entram em jogo outras situações, pois hoje em dia a gente faz só quando tem alguma doença genética envolvida. No caso de um homem que tem hemofilia, não quer ter um filho hemofílico, vai ter uma filha, então você escolhe uma mulher e aí tudo bem, o próprio Conselho Federal de Medicina acha que não deve mexer com esse negócio de escolha de sexo social. Então esse problema de sexo social é uma das coisas que as pessoas vêm pedir, não que seja mito, pois a gente pode fazer isso, a gente tem, entre aspas, a possibilidade de fazer, mas isso é ilógico, você que arque com uma menina, um menino.

Simei - E pode alguém querer escolher a cor do olho, do cabelo?
Franco - Às vezes tem esse sonho. Mas as pessoas ficam um pouco inibidas de pedir. Talvez exista nas pessoas esse mito, de querer criar do jeito que você queria, ser parecido com o pai, acho que isso tem sim, é que a gente não alonga muito essa conversa, a gente corta, dizendo que o importante é ter um filho com saúde, não vamos complicar as coisas, vamos fazer o beabá pois não é tão fácil como se pensa. Mito não existe, mas histórias do arco da velha a gente tem aqui.

Angelo - Então conta uma.
Franco - História eu tenho muitas! Seguinte: tem um caso de uma moça que veio aqui com o marido fazer fertilização in vitro. Aí a moça tinha quase quarenta anos, formou um folículo, a gente foi lá coletar um óvulo dela, coletou um gameta dele. A verdade é que a gente é produtor de embriões. Se me perguntam o que eu faço digo que sou produtor de embriões humanos! Tudo isso é para melhorar a minha produção! Dependo muito da matéria prima, do óvulo e do espermatozóide. Aí formou-se o embrião e quando chegou a hora de colocar o embrião no útero da paciente, o marido dela me chamou de lado e me perguntou: “o que o senhor acha de eu trocar de mulher? O senhor vê, minha mulher está com quarenta anos, vim de longe, viajei, só deu um embrião, o senhor não acha melhor trocar por outra?” Eu disse: “não posso falar nada, é uma decisão muito sua, pessoal!” E aí entrei para fazer a transferência [do embrião], e aí ela estava deitada, alegre: “que beleza, dr. Franco, vou conseguir engravidar!” Ela ficou animadíssima e pensei: meu Deus, ajude essa moça senão ela vai perder o marido. Se bem que com um marido desses...(risos). Bem, a moça engravidou, nasceu uma menina, e aí fui até a cidade onde ela morava, e ela foi com o marido, com uma menina linda, simpática! Tiramos uma foto juntos e ela chega pra mim, já com 46 anos e diz: o que o senhor acha de eu tentar mais uma vez? Eu disse: não! Chega! (risos). Não inventa mais! (risos)

Simei - Qual é o desafio maior hoje para vocês?
Franco - É manter o padrão da clínica, com taxa de gravidez alta...

Simei - Na área de reprodução humana, o que é que se busca?
Franco - Depende da comunidade científica. Tem uma sonhadora que está em busca da clonagem. Cada um filosoficamente abre suas perspectivas. Nós aqui estamos muito mais preocupados com gametas, definimos que a estrutura nossa é especializada em formação de embriões saudáveis.

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