Sérgio Mascarenhas
Sabado, 9 de Fevereiro 2008 - 19h45 Tive a felicidade de haver sido colaborador íntimo do grande físico Abdus Salam ( Prêmio Nobel de física, 1979) por mais de 15 anos.
Salam nasceu no Paquistão e foi a prova paradigmática, da existência de grandes talentos no chamado Terceiro Mundo, massacrados pelas inadequadas condições socioeconômicas existentes nesses paises: sem educação básica, sem uma cultura de apoio à ciência e tecnologia, mergulhados na dependência de colonizadores que controlam esse próprio atraso como condição de exploração de matérias-primas e mão-de-obra barata. Salam viu claramente que a libertação dessa dependência somente viria pela própria ciência como elemento de auto-confiança capaz de gerar criatividade, inovações e desenvolvimento social.
A esse corpo de idéias ele se referia como Ideais e Realidades. Ideais como fonte de valores norteadores e Realidades como a parte prática da luta para serem alcançados. Reconhecia também que o fato desta grande assimetria entre países ricos e pobres levava às guerras pelas riquezas ambientais e mão-de-obra escrava entre os paises ricos, predadores deste cenário.
O avanço da ciência e da tecnologia nos países em desenvolvimento são em última análise instrumentos de equilíbrio e que levam à interdependência e à paz por equidade de compromissos e a ganhos mútuos. Claro que a Realidade não é benigna nem virtuosa e precisa ser melhorada continuamente em um processo dinâmico.
Salam idealizou e construiu vários instrumentos para esse caminho: O Centro Internacional de Física em Trieste, na Itália e uma Academia de Ciências do Terceiro Mundo (TWAS, Third World Academy of Sciences). Quando tive a fortuna de encontrá-lo em uma Reunião da Academia de Ciências da Suécia, aceitou minhas sugestões de introduzir áreas interdisciplinares no Centro de Trieste e convidou-me para ser Diretor de Biofísica Molecular e de Física Médica.
Hoje, passados mais de 25 anos, pode-se avaliar a importância dessas áreas não apenas para os paises em desenvolvimento mas para o mundo globalizado. Tendo sugerido também a introdução de física dos solos fundamental para o agronegócio, base da economia de alimentos num mundo de famintos, tive seu apoio entusiástico e mais: aceitou minha indicação de um meu jovem doutorando Silvio Crestana, como bolsista especial (Fellow) do Centro de Trieste. Hoje Crestana é o Presidente Nacional da Embrapa e organiza o avanço do Agronegócio Nacional a nível internacional quando o Brasil lidera conquistas em eneergias alternativas do álcool e do biodiesel.
Também de Ribeirão Preto, Oswaldo Baffa foi meu co-diretor da área de Física Médica a convite de Salam e um dos organizadores e pioneiros da Física Médica nacional.
Sentimos pois a realidade dos ideais de Salam. Para completar, a Academia do Ciências do Terceiro Mundo, cujo fundador e primeiro Presidente foi Salam, é hoje dirigida por um brilhante matemático brasileiro Jacob Palis e conta com inúmeros membros no Brasil.
Tentei como Diretor do Centro em Trieste e Membro da Academia, organizar a indicação de Salam para o Prêmio Nobel da Paz, infelizmente Salam faleceu antes que essa merecida láurea lhe fosse atribuída, mas como na ilustração minha e do Alfonso, Janus o Deus Romano mira Salam no passado, e projeta para sempre no futuro o símbolo da Academia que criou: um Mundo Unido pela ciência em busca da Paz. Amém!