Jornal A CIDADE

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Vicente Golfeto

Segunda-Feira, 11 de Fevereiro 2008 - 20h10

Recados cifrados


Para muitos analistas, quando disse que “acho que choque de gestão é contratar mais funcionários públicos”, o presidente Lula da Silva foi, no mínimo, irresponsável. Mas, se considerarmos que – como sempre – política é apenas e tão somente a arte de usar a palavra para esconder o pensamento, entenderemos o presidente.
Político manda recado. Raramente fala de maneira direta. E o chefe de uma nação, mais do que ninguém.
Mais ainda quando o chefe da nação – como no presidencialismo brasileiro – é também o chefe de Estado.
Ele não pode falar a verdade sempre, porque “a verdade é tão preciosa que, muitas vezes, ela precisa ser protegida por uma redoma de diversas mentiras”, na feliz expressão de Winston Churchill, que muitos consideram o maior estadista de todo século 20. Ele mesmo, um político muito singular, além de historiador respeitável.
Pois bem, no exato momento em que anunciava planos muito interessantes de privatização de rodovias federais, pondo por terra tudo o que havia dito e prometido em suas campanhas anteriores para a presidência da República, Lula da Silva fazia o que a maioria dos políticos faz: dá uma no cravo e outra na ferradura. O que fala não tem importância. Importante é o que faz.
Assim agindo, prossegue o governo privilegiando o setor privado em detrimento do setor estatal, a quem oferece promessas. Toneladas de palavras de um lado. Alguns gramas de fatos, de outro. Mas este outro recebeu as privatizações.
O lado estatal ficou com as muitas palavras. Melhor alguns gramas de fatos do que toneladas de conversa.
No discurso dos políticos – no Brasil e no exterior, hoje e ontem – não raro é importante observar o que não foi dito. Porque, o que foi dito, não vale nada.
Ou – na melhor das hipóteses – vale muito pouco. Não há dúvida de que Otto Von Bismarck, chanceler do I Reich, tinha razão quando dizia: “a política destrói o caracter.”

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