Caderno C
Sexta-Feira, 15 de Fevereiro 2008 - 22h39
LEITURA DIÁRIA Luiz Ribeiro chama a atenção da clientela com os livros que leva para a feira livre
Atrás de uma barraca com tapetes, queijos, roupas e grãos diversos, se esconde um homem grande e falante. Vestindo uma camisa de Che Guevara e com o livro “Dioguinho: O Matador de Punhos de Renda”, na mão, Luiz Ribeiro chama a atenção da clientela.
Ao saber que a obra foi escrita pelo jornalista e diretor editorial de A Cidade João Garcia, Luizão, como é mais conhecido, se anima.
- Comecei a ler este livro agora. Ainda estou na página três. Engraçado esta linguagem de caipira que ele utiliza, diz.
Mineiro de Alpinópolis e feirante há 35 anos, Luizão é um leitor contumaz de biografias desde o dia em que uma professora de inglês lhe deu um livro para ver se o garoto parava de fazer bagunça na sala de aula.
- Eu acho que era sobre Spartacus. Porque eu gosto de histórias reais. Não leio ficção, garante.
Escola
O feirante nunca foi um aluno exemplar e na oitava série decidiu largar os estudos depois de uma briga com o professor de, vejam só, História. Tudo porque decidiu colar numa prova.
- Na verdade, ele vivia misturando religião com história e eu não concordava com isso, recorda.
Depois da desavença, Luiz decidiu ir para a fazenda com o pai que comercializava leite de vaca. Desde então, sua vida foi trabalho, trabalho, trabalho.
- Na época, não tinha muito tempo para ler, revela.
No final da década de 60, mudou-se para Ribeirão Preto, casou, teve filhos (na verdade, três filhas) e em 1973 tornou-se feirante. Com o passar dos anos, a literatura retornou à sua vida, com obras de diversos autores e temas. Hoje, tem quase uma obsessão por tudo que envolva a Revolução Cubana.
- Ele é gente boa, mas o único problema é que adora o Fidel Castro, afirma o aposentado Agnaldo Cirilo de Souza, cliente fiel e anti-comunista bem-humorado.
Che Guevara
Quase todas as sextas os dois se encontram na feira da rua Franca, no Jardim Paulista, para discordar praticamente de tudo.
- Tem dia que eu tenho que ir embora se não a coisa esquenta e espanta todos os clientes dele, conta Agnaldo, de 70 anos.
Luizão não esconde sua adoração por Fidel e, principalmente, pelo líder revolucionário Che Guevara.
- Já li uns dez livros sobre Che e o duro é que o melhor foi escrito por um americano, afirma, referindo-se a “Che, Uma Biografia”, de John Lee Anderson.
O feirante aproveita para falar sobre tudo o que sabe das vidas do argentino Ernesto Guevara e de Fidel Castro. Diz que, graças a literatura, hoje é um socialista.
- Se ser comunista é defender os oprimidos, então eu sou. Não suporto injustiça, explica.
Simon Bolivar
O curioso é que Luiz não é de comprar muitos livros. Na verdade, ganha a maioria e guarda tudo. Já teve uma verdadeira biblioteca em casa, mas os cupins acabaram com as obras. Além disso, tem a mania de ler vários livros ao mesmo tempo: um na feira, outro na sala de casa e o terceiro na cabeceira da cama.
- Além do Dioguinho, também estou acompanhando os cinco volumes escritos pelo (jornalista) Élio Gaspari sobre a ditadura militar, ressalta.
Se não bastasse, o feirante ainda anotou todos os livros que ainda quer ler, que envolvem assuntos tão diversos quanto a guerra do Paraguai, a guerrilha do Araguaia e a vida de Símon Bolivar, ídolo histórico de gente como o presidente da Venezuela Hugo Chávez.
- Aprendi mais coisas com os livros do que com a escola. Prova disso é o (jornalista e empresário Assis) Chateaubriand, que era gago e por isso tinha vergonha de ir a escola, e aprendeu tudo sozinho, inclusive outras línguas, informa com toda a propriedade de quem leu a biografia de Chatô escrita pelo jornalista Fernando Moraes de fio a pávio.
Lingua Afiada
Feirante critica Surfistinha
Luiz Ribeiro trabalha de terça a domingo em várias feiras de Ribeirão Preto e por isso acorda quase que diariamente por volta das três e meia da matina.
- Só descanso de segunda e mesmo assim não consigo acordar tarde. Já acostumei porque levantava cedo desde garoto, conta.
Conseguiu formar as três filhas: duas são professoras e uma é famarcêutica. A mais velha, Andréa, herdou do pai o amor pela literatura.
- Quando era pequena ficava brava porque eu só dava livros pra ela. Hoje me agradece por isso, revela. Atento a todos os assuntos, Luizão acompanhou de perto a polêmica envolvendo a 7ª Edição da Feira Nacional do Livro ano passado. A exemplo do escritor Menalton Braff, o feirante também foi contra a vinda da ex-garota de programa e dublê de escritora Bruna Surfistinha para o evento.
- Nem foi ela que escreveu aquele livro (O Veneno do Escorpião). Não achei isso certo. E também achei que faltou maior apoio para os escritores locais, argumenta.
Palavra de leitor.