Jornal A CIDADE

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Júlio Chiavenato

Sexta-Feira, 15 de Fevereiro 2008 - 22h49

Cura divina


Os jornais falham nos serviços de utilidade pública. Espero preencher essa falha, pois é importante o que divulgarei e, espantosamente, os meus coleguinhas ignoram. Trata-se do seguinte: quem sofre de “câncer, cegueira, paralisia, mal de Parkinson, aids, surdez, hérnia de disco, outras enfermidades”, será curado na terça-feira se tomar o Cálice da Cura na Igreja Mundial do Poder de Deus, rua Saldanha Marinho 614, Ribeirão Preto.
Bebendo desse cálice – suponho, porque sou de boa-fé e acredito no ser humano, especialmente naqueles que falam em nome de Deus, amém – o cidadão se livrará de “todas as enfermidades às 8h, 15h e 19h30”. O folheto me foi dado na porta do templo, a antiga garagem na esquina de Saldanha Marinho e Américo Brasiliense.
Ninguém deve se admirar que na terça-feira, em três sessões, os doentes de moléstias que a ciência não consegue vencer sejam curados, pois o folheto diz que “a mão de Deus está em Ribeirão aconteceu na Igreja Mundial”. Dizem que Deus tudo pode e quem Nele crê opera milagres em Seu nome. O milagre só não acontece quando o sujeito é de pouca fé.
Nesses tempos de cartões corporativos e outras marucataias, um grupo de crentes, aos cantos sagrados, louvando o Espírito Santo e expulsando Satanás dos corpos e das almas, é um bálsamo para os brasileiros desesperançados. O caminho da fé é a esperança que lhes resta. Custa pouco: o dízimo, que não é obrigatório e serve a tanta caridade, não passa de 10% dos ganhos dos cristãos. Bem menos do que pagamos de impostos.
O Brasil evoluiu. Em outros tempos quem prometesse a cura do câncer em três sessões tinha de se explicar com o doutor delegado. Hoje não, o Brasil é uma democracia e respeita as religiões: por isso cura câncer e Aids aos potes.

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