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Sabado, 16 de Fevereiro 2008 - 18h24

Desemboque perde o caminho do ouro

Sidnei Quartier

O único sinal que indica a existência de Desemboque, é o mesmo que remete o arraial para bem longe do mundo.
Do quilômetro 70 da MG-428, no município de Sacramento (MG), até o distrito de Desemboque, o viajante enfrenta 58 quilômetros em estrada de terra, 18 mata-burros e quatro pontes de madeira.
É a chamada Rodovia Ecológica, que também leva à Serra da Canastra, onde nasce o rio São Francisco. O caminho é bonito, margeado por plantações de soja, pinus, eucalipto, milho e extensas pastagens. Os bois descansam na estrada, ruminando, obstruindo a passagem. O gado não gosta de deitar no capinzal. É uma maneira de evitar cobras.
Mas quando chove, como ocorreu nas últimas semanas, a viagem torna-se impossível. E até os bois evitam o lamaçal.

O isolamento
Em Desemboque, o celular não funciona. Não há telefone fixo nas casas. Televisão só com parabólica. A pessoa se isola, a menos que use o “orelhão” colocado à disposição das 21 famílias que insistem em permanecer no arraial. A água vem de um reservatório e é gratuita. A fossa substitui o esgoto. O maior luxo é a geladeira, garantida pela energia elétrica e as contas nunca passam dos R$ 13.
Lá vivem umas 50 pessoas, quase todas parentes. As casas espalham-se ao longo dos quinhentos metros da rua Nossa Senhora do Desterro, a única do arraial. Há duas igrejas. A do Rosário e a de Nossa Senhora do Desterro.
O arraial encrava-se, brevíssimo, no começo de uma colina. Embaixo, corre o lendário rio das Velhas - o Araguari - onde ainda há ouro, garantem os moradores mais antigos.
No arraial existe dois comércios. A lanchonete Roda Branca só funciona aos sábados e domingos. Seus clientes são os turistas. O outro é tocado por José Renato Massa. Em dois caminhões médios ele recolhe leite nas fazendas vizinhas. A cada dois dias, o produto é levado por um comprador de Sacramento.
Os moradores sobrevivem da aposentadoria ou de empregos em duas fazendas. A Bandeirantes, de gado de corte; e a leiteira Santa Tereza. Os mantimentos são comprados em Sacramento, a 61 quilômetros. Come-se frango e carne de porco criados no quintal.

Bons tempos
Mas não foi sempre assim. Desemboque, segundo alguns pesquisadores, existe há 265 anos. Desde o erguimento da capela Nossa Senhora do Desterro, em 1743, pelos Bandeirantes, na margem esquerda do rio das Velhas. Foi o embrião da cidade que se tornaria, mais tarde, centro de mineração de ouro. Depois surgiu a igreja do Rosário - freqüentada apenas por negros.
Historiadores, com base em fontes documentais, relatam que o Julgado do Desemboque foi criado em dois de março de 1766, entre os chapadões do Bugre e do Zagaia. E compreendia todo o sertão da farinha podre, correspondente ao Triângulo Mineiro.
Em 1783 contava-se cerca de 600 habitantes. Em 1842 eram mais de 1.300 espalhados por duas centenas de casas, num arraial que tinha ferreiros, carpinteiros, boticários, comerciantes, artesãos e tabeliões. O historiador Antônio Borges Sampaio registra que de 1743 a 1781 saíram do rio das Velhas e de minas do Desemboque mais de cem arrobas de ouro, o correspondente a mil e quinhentos quilos.
A partir de 1871 o ouro começou a rarear e Desemboque, paulatinamente, perdeu seu brilho original. Os aventureiros passaram a buscar ouro em outros rios e em outros campos. As casas foram abandonadas. Algumas, as mais sólidas, resistiram e foram ocupadas por famílias que permaneceram. Outras acabaram destruídas pela ação do tempo.

Nenê, o último garimpeiro de Desemboque
Seu nome é Gérson Estevão, 84 anos e ótima saúde. É sargento reformado do Exército, natural de Uberaba (MG). Diz que serviu no 10º Regimento de Infantaria, em Belo Horizonte. Em Desemboque só o chamam de “Nenê garimpeiro”.
Gérson está reformando a casa, aumentando-a de dois para quatro cômodos. É o único sinal de progresso que se percebe em Desemboque. Mas isso implicou na diminuição da população: a mulher e duas filhas estão em Uberaba.
“Sou garimpeiro desde 1957. Trabalhei muito e encontrei pouco ouro em pó. Mas não desisto da garimpagem”, diz.
O garimpo é feito durante a seca, de junho a novembro. “Com o rio cheio não dá para procurar ouro”, diz.
Nenê Garimpeiro percorre os rios da região e chega a viajar até 70 quilômetros de distância.
Seu meio de locomoção é o cavalo. Leva umas panelas, arroz, feijão, óleo, sal, uma barraquinha para descansar à noite e nada mais.
Nenê (apelido que carrega desde criança) não gosta de dizer onde garimpa. “Por aí afora, no rio Araguari (das Velhas), em rios pequenos. Vou tocando o cavalo, não tenho parada”.
Gérson é daqueles que aposta na existência de ouro em Desemboque.
“Mas tem que saber procurar”, ensina.
Aumentar a casa significa preparar-se para nunca mais deixar o arraial.
“Precisamos melhorar Desemboque. Não podemos deixar as vacas soltas, entrando no quintal dos outros. Somos nós que cortamos o capim alto”, reclama o último dos garimpeiros.
Gérson orgulha-se conhecer algumas histórias do arraial. Contaram para ele que no tempo da escravidão, a igreja do Rosário era senzala. Teria se transformado em igreja bem depois. Os negros viviam confinados ao redor da senzala. Se passassem uma cerca de arame, eram castigados.
A igreja Nossa Senhora do Desterro, na parte baixa do arraial, onde estão as melhoras casas, era freqüentada por brancos.

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