Caderno C
Segunda-Feira, 18 de Fevereiro 2008 - 22h12
BELEZA EM FAMÍLIA Gilda Montans entre as filhas, Fernanda e Adriana - segredos da mãe incluem cuidados com a pele, destinar um tempo para cuidar do corpo e, para alimentar a alma, nada melhor do que uma boa música
Quando eram crianças, Fernanda e Adriana moravam na fazenda e tinham toda a liberdade para brincar “até se acabar”. Mas, quando tinham algum passeio, lá estavam as duas meninas impecáveis. Hoje adultas, profissionais e sofisticadas, as duas contam como aprenderam em casa que se amar e se cuidar podem ser os maiores segredos de beleza de uma mulher.
A fonoaudióloga Adriana, 43, e a publicitária Fernanda, 37 são filhas da acordeonista Gilda Alves Montans, 69. Até hoje é como se as duas fossem discípulas da bela mãe. Sapatos de salto, batom e um colar arrematam o visual elegante das três.
Gilda afirma que se cuida sim, mas sem exageros e que fez questão de passar isso para as filhas. Ao contrário de Adriana e Fernanda, não foi em casa que ela aprendeu a ter vaidade. Muito pelo contrário. O gosto por se cuidar surgiu exatamente pelo incômodo de ver a simplicidade exagerada da mãe.
- Cresci ouvindo meu pai reclamar porque minha mãe nunca se arrumava, quase não olhava no espelho. Com as minhas filhas, nunca fiz pregação, mas sempre estimulei. A gente precisa se gostar, se aceitar e tem de arranjar um tempo para isso, diz Gilda.
Cuidados com a pele
As filhas acabaram mesmo seguindo os passos da mãe. Ir a um dermatologista e a um esteticista para cuidar corretamente da pele são medidas das quais nem Gilda, nem as filhas abrem mão.
Adriana é tão fascinada por cuidados com a pele que se especializou em estética facial no seu trabalho com fonoaudiologia. Para Gilda, ao cuidar da pele, a mulher consegue atenuar a decadência física que passa a viver na idade adulta.
A mãe também faz questão de cuidar do corpo. Musculação, hidroginástica e alongamento. Por enquanto, só Adriana segue pelo mesmo caminho, fazendo treinos de musculação, com total apoio do marido.
- É uma coisa que, realmente, me faz muito bem. Você cria uma rotina e se sente muito melhor e mais disposta quando faz exercícios, afirma Gilda.
Música
Mas as filhas e Gilda fazem questão de deixar claro que a beleza depende de outros fatores mais nobres e especiais. As três apontam a música como um elemento de beleza e harmonia nas suas vidas. Adriana toca piano e Fernanda violino, mas nenhuma das duas seguiu profissionalmente o dom musical, o que é respeitado pela mãe.
Para Gilda e as duas filhas, o ouvido sensível para a música enriquece a vida e traz a sensação de paz, que se reflete nas feições.
Mesmo assim, as três afirmam não colocar a estética em primeiro lugar. Salão de beleza, por exemplo, é só para fazer a manutenção básica com corte e tintura ou em ocasiões muito especiais, que exijam um penteado mais elaborado, como festas e casamentos. Nada de freqüência assídua ao salão.
- A maior prova de que não coloco a beleza em primeiro lugar é que deixei de fazer as unhas há muitos anos para poder tocar, afirma Gilda, mostrando com orgulho as unhas por fazer.
Estilo
Sem sol, sem salto e com muito talento
Logo de cara, a musicista Marisa Lemos faz questão de dizer que não é muito vaidosa. Talvez não no sentido convencional. Unhas feitas, cabelos avermelhados e bem arrumados, uma saia longa. Marisa tem estilo próprio, mas não faz disso uma prioridade. Filha da multinstrumentista Ed Lemos, 60, Marisa reconhece no próprio ofício sua maior beleza, que herdou da mãe.
Mas, não demora muito para Ed admitir que se sente mesmo bonita e abrir os “segredos” de beleza, que ensinou para a filha.
Por trás do rosto bem conservado de Ed, se esconde um comportamento cuidadoso com o sol ao longo de anos. Marisa passou a vida ouvindo os conselhos da mãe para que não se expusesse ao sol.
- Ela sempre me disse para não tomar sol, então nunca me interessei. É algo que te deixa muito bonita hoje, mas que tem um efeito devastador a longo prazo, diz Marisa.
Os conceitos de mãe e filha sobre beleza são sempre alinhavados por um fio feminista. Ed condena as meninas que buscam o belo bronzeado. Ela acha um absurdo quando as mulheres abandonam saúde e bem-estar em nome da vaidade.
Salto alto
O sapato de salto é outro item que vai para a lista dos excluídos por Ed e que, por tabela, ganhou facilmente a antipatia da filha.
- Acho ridícula essa escravidão toda com os sapatos de salto. Eu prezo pelo conforto acima de tudo. Vejo em casamentos, quantas mulheres sofrendo a cerimônia toda, para depois perder completamente a classe ficando descalça na festa, conta a multinstrumentista.
Ed também é um notável exemplo para a própria filha quando o assunto é exercício físico. Há seis anos, ela tem feito hidroginástica regularmente. A debilitação de sua mãe, que se locomove muitas vezes com a ajuda de uma cadeira de rodas, foi um estímulo para que ela se interessasse em manter os movimentos do corpo e ao mesmo tempo aproveitasse melhor a saúde da qual desfruta.
Ed conta orgulhosa que a filha também é tão dedicada quanto ela quando pode praticar esportes. Marisa já chegou a perder dez quilos com disciplinados treinos de natação.
Gerações
Filhas se identificam com as mães
Tanto meninas quanto meninos vão buscar identificação em pessoas que admiram, geralmente do mesmo sexo. Segundo a psicanalista da imunologia pediátrica do Hospital das Clínicas, Sílvia Sato, durante o processo de construção da identidade, as meninas podem se identificar tanto com a própria mãe, quanto com uma amiga, mas sempre com uma pessoa que admiram pela imagem e pela personalidade.
Assim, segundo ela, a mãe pode ter uma influência marcante na vida da filha se houver uma grande admiração. De acordo com Sílvia, a admiração da imagem unicamente, no entanto, não é suficiente para que haja uma identificação. Os filhos precisam necessariamente achar outros aspectos admiráveis também.
- Na medida em que ela admira, ela busca o processo de construção da identidade na pessoa admirada, na qual ela busca pontos de identificação. Não é que ela vai ser igual. Cada pessoa tem seus pontos, por mais que seja parecida. A gente nunca se espelha só em uma pessoa, explica.
Na sua avaliação, a admiração excessiva também pode trazer danos, já que o filho ou a filha podem anular traços de sua personalidade para ficar mais parecido com a mãe.
Vaidade
A psicanalista afirma que a imagem mostra apenas um aspecto superficial das mulheres, dando muitas vezes uma visão parcial e distorcida.
A vaidade por si só não deve ser condenada porque mostra como a pessoa está se vendo e como ela quer se mostrar para o outro. O grande problema está no fato de algumas pessoas se apoiarem apenas na imagem para mostrarem quem são.
- Atualmente, existe uma preocupação maior da mulher e do homem também com a vaidade, afirma Sílvia.
Ela também ressalta que ainda que a menina não tenha nenhuma identificação com o universo masculino, ela será influenciada na medida em que passa a se identificar com outras mulheres, como as celebridades por exemplo, admiradas pelos homens.
ADRIANA MATIUZO