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Opinião

Terça-Feira, 19 de Fevereiro 2008 - 23h31

Maria Vitória


A notícia de um bebê abandonado dentro de uma caixa, à porta da casa de dona Maria Aparecida, uma generosa moradora do Jardim Maria Goretti, comoveu a cidade. E essa comoção já provocou, ontem, uma espécie de corrida ao centro de adoção para reivindicar a guarda da menina.
Toda solidariedade é bem-vinda. O que preocupa, contudo, é que essa solidariedade é seletiva. Crianças brancas, do sexo feminino, recém-nascidas, são o grande objeto do desejo de casais sem filhos.
No entanto, há, do outro lado da porta do abrigo de menores, uma outra fila: a das crianças mais velhas, geralmente negras, do sexo masculino, que não conseguem adoção.
A leitura que se faz dessa rejeição passa não só por preconceitos, de uma parte, e dificuldades, de outra, mas também pela dureza da vida, fora de uma família estruturada. O que será dessas crianças?
Além desse tipo de constatação, o caso do encontro de Maria Vitória, evoca também outra dedução quase instantânea. As questões pessoais que levam a mãe a abandonar um recém-nascido surgem, quase sempre, da mesma distorção social que gera filhos sem pai. Se as mulheres tivessem acesso à informação e métodos contraceptivos, não se tornariam mães que não conseguem criar seus rebentos.
Felizmente, Maria Vitória teve sorte. Não sofreu maus-tratos nem violência. Está saudável, mas, para que continue assim, depende de um bom lar adotivo. Uma sociedade que abandona crianças à própria sorte e faz deserdados da fortuna em série precisa rever sistemas, métodos e distribuição de renda. Sob pena de pagar um preço cada vez mais alto.

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