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Caderno C

Quarta-Feira, 20 de Fevereiro 2008 - 22h36

O Rei Midas Sertanejo

Régis Martins
MATHEUS URENHA O Rei Midas Sertanejo DESCANSO O compositor e produtor musical César Augusto passou por Jardinópolis, onde morou antes de tentar a sorte em São Paulo

Até hoje ele é reconhecido como figura central na música neosertaneja do país. Mas na virada dos anos 80/90, quando se bandeou para a turma do chapéu e da bota de couro, César Augusto foi chamado por alguns de “aproveitador”.
- Chegaram a ligar em casa e ameaçaram seqüestrar a minha filha. Diziam que eu era um intruso que estava destruindo a música sertaneja, recorda.
O fato é que este cantor, compositor e produtor foi um dos responsáveis pelo renascimento de um tipo de música que parecia fadada ao esquecimento.
Depois do sucesso da geração formada por Pedro Bento e Zé da Estrada e Milionário e José Rico, claramente influenciados pelos sons mexicanos, a música sertaneja despencava nas paradas de sucesso.
Mas César encabeçou um grupo que, sobrevivente dos hits românticos dos anos 70, substituiu a viola pelos teclados e pelas guitarras e transformou as dores do coração na trilha sonora do povo brasileiro.
- Eu tive participação nesta mudança que trouxe um público mais jovem que tinha vergonha de dizer que gostava de música sertaneja. Houve uma identificação imediata, explica.

Cinderela
César Augusto Saud Abdala nasceu há 56 anos em Jaborandi, mas aos seis mudou-se com a família para Jardinópolis, onde, ainda na adolescência, escreveu sua primeira composição “O cravo e a rosa”.
- Meu irmão João Carlos foi minha grande influência. Foi ele que me levou à música. E o João sempre foi um cara de MPB, diz.
Mas César pensava grande. Aos 18 anos, com pouco dinheiro no bolso e um violão a tiracolo, mudou-se para São Paulo em busca de fama e fortuna. Morando com uma tia, vivia no aperto. Até que o amigo, vereador e músico Elias Jabur lhe conseguiu um trabalho em uma empresa de engenharia da capital.
- Paralelo a este emprego, onde trabalhava como supervisor de Higiene e Medicina do Trabalho, corria atrás da música, lembra.
Lá, conta que bateu na porta de várias gravadoras, com a cara e a coragem. De tanto insistir, a música “Fuga”, feita aos 19 anos em parceria com Iranfe, foi gravada pela cantora Noelita, pouco conhecida no Brasil. E finalmente, em 1977, uma de suas composições foi tema de abertura da novela “Cinderela 77”, estrelada por Vanusa e Ronnie Von.
- Era uma novela meio infantil na antiga TV Tupi, conta.

“Pouco a Pouco”
Em seguida, o cantor Wando gravou “Nos olhos perdidos da noite”. Mas foi em 1981 que a carreira do menino de Jardinópolis virou de ponta cabeça.
César conseguiu seu primeiro e estrondoso sucesso com a composição “Pouco a pouco”, em parceria com Martinha e gravada por Gilliard. A música ficou tão famosa que já foi gravada 36 vezes em 18 idiomas. Na época foi primeiro lugar por quinze vezes no finado “Globo de Ouro”, da Rede Globo.
- Esta música me deu uma estrutura que eu não tinha. Pude comprar um pequeno apartamento e um carro zero quilômetro, relembra.
“Pouco a Pouco” levou César a se tornar um compositor disputado, principalmente entre os neo-sertanejos que começavam a ganhar mercado, graças ao sucesso de Chitãozinho e Xororó. A dupla gravou “Meninos do Brasil”.
- Até que um dia chegaram uns garotos de Goiás no meu escritório querendo gravar um disco. Gravaram três músicas minhas e acabei produzindo o disco deles, informa.
Padrinho
Os meninos em questão eram Leandro e Leonardo, que ganharam o país com “Entre Tapas e Beijos”, escrita por César. A partir daí o músico de Jardinópolis tornou-se o padrinho de duplas como Zezé di Camargo e Luciano e Bruno e Marrone, produzindo e compondo. Paralelamente, se apresentava com o parceiro César Rossini na dupla César e César, que ficou famosa com o sucesso “Cowboy do asfalto”.
Rossini faleceu em 1995 e, desde então, o amigo se distanciou do microfone, mantendo apenas as funções de produtor e compositor.
Apenas? César teve composições gravadas por artistas dos mais diversos estilos. Além de Leandro e Leonardo e Chitãozinho e Xororó, também gravaram músicas suas Daniel, João Mineiro e Marciano, Chrystian e Ralf, Gian e Giovani, Dalvan, Fábio Jr., Fafá de Belém e Roberto Carlos. E até mesmo nomes internacionais como Paul Mariat e Sting.
- A letra de “Frágil” em português é minha, ressalta.
Direitos autorais
Para se ter uma idéia, em 2001, César foi considerado, segundo levantamento do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), um dos três compositores mais tocados daquele ano.
E por falar em direitos autorais, César acredita que a arrecadação melhorou muito com o passar dos anos.
- Mas ainda há falhas porque tem muito fiscal que faz acerto por fora e não recolhe o dinheiro do autor, argumenta.
Como produtor, trabalhou com Leandro e Leonardo, Zezé di Camargo e Luciano, Dalvan, Chrystian e Ralf, Joel Marques e Benito di Paula. E ainda faturou três Grammys, o Oscar da música norte-americana, com discos de Zezé di Camargo e Luciano, Leonardo e Sérgio Reis.
- Em quinze anos como produtor, alcançamos uma marca de 70 milhões de discos, contabiliza o músico que diz estar reunindo dados para o livro Guiness de Records.


BR-100
Compositor volta a gravar depois de doze anos
O ano de 2008 também marca a volta de César aos estúdios. E desta vez gravando. O músico lançou este mês o CD “César Augusto e BR-100” e já colocou no YouTube (site na internet para exibição de vídeos), o clipe da faixa de trabalho “Nem o Tempo Me Faz Esquecer”.
- Pra mim é uma curtição. Sem aquela preocupação de que eu preciso sobreviver disso. E já estão pintando uns shows, conta.
O artista diz ser um sujeito privilegiado já que são mais de 800 músicas gravadas.
- Sempre estive entre os dez mais nos últimos quinze anos, garante.
E qual a fórmula do sucesso?
- Não existe uma fórmula, mas adquirimos uma certa prática e criamos uma facilidade de composição trabalhando dentro daquela linguagem que na maioria das vezes dá certo, responde.

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