Boa Mesa
Quinta-Feira, 21 de Fevereiro 2008 - 22h2
REFRIGERANTE E SALGADINHO Marcos Eduardo diz que não gosta do suco da escola na hora do recreio
A reportagem de A Cidade acompanhou o intervalo de uma escola de Ensino Fundamental na manhã da última quarta-feira. O lanche, mais do que um alimento da criança, é visto por todos os colegas e se torna um elemento carregado de significados. A criança usa o lanche para mostrar aos colegas que é mais velho, que tem autonomia ou que tem mais dinheiro.
No pátio da escola fica bem claro que quanto mais velha a criança, mais forte a influência dos colegas, mais fracos os valores da família. Entre os pequenos, o bolo embrulhadinho pela avó no guardanapo de flor, a garrafa com suco feito pelo pai, a velha lancheira preparada em casa, que ainda sobrevive. Enquanto isso, na cantina, a fila é grande. O caixa está repleto de “tentações”. Balas, pirulitos, chocolates. No balcão, salgados e refrigerantes. Logo as mesas ficam cheias.
Quando perguntamos quem gosta de tomar refrigerante todo dia, várias crianças levantam a mão animadas. Mas, não demora muito e logo se percebe que as coisas não são bem assim. Nem todos consomem refrigerante diariamente. Até porque uma grande parte dos pais está atenta e faz cobranças aos filhos.
- É como se eles quisessem ‘cortar o cordão umbilical’. Meu filho ama frutas, ele chega a comer até sete bananas em um único dia, mas tem vergonha dos amigos, afirmou a instrumentadora cirúrgica Deyla Pires de Oliveira, mãe de Gustavo, 11.
Acordo
Ela conta que o filho come de tudo em casa. Verduras, legumes, frutas. Mas, na escola a “coisa” muda de figura. Na mesa, os amigos de Gustavo exibem refrigerantes, pirulitos, salgadinhos. A mãe conta que manda lanche todo dia e que, depois de um acordo com o filho, só manda dinheiro uma vez por semana. Mesmo assim, Gustavo sempre ganha alguma coisa dos amigos.
Deyla afirma que o filho foi assunto de uma outra reportagem, quando era pequeno, porque era o único da classe que levava frutas picadinhas.
- Você tem de competir com os colegas do seu filho e até mesmo com as mães dos colegas porque tem gente que não manda lanche e dá só dinheiro, disse a instrumentadora.
Gustavo conta que gosta de beber refrigerante, mas que também gosta de sucos. O menino, apoiado pelos colegas, também afirma que adora chicletes e pirulitos, mesmo sabendo que eles não são indicados para o consumo. Os amigos na mesa - com as mãos cheias de refrigerantes, sacos de salgadinhos e doces - balançam a cabeça, concordando.
Leitinho
O colega Caio, 12, conta que, apesar de se render às guloseimas na escola, come bastante fruta. De acordo com ele, a mãe fica “no pé” para que ele tenha uma alimentação saudável. Ele conta que às vezes leva o que chama ironicamente de “leitinho”.
Outro amigo, Marcos Eduardo, afirma que toma muito refrigerante porque não gosta do suco da escola e porque o suco de casa acaba ficando muito quente para o consumo até a hora do recreio, às 9h45.
A mãe dele, Márcia Beleboni Nichi, afirma que o grande problema tem sido o refrigerante.
- Eles parecem precisar disso [comer na cantina] para serem aceitos no grupo. Eu não sou conivente de forma alguma com isso, tanto que regulo o dinheiro no máximo, afirmou Márcia.
Outra aluna, Maria Gabriela, de 7 anos, compra diariamente o lanche na cantina da escola. Os pais, segundo a garota, têm horários puxados no trabalho. O jeito é levar um dinheiro para o lanche. A estudante conta que adora comer salgados e que toma sucos prontos de caixinha e refrigerante. No cardápio sempre consta uma fruta também, reforço da avó, que fica preocupada.
A avó, dona Odete, conta que fala diariamente para Maria Gabriela e outros dois netos evitarem o refrigerante.
Criatividade
Professora faz a ‘gincana das frutas’
Apesar de uma quantidade significativa de escolas e cantinas não se preocuparem muito com o cardápio dos alunos, algumas iniciativas isoladas têm dado resultado.
A professora Sônia Shirley Souza Cavallin, que dá aula para o 2º ano do Ensino Fundamental do Colégio Anchieta, conta que implantou há quatro anos uma espécie de competição entre os alunos de sua sala, para ver quem traz frutas com mais assiduidade.
A idéia surgiu depois que Sônia ganhou um cortador de frutas diferente e percebeu como os alunos gostavam de comer frutas na sala de aula picadas com o seu cortador, que era norte-americano e que foi comprado como lembrança durante uma viagem.
Hábito
Ela diz que os alunos acabam criando o hábito de comer frutas de forma natural e que, mesmo quando vão para as outras séries, acabam ganhando gosto pelos alimentos mais saudáveis.
- Teve uma aluna do Rio Grande do Sul que não comia fruta de jeito nenhum. Depois a mãe veio me agradecer pelo fato de a escola ter proporcionado a mudança, lembra Sônia.
Adolescentes
A professora acredita que tem mais facilidade para lidar com os hábitos dos estudantes, justamente pela faixa etária mais baixa.
Ela acha que, realmente, na adolescência, os alunos tendem a deixar de levar a lancheira, como forma de mostrar que já não são mais crianças.
outro gosto
Maçã e barra de cereais na lancheira
A garota Jaqueline, de 9 anos, chama a atenção caminhando sob as árvores da escola com as amigas. Nas mãos uma maçã e uma caixinha de suco de morango com soja. A estudante parece não se importar com dezenas de colegas ao seu redor devorando a combinação clássica de salgado e refrigerante.
- Eu não ligo muito. Também costumo trazer banana e barrinha de cereais, conta Jaqueline.
A mãe da aluna, a psicóloga e socióloga Roberta Aparecida Giannini, conta que vem “pegando no pé” da filha há oito meses, e que há cerca de três Jaqueline parece ter tomado consciência sobre a importância de uma alimentação saudável, a ponto de não reclamar das exigências sobre a alimentação.
- Eu sempre me preocupei muito com a alimentação dos meus filhos, mas principalmente com a da Jaqueline porque houve uma época em que ela começou a se sentir gordinha, mesmo sendo magra, diz Roberta.
A psicóloga conta que a filha teve princípio de anorexia, o que foi revertido com ajuda de terapia. Hoje Roberta toma cuidado redobrado com os programas de TV que deixa a filha assistir e também impõe alimentação saudável em casa.
Refrigerante, por exemplo, está cortado em casa. Salgadinhos somente esporadicamente, quando os filhos pedem.
Escolha
Outro truque é deixar que Jaqueline ajude a escolher no supermercado os legumes e frutas que vai comer e permitir a sua participação no momento do preparo de um bolo de cenoura, por exemplo.
- Acho que dá muito mais trabalho educar, ensinar o certo, é um desafio. É mais fácil, por exemplo, mandar um pacote de bolacha do que gastar mais tempo para fazer um bolo com a participação deles. Mas, tenho plena convicção de que compensa ‘perder’ mais tempo porque é a saúde dos meus filhos que pode estar em risco a longo prazo, afirma Roberta, que tem um bebê de dois anos que também nunca tomou refrigerante e nunca provou chocolate.
Modelo de cardápio de lanche saudável - Sugestão da nutricionista Edina Sakamoto
Segunda-feira
• 1 caixinha de achocolatado de soja
• De 4 a 6 biscoitos sem recheio, de coco, leite ou maisena
• 1 banana
Terça-feira
• 1 caixinha de suco de fruta (maracujá)
• 1 sanduíche de pão integral com presunto, queijo e tomate
• 1 ameixa
Quarta-feira
• 1 garrafinha de iogurte de beber (morango)
• 1 pedaço de bolo simples (chocolate)
• 1 maçã
Quinta-feira
• 1 caixinha de suco de frutas (uva)
• De 1 a 2 bisnaguinhas integrais com peito de peru, alface e tomate
• 1 pêra
Sexta-feira
• 1 caixinha de suco de abacaxi
• 1 caixinha ou o equivalente a uma xícara de cereal matinal
• 1 goiaba
ADRIANA MATIUZO