Caderno C
Sexta-Feira, 22 de Fevereiro 2008 - 22h38
ENSAIO DE ORQUESTRA O maestro Rubens Ricciardi e os músicos da Sinfônica de Ribeirão, que recebem o solista Gustavo Costa, na viola
Durante um dos ensaios para o concerto de amanhã no Theatro Pedro II, os músicos da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto se divertiam pra valer. Na manhã da última quarta-feira, ao invés de Bach, Beethoven e Tchaikovsky, executavam temas do cancioneiro popular como “Tristeza do Jeca”, de Angelino Oliveira e “Saudades de Minha Terra” de Pascoal Todarello e Gerson Coutinho da Silva.
O repertório era tão inusitado que muitos não conseguiam tirar o sorriso do rosto, incluindo aí o maestro convidado Rubens Ricciardi que, ao lado do violonista e violeiro Gustavo Costa, comandava o grupo. No final de uma das músicas, um dos instrumentistas chegou a gritar feito um peão de rodeio: Irrá!!!
- Realmente, um concerto para viola caipira é algo novo e raramente feito, diz Gustavo.
Guitarra Barroca
Novo até mesmo para o próprio Gustavo que, para surpresa do repórter, diz ter começado a tocar viola há dois meses. Quem o vê, e principalmente o ouve, executar temas de Vivaldi num instrumento tão inusitado, tem a certeza de que é um especialista das dez cordas há anos.
Mas o fato é que o ribeirão-pretano Gustavo é um violonista com formação clássica, que em 1994 ingressou no Instituto de Artes da Unesp e quatro anos depois mudou-se para a Alemanha onde fez especialização no instrumento.
Em 2001, seguiu para a França, onde estudou até 2004 no Conservatório de Estrasburgo. Defendeu mestrado em 2007 e atualmente cursa o doutorado em Musicologia na ECA-USP, onde atua também como professor de violão e agora também viola caipira.
- O interesse pela viola apareceu porque é uma maneira de entrar neste repertório de guitarra barroca, explica.
Afinação cabocla
Guitarra barroca era o nome que a viola caipira recebia antes de atravessar o Atlântico e chegar ao interior do Brasil. Gustavo teve contato com o instrumento graças à professora, violonista e também violeira Gisela Nogueira, com quem gravou o CD “Tocata Brasileira para Pinho e Arame”.
O concerto de amanhã faz uma espécie de ponte entre o erudito e o popular, o barroco e o contemporâneo num repertório que reúne de Mozart a Teddy Vieira, autor de “Menino da Porteira”, imortalizado por Sérgio Reis.
Para deixar tudo com um toque ainda mais “caboclo”, Gustavo utiliza as afinações “cebolão” e “rio abaixo”, comuns entre os violeiros.
- Pensei inicialmente em utilizar a afinação natural da viola portuguesa, mais parecida com a do violão, mas não deu muito certo porque fugia um pouco da proposta deste trabalho, explica o músico.
Convite
O professor e maestro Rubens Ricciardi conta que a idéia de unir viola caipira e música erudita não é algo novo. O regente titular da Orquestra de Ribeirão Preto, Cláudio Cruz, deu início a um projeto semelhante na Orquestra de Campinas anos atrás, incluindo no repertório as mesmas “Tristeza do Jeca” e “Saudades da Minha Terra”.
Ao receber o convite do próprio Cláudio Cruz para dar início à série “Juventude Tem Concerto” de 2008, Ricciardi resgatou a idéia.
- Eu e o Gustavo ficamos experimentando e ele me ajudou a desenvolver alguns arranjos porque conhece o instrumento e as técnicas de performance, explica o professor.
Novas composições
Ricciardi escreveu a versão sinfônica para o clássico “Chico Mineiro”, de João Salvador Perez e Francisco Ribeiro. As outras músicas - “Saudades de minha Terra”, “Tristeza do Jeca” e “Menino da Porteira” - contam com arranjos do pianista Renato Kefi.
A apresentação de amanhã deve ser o ponta-pé de um projeto maior que passa por um concerto para viola e orquestra escrito pelo maestro José Gustavo Julião, da USP-RP, até a gravação de um CD pelo Quinteto da Osesp, com composições de Ricciardi para viola caipira, claro.
- O CD vai contar com o Gustavo Costa e o Claudio Cruz já avisou que quer reger, ressalta.
O professor da USP avisa que seu objetivo no concerto deste domingo é redimensionar a linguagem das músicas sertanejas. Dar uma complexidade estrutural e polifônica a um repertório essencialmente popular.
- É o que chamamos de “transcriação” de um universo para outro, argumenta.
Para isso utiliza de intertextualidade ao misturar trechos de Mozart e Bach nas estruturas de acompanhamento de algumas músicas, a exemplo do que faz Renato Keffi.
Complicado? Pois Ricciardi acredita que o projeto tem exatamente a função dupla de popularizar os temas eruditos e, ao mesmo tempo, elevar a viola a um outro patamar.
- No final das contas, eu e o Gustavo somos todos caipiras nascidos em Ribeirão Preto, não é mesmo?, pergunta ao ressabiado violonista.
Serviço
Juventude tem Concerto
Com a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto
Solista: Gustavo Costa (viola caipira) e regência de Rubens Ricciardi
Amanhã, a partir das 10h, no Theatro Pedro II.
Entrada Gratuita
Inf.: (16) 3977-8111
História
Viola tem origem portuguesa
O violeiro e compositor Gustavo Pinheiro Machado afirmava em uma moda de sua autoria que “a viola tinha pais portugueses, o violão tinha pais espanhóis, ambos eram netos de mouros e bisnetos de hebreus”. O instrumento, de origem portuguesa, chegou ao Brasil no século 16.
De acordo com o músico e professor Ivan Vilela, a viola é neta do e’ud, instrumento árabe, que chegou à Península Ibérica e deu origem ao alaúde e a todos os instrumentos de cordas dedilhadas, com braço que permite mudar as notas.
O e’ud, de acordo com Vilela, deu origem à guitarra latina no século 13. A guitarra latina é a mãe da viola e o violão, que apareceu na Espanha apenas no século 19, é o desdobramento da guitarra barroca.
Violão é um termo utilizado apenas no Brasil, exatamente porque, para os caboclos, o instrumento parecia uma “viola grande”. No resto do mundo é conhecido como guitarra.