Júlio Chiavenato
Sexta-Feira, 22 de Fevereiro 2008 - 22h46 O Brasil é tocado a compadrio, herança luso-espanhola. País escravista, bacharelesco e corporativista, se a compadrice se romper as relações humanas das elites desandam. Para os dicionários compadrio tanto pode ser compaternidade, expressão de amizade como “acordo ilícito, conluio, mancomunação”.
Antes que os apressados se assanhem, devo dizer que sou leitor de Carlos Heitor Cony, cuja performance é inteligente e divertida, como mostrou sábado passado no Café Filosófico. Destaco apenas o que estava subjacente: os laços de compadrio turvam a lucidez, digamos, literária-política.
Entre os temas propostos a Cony destacou-se José Sarney. Cony elogiou um dos seus livros e informou que ele fez um discurso sobre o padre Vieira que o elevou do lamaçal político. O ex-ministro Saulo Ramos, “padrinho” da Feira do Livro, disse que Sarney, quando presidente, evitou o choque entre extremistas da esquerda e direita, estabelecendo a democracia.
Todos compadres. Sarney, figurante da banda de música da UDN (o velho partido golpista de direita), a partir golpe de 1964 destacou-se como porta-voz da ditadura (há quem diga que ele foi “moleque de recado” dos militares, mas eu me esforço para ser comedido e não ouso tal), chegou a presidente da ARENA, partido criado para sacramentar o autoritarismo com “eleições” indiretas, depois caiu em desgraça porque o general Figueiredo o achava “frouxo” e traidor, e do PDS saltou ao PFL e acabou no PMDB. Trocou até de estado para se eleger e dar lugar à filha Roseana Sarney. Agora é um dos coordenadores dos conchavos do peemepetismo. O resto é compadrio.
Com todo talento Cony não limpa a lama de Sarney: para formar o lamaçal é preciso muita lama, matéria da qual politicamente Sarney é constituído.