Jornal A CIDADE

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Classe A

Sabado, 23 de Fevereiro 2008 - 20h4

Um homem de palavra

J.F.PIMENTA/ESPECIAL Um homem de palavra "O BBB também deve ser visto, porque está aí. Se você proibir...O Caetano [Veloso] já disse: é proibido proibir.Então não vamos proibir não, vamos ver junto"

Quando dava aula em cursinho, estrela absoluta dos pré-vestibulares, ele sabia de cor pelo menos 500 poemas. Por exemplo, Os Lusíadas. Também falava de cinema e de música. Ex-cantor de quermesses, na época da adolescência, faz imitações brincalhonas com facilidade. A voz grave e afinada soa parecida com a de Cauby Peixoto, é só ele querer. Mas já ouviu Elvis e gostou de rock. Entre Beatles e Rolling Stones, até hoje é mais Beatles. Mas nada tão simples assim, porque a vida não é linear. Nem ele. E por isso não é muito fácil entrevistar o (sempre) professor Antônio Marmo Cassoni. Leonino no signo e na desenvoltura verbal, aos quase 65, conserva a figura de um típico galã de filme francês da década de 60. Um homem de opinião: teve coragem suficiente para abandonar uma sólida carreira de 22 anos no Banco do Brasil e, antes disso, o curso de direito na disputada faculdade do Largo São Francisco. O Banco, ele trocou pelo sagrado ofício de dar aulas. E o curso de direito pelo curso de Letras, mais tarde, na Universidade São Paulo. Tudo isso depois de passar pela revisão de textos na Folha de São Paulo, na capital, atividade que lhe rendeu o registro de jornalista profissional. Peremptório e assertivo, ele pode ser tudo, menos morno. E é tão envolvente que coloca sempre os entrevistadores diante de uma extraordinária, digamos, capacidade de expressão. Não é para menos: o matonense que adora Bauru, fez carreira em São Paulo, brilhou no cursinho de Di Gênio (faz jus ao nome, diz Cassoni), vive em Ribeirão Preto, onde se orgulha de ter feito nada menos que 700 entrevistas em seus programas de televisão, chega para a conversa com munição pesada. Nas mãos, uma revista semanal, um livro que ele deixa de presente, sobre a sexualidade dos cegos [e que indica como muito bom], e, surpresa geral, um roteiro, feito em três páginas, com algumas referências básicas, que de vez em quando consulta com os olhos. Hábito de quem sempre preparou aulas-show. Traz também um texto de Milton Hatoum, outro generoso presente para os entrevistadores, que termina com uma frase que pode definir bem o trabalho desse mestre sem títulos acadêmicos: “Creio ser esta a viagem mais fecunda: o movimento da palavra poética rumo à origem”. Cassoni não gosta dos românticos. Entre os autores favoritos incluem-se Guimarães Rosa e Machado de Assis. Como Machado, ele cultiva a ironia, o sarcasmo e um pessimismo mordaz. Diz que o homem não deu certo. Para Cassoni, se existe alguém civilizado, hoje, é o índio.



ENTREVISTA A ANGELO DAVANÇO, MÁRIO EVANGELISTA E ROSANA ZAIDAN



Rosana Zaidan - Você já fez quantas entrevistas em televisão?
Antonio Marmo Cassoni - Umas 700, em 16 anos. Por ali passaram desde Dominguinhos até GLS [Gays, Lésbicas e Separadas]. Agora começa a ficar difícil de encontrar nomes, pessoas de fôlego, é bravo! Ribeirão não é uma cidade muito rica como se fala. Eu não acredito que seja. Que seja isso objeto de pergunta!

Rosana - Considere-se perguntado.
Cassoni - Na área de Medicina tem tanta gente. Na área de Ciências Humanas não. Você precisa de uma pessoa para falar sobre antropologia, não sei. Então você tem mais na área de Medicina, é a falta de uma [faculdade de] Filosofia! Sociologia...Não trazem [o curso] para a USP daqui.

Rosana - Tem que procurar na Unesp de Araraquara...
Cassoni - É uma luta! Gente de peso, que tem doutorado. Também, doutorado não serve para nada! Mas que tem uma reflexão profunda. Você tem muita gente que diz que é, que fala..

Rosana - Você não fez carreira acadêmica?
Cassoni - Não fiz. Não fiz por opção. Eu me identifiquei tanto com a área de Magistério de Pré-Vestibulares! Era bom porque ganhava dinheiro... O que eu ia querer mais? Gostava do que fazia, tinha aluno inteligente, ganhava dinheiro.

Rosana - Você pode dizer que ganhou muito dinheiro dando aula em cursinho?
Cassoni - Não ganhei muito dinheiro, mas ganhei um bom dinheiro.

Rosana - Você era a estrela [dos cursinhos]!
Cassoni - Fui! Porque eu vivi o auge dos cursinhos. Minha experiência em pré-vestibulares é terrível. Não defendo pré-vestibulares. Mas não fiz carreira acadêmica porque vi meus professores, já naquele período, reclamando de baixos salários. E olha que era um período bom. Anos 60, fiz 42 anos em 2002 de pré-vestibulares, comecei a dar aulas em 62. Então antes da revolução[de 64] havia na universidade uma cultura de valorização do professor, do teatro, da música, do cinema. A gente conversava isso em toda esquina! Era papo de estudante. Havia uma concorrência... Hoje concorrência é pra saber quem tem peitinho mais bonitinho, ou fez lipoaspiração. Na nossa época, era para saber quem tinha lido Marx. Ninguém entendia nada, mas dizia que lia! Ia lá e fuçava e perguntava pro professor.
Um cara sempre com um livrinho debaixo do braço, era a chamada cultura axilar, né? (risos) Não, mas o cara tinha lido aquilo, ele levava pra provocar a gente: “vamos trocar, o que você está lendo?” Você acha isso hoje?

Rosana - Não existe mais isso!
Cassoni - Você vê meu cacoete de indicar livro? É desse tempo! Era rico demais o processo! Quanta coisa me indicaram que eu não conhecia!

Rosana - Você estudou onde?
Cassoni - A história é muito complicada. Eu nasci em Matão. Fiz tudo que eu podia fazer naquela cidade... Nasci na periferia, família pobre, pais de cultura primária, meu pai está com 95 anos e está internado em Araraquara, mas lúcido, porque continua odiando os corinthianos, de uma lucidez incrível.

Rosana – Ele é palmeirense, claro!
Cassoni - (rindo muito e imitando italiano) Cassooniiii!

Mário Evangelista - Ele não é nem palmeirense... Torce para o Palestra Itália! Palestrino!
Cassoni - Nós, que nascemos sob a égide da tradição italiana, antes de sermos palmeirenses, somos anti-corinthianos. É uma coisa dramática! Mas fiz tudo o que podia fazer naquela cidade. Eu me mandei, porque olhava meu pai, pobrezinho, trabalhando no pesado, falei, vai sobrar pra mim esse negócio! E meu pai teve uma dignidade que eu tentei ter com minhas filhas: perguntou para mim, o que você quer fazer? Trabalhar ou estudar? Eu quero estudar! A gente se espelhava - tenho a impressão que era esse o perfil do interiorano dos anos 50, 60 - nos professores. Tive o privilégio de ser aluno do Cândido de Oliveira, que era um dos professores mais criativos que eu via. Tinha uma didática! Acho que é isso o que está faltando nas salas de aula de hoje. A revolução que o professor pode fazer, com todas as dificuldades que ele possa ter. Os professores eram bons, porque tinha que ser, senão não passava no concurso, que nem a OAB hoje faz. Primeira aula dele, ele chega com um carro importado, brigou com o clero, mas chega na primeira aula, impecavelmente vestido, não repetia gravata e perguntou: quem quer falar alguma coisa? Ficou uns dois dias assim para desinibir, desbloquear a classe. Eu era menininho, bobinho, fui para a frente e ele me pediu que declamasse. Disse que não sabia. Mas e o “batatinha quando nasce, se esparrama pelo chão...”? Esse eu sei! Estava nascendo ali um professor. Tudo depende de impacto. Já o meu professor de matemática, Deus o tenha junto aos infernos, ele me vinha da faculdade de Engenharia da USP e chegava no ginasial e dava os mesmos problemas que ele aplicava lá. O que eu fiz? Decorei o livro dele! Tirei 9, 8, 10, passei em Matemática com louvor. Mas não sei até hoje aplicar o teorema de Pitágoras. (risos) Não era boa essa escola inquisitiva, que reprovava. Eu vou defender a promoção automática, que tem outro nome...

Mário - Progressão continuada!
Cassoni - Progressão continuada! Isso mesmo. Por causa do professor de português fui fazer teatro, fui fazer palco, mais tarde tive um conjunto de rock, era crooner. Sei que nós íamos cantar em quermesse, em cidadezinhas próximas, a troco de franguinho de quermesse.

Mário - Qual era o repertório?
Cassoni - Era Elvis Presley, Sérgio Murilo (cantarola “Marcianita)...(risos) Cantava Nat King Cole: (cantando) “sempre em su casa, contente estas, el bodeguero e el tcha tcha tcha...toma chocolate, paga lo que bebes” (risos e cantoria geral, em coro)... Cauby: (imita) Conceiçãaaaaooo! Eu fui da pá virada!

Rosana - Foi? É!
Cassoni - Acho que hoje precisa fazer a meninada buscar outros rumos. Era um tempo mais alegre. Não é saudosismo, é uma constatação de vida. Você tem saudade porque é um sentimento impregnado na alma humana, quem é que não tem? Mas era uma coisa espetacular. Agora tem uma coisa: tudo girava em torno da escola. Se eu falar para vocês que ficávamos tristes por ocasião das férias escolares, porque acaba a brincadeira, acabava a paquera, vinha para casa. E vir para casa, em família pobre, é sinônimo de trabalhar. Meu professor de Educação Física era um atleta. Eu não fumo por causa dele!

Rosana - Você está dizendo que o falta hoje é professor bom!
Cassoni - É, eu quero chegar aí! O problema da educação é que não adianta prédio bonito. E não vem com essa história que a tecnologia resolve o problema da educação, não adianta ter high-tech. Você tem que ter professor high-tech. O que é isso: é o novo professor! Eu acho que parei na hora certa, não cabe mais...

Mário - Qual é o perfil desse professor high-tech? Criatividade?
Cassoni - Isso! Para o sujeito ser um concertista, um solista, ele não estuda? Para ser um jogador de futebol não passa por uma preparação física, técnica? Como é que forma professores? Eu não gosto dessa expressão, mas ela corre por aí: eu acho que vou pegar umas aulinhas, estou sem fazer nada mesmo! Como vou pegar umas aulinhas por aí? Pára com esse negócio! O professor tem que ter aptidão e saber que ele vai enfrentar uma profissão mal-remunerada, que um dia pode ser revertida, que o Ministro[Fernando Haddad, no dia 11 de fevereiro] dirigiu-se à nação e falou da Educação como prioridade nacional. Um desafio! Eu já era pequeno quando falavam que a educação iria mudar o mundo. 50 anos depois parece que mudou pouca coisa, aliás, piorou! Eu queria dizer o seguinte: o professor tem que ser preparado para a nova realidade. Qual a formação psicológica tem um professor hoje? Teoria! Prepare-se, professor: o senhor vai encontrar um aluno rebelde, sem bom poder aquisitivo, são alunos que vêm com certo grau de exclusão, o senhor vai enfrentar uma parada indigesta professor, o senhor vai ter que motivá-los! Já assistiu ao filme “Escritores da Liberdade”, um fato real, sobre uma professora norte-americana, que faz uma revolução num gueto!? Esse filme, belíssimo, estou recomendando a todos os meus colegas, que mexem com o ser humano. Tem em DVD e tudo. Tem que incorporar coisas interessantes à sala de aula. Temos que trazer para a sala de aula a chamada televisão. Já que perdemos a guerra para a televisão, eu faço mea culpa: o professor não tem condição de brigar com a televisão, porque a imagem seduz mais! Porque é preciso entender, como Rubem Alves, que hábito é dever, então que não seja hábito, mas sim o prazer de ler. A pessoa que gosta de ler fica crítica, faz a cabeça dela, não aceita tudo pronto. Ela fica estável nas suas decisões. E o professor tem que conhecer toda essa novidade. O professor tem até que ver até novela, porque, a partir da novela, vai trabalhar temas transversais!

Rosana - E o BBB? [Big Brother Brasil]
Cassoni - O BBB também deve ser visto, porque está aí. Se você proibir...O Caetano [Veloso] já disse: é proibido proibir. Então não vamos proibir não, vamos ver junto! Antes de fazer aquela coisa moralista que a gente faz. Eu não vejo, mas estou na idade de não ver mesmo, porque tenho outras coisas para fazer. Minha vida agora está curta. Tenho que aproveitar esse resto de tempo para coisas mais interessantes. Mas quem tem tempo a perder, é um ótimo negócio. Agora, qual o professor que tem condição de fazer isso? Ele tem quatro pontos de trabalho!

Rosana - Espera aí, só para não perder o fio da meada...Vamos retomar a história de sair de Matão?
Cassoni - Saí de Matão e fui buscar emprego em São Paulo. Sozinho. Com 17 anos, morando numa pensão na Brigadeiro [Avenida Brigadeiro Luís Antônio]. Com mais duas pessoas que nunca tinha visto na vida.

Rosana - E que tal foi a experiência?
Cassoni - Voltaria a repeti-la ene vezes. Brigadeiro com Viaduto Maria Paula! Foi quando conheci [o cantor] Agostinho dos Santos, que antes de morrer naquele trágico acidente em Orly, na França, ele freqüentava um boteco chamado “A Princesinha”. Não existe mais! Me emocionei, quando voltei lá. Eu ia lá comer. O Agostinho gostava de bater papo, era figura popularíssima ali. Nunca conversei com ele, mas fui apresentado. (canta: Ai, Dindi! Tristeza não tem fim, felicidade sim!) Ele cantava com uma voz inimitável! E aí eu comia pudim, enchia a cara de pudim. E foi assim, foi demais. E sabe qual foi o meu primeiro emprego? Folha de São Paulo! Entrei como revisor.

Rosana - Com 17 anos?
Cassoni - 17 para 18. Está na minha carteira profissional. Por isso eu tenho o MTB [matrícula de jornalista no Ministério do Trabalho] 7552, ou algo parecido. Porque trabalhei dois anos na Folha de São Paulo. Primeiro na revisão, depois preparei uma matéria chamada “Helena Silveira, paisagem e memória”. E linotipo do lado, aquele barulhão! Tremia tudo! O chefe de redação era o Emir Nogueira. Eu trabalhava da uma às sete. À noite ia para a faculdade (de Direito). Fiz um ano e meio na São Francisco. Depois eu desisti: entrei no Banco do Brasil, vim para o interior, depois voltei para São Paulo e fui fazer Letras. Escuta só. E já dava aula e ganhava um bom dinheiro. Lá na Folha vi um colega revisor ser demitido porque trocou um texto na coluna social. Foi aí que entendi o papel do departamento comercial num jornal e nos outros veículos também. Por isso que o a televisão virou esse lixo, o rádio virou esse lixo que está aí. Porque eu tenho dinheiro, mas não entendo nada, não sei fazer nada. Então eu compro um horário e vou lá fazer um programa. E o proprietário do veículo, na sua santa responsabilidade, põe o programa no ar. Detalhe: concessão pública!

Angelo Davanço - Mas nos seus programas de rádio e tv hoje você tem essa interferência?
Cassoni - Nenhuma! O dia que eu sair do meu trabalho em rádio e televisão você já sabe por que! Mas trabalho numa casa (COC, TV Thathi) onde os professores dão aula sob a égide do “ibope”. Eu gostaria que a escola pública tivesse o Ibope também.Para dar uma avaliação melhor do professor. O professor deveria entrar numa sala de aula dizendo: tenho que dar uma aula hoje melhor do que a de ontem.

Rosana - Como é que funciona essa avaliação do “ibope”?
Cassoni - Eles fazem um questionário. Se o professor é bom, se prepara aula boa, se tem conhecimento. É legal o ibope que se faz nas escolas particulares. Especialmente nos cursinhos. Tem uma avaliação até do comportamento do professor!

Rosana - Se não der ibope, está fora...
Cassoni - Oh! É assim numa empresa! Aqui, se um colunista não dá leitura, ninguém vai mantê-lo porque é amigo, porque jogou bola junto. Não existe isso mais. E por que na escola pública tem que ter? Aquele professor concursado, acomodado... Então essa estabilidade é uma coisa perigosa em qualquer estrutura empresarial, seja ela pública ou privada! A estabilidade é a meritocracia e a competência! É a coisa da mudança do professor. Eles mudam o prédio, colocam um vídeo e um DVD, está resolvido... Escola pública. E a tal da biblioteca? Biblioteca virtual, então! Se essa turma tem cacoete de virtualidade, então vamos a ela! Que se passe a ler pela tela, qual o problema? Tem que gostar de ler! Põe coisa boa na tela (no computador)! Vai ter problema de visão? Dá óculos pro cara! O professor tem que estar na frente. Está aí o problema: quem ensina a quem vai ensinar? Quem avalia a avaliação? Tem que reformular tudo!



ANOTAÇÕES DO PROFESSOR CASSONI
A aceleração da vida contemporânea e as novas configurações do universo de trabalho criaram uma nebulosa zona de fronteira entre escola e família, quando o assunto é transmissão de valores. Precisamos definir bem quais os papéis da família e da escola. Há uma confusão de papéis. Alguns valores do mundo privado são de responsabilidade da família. Os do mundo público, da escola.

Educação é feita por ações, não por intenções. Vivemos num mundo paupérrimo de ética. A principal função dos pais é transmitir princípios, valores. O resto a criança aprende por conta própria.

Há um dado novo a ser considerado. A Mídia Educativa, ou Educadora ou Deseducadora, Deseducativa. O que a Mídia ensina é o consumismo. A escola e o professor de hoje não conseguem mais competir com a televisão.

O educador deve ter o papel de mediador entre a Mídia e o Indivíduo. Solução: trazer a mídia para dentro da sala de aula, tornando-a um articulador do discurso.

Observação importante: a linguagem conceitual está inserida no universo das letras, não na linguagem audiovisual.

A lógica do imediatismo pode funcionar bem no mundo dos negócios, mas em Educação ela é nefasta. Educar implica longo processo.

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