Hilário Bocchi
Sabado, 23 de Fevereiro 2008 - 20h8 Você lembra aquelas bicicletas pretas. Aquelas que todo operário utilizava para ir e voltar ao trabalho.
Caso tenha menos de quarenta anos de idade certamente não sabe do que estou falando, mas vou te contar.
O sonho do homem, e também seu prazer, há décadas atrás era apenas trabalhar “formar” os filhos, ter a casa própria e nela colocar a mulher que ama.
Dinheiro sobrando era desnecessário, tinha-se tudo; até a bicicleta preta.
Passado
Quando era criança conheci várias famílias assim; a do Seu Osvaldo era uma.
Ao final de um dia de trabalho, de banho tomado e após saborear o arroz com feijão que cheirava longe, a família sentava-se na calçada; batia-se papo; contava-se “causos”; tudo era tão simples.
Vivi muitas destas noites. Saudades...
Cresci. O mundo mudou. Agora tudo é diferente.
Tudo mudou
A educação gratuita não é mais eficiente; a saúde e a segurança pública são um fiasco e a aposentadoria não consegue mais realizar este sonho.
Homem e mulher – os casais – têm que abdicar destes momentos felizes para juntos, compondo a renda familiar, pagar a escola privada; pagar a saúde privada; pagar a previdência privada; pagar tudo que o imposto já pagava e deveria até hoje pagar.
O relacionamento entre as pessoas mudou. A conversa na rua foi trocada pelas brigas no quarto. As pessoas não vivem mais; apenas sobrevivem.
Hoje
A garantia de um trabalho e o salário certo ao final do mês cedeu espaço ao mundo competitivo onde não há mais sonho, sequer sono, apenas pesadelos e noites mal dormidas.
O trabalhador não trabalha mais; agora luta. Luta pela sobrevivência, saúde, educação. Luta pela vida das pessoas que ama.
Esquece sua saúde e da sua vida. Tem compromisso apenas com a felicidade de quem ama. Sua remuneração não mais o dinheiro, mas o sorriso das pessoas que reconhecem sua luta.
Testemunha
Vejo todos os dias, no meu trabalho, homens e mulheres, de carne e osso, fazendo-se de ferro, trabalhando durante duas e até três jornadas; de manhã, à tarde e à noite, acabando com sua saúde e sua vida para fazer felizes as pessoas que ama.
Compra, com seu dinheiro, não apenas comida, mas saúde, educação e previdência; tudo aquilo que o Estado tem a obrigação de garantir.
Gostaria muito de matar a saudade dos tempos do Seu Osvaldo e ter a certeza de um dia estas pessoas que tanto se preocupam com aqueles que ama serem retribuídas com o que vi e vivi na minha infância. A felicidade.
Ah... o Seu Osvaldo tinha uma bicicleta preta.
*Hilário Bocchi Júnior é advogado especializado em Previdência Social e escreve aos domingos.