Geral
Sabado, 23 de Fevereiro 2008 - 20h12
EXEMPLO EM RP Maris, formada em Letras em 2007: muito esforço pessoal e até ajuda de amigos para pagar as mensalidades da faculdade
Era a estréia da Feira do Livro de RP, em 2001, e Maris autografava sua primeira publicação. Ela estava com 36 anos, filhos adolescentes, e já tinha uma significativa história de superação para contar.
Mas um proseado ligeiro com um adolescente mudou os rumos, de novo. “Depois que ele ouviu minha história, disse que eu tinha que fazer faculdade”, conta Maris Ester Aparecido de Souza, hoje com 43 anos.
Não foi difícil escolher o curso, Letras. Desde pequena eram as histórias dos livros que a inspiravam, diz. O entrave foi manter-se na faculdade. O que ganhava nas faxinas era insuficiente para ajudar em casa e bancar os estudos.
Decidiu, então, encaminhar-se para uma instituição noutra cidade, porque achava mais barata que as de Ribeirão. Mas pagou só a primeira mensalidade, e freqüentou o ano todo sem poder quitar os boletos.
No início do ano seguinte, foi impedida de matricular-se. Sem faxinas e sem as aulas, arrumou emprego de guia em uma empresa que transportava estudantes. “Eu chorava, enquanto esperava os estudantes lá fora. Imaginava o que estavam aprendendo”, recorda.
Até que os amigos insistiram que tentasse cursar uma faculdade em Ribeirão. “Amigas me ajudaram a pagar. Assim foi com a matrícula e três meses de faculdade”.
Enquanto fazia bicos como diarista, encontrou quem lhe desse estágio em uma biblioteca. Maris não conhecia a benfeitora, mas era sua conhecida por causa do livro que escreveu, Nua para o Criador, Vestida para a Humanidade. “Nele, retrato a essência feminina, em prosa e poesia, é a menina que se descobre mulher”, resume.
Depois, veio o segundo emprego, as aulas de reforço numa escola. O dinheiro ainda era pouco para pagar estudos e ajudar em casa, e se meteu em apertados financiamentos. Até que um dia venceu o estágio na biblioteca. “Estava sem esse emprego, fui à penitenciária doar livros, e me chamaram para dar aulas para as detentas”, declara.
Maris conseguiu se formar ano passado, ao mesmo tempo em que deixou de trabalhar na penitenciária. Antes de sair, treinou uma presa para ser professora. Era Miriam, ex-aluna de Direito, detida por tráfico. Até hoje não recebeu carta da moça, já liberta, mas tem a sensação que algo de novo também ocorreu com a ex-aluna. “Ela dizia que eu não fazia idéia de como as aulas mudaram a vida dela”, recorda.
Incentivado pela mulher, José, de 46 anos, retorna aos estudos
Antes de lutar pelo diploma universitário, Maris já tinha passado situações dignas de novela. Aos 18 anos, passou um ano perdida no Rio de Janeiro. “Fui visitar minha irmã mais velha. Ela estava internada numa clínica e eu fui parar numa cidade do interior, numa pobreza que não tinha visto ainda”, lembra.
Após reencontrar a família, voltou e casou-se com José Aparecido, que a paquerava desde a infância.
Foi essa a história que Maris escreveu no primeiro livro, autografado para o adolescente que, sem saber, acrescentou um novo volume a esse romance.
Os filhos de Maris cresceram, começaram a trabalhar e estão batalhando pela faculdade, enquanto Maris planeja o segundo livro.
Dia desses, como se tudo já estivesse calmo, ela e o marido foram viajar, comemorando aniversário de casamento.
José, que trabalha no serviço de poda de árvores, na prefeitura, fez uma revelação a Maris. Aos 46 anos, ele vai voltar à escola, completar os estudos, porque não se satisfaz mais com o que já sabe. “Isso tudo, penso, foi por causa dos meus estudos, e a notícia dele foi o melhor presente que poderia me dar”, diz.