Geral
Sabado, 23 de Fevereiro 2008 - 20h15
SAÚDE MENTAL Luciana Campaner, psicóloga: especialização em um distúrbio que tem origem genética
A volta às aulas nem sempre é um período fácil para todos os pais. Algumas crianças são portadoras do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) que dificulta o aprendizado, provoca problemas de comportamento tornando a escola um local nem sempre muito atrativo para eles.
Alunos desligados, que não param na cadeira da sala, se dispersam facilmente, não conseguem prestar atenção na aula, puxam conversa com os colegas e acabam atrapalhando o desenvolvimento da aula. São atitudes comuns a essa crianças. “Há muito mito de que o TDAH não existe, que é um problema educacional e de falta de limites, o que acaba adiando o diagnóstico”, afirma o neurologista Marco Antônio Arruda, autor do livro “Levados da Breca”, que trata do assunto.
“A informação chega de forma desorganizada para essas crianças, o que dificulta a assimilação de novos conhecimentos. A memória de curto prazo também é prejudicada, daí os chamados brancos”, comenta a psicóloga Luciana Campaner.
Segundo ela, o nível de inteligência dessas crianças é normal, mas elas têm dificuldade em fixar a atenção. “Se é uma atividade que não gostam se torna ainda difícil, a tolerância baixa é um sintoma do transtorno”, ressalta.
Incidência de 5%
No Brasil, cerca de 5% das crianças e adolescentes entre 0 e 18 anos apresentam o distúrbio. Com base nos dados populacionais, a estimativa é de que 3 milhões sofram do problema.
De acordo com Arruda, um quarto dos estudantes com TDAH tem dificuldade de aprendizado, principalmente na expressão oral, compreensão e interpretação de texto. “É um problema sério com prevalência maior na infância do que a asma e o diabetes”, compara o médico.
Arruda cita que nos EUA existem estudos que demonstram que 45% das crianças com TDHA são expulsas da escola e 35% abandonam os estudos. No Brasil ainda não há estatísticas.
“A criança não tem noção do seu problema orgânico e acaba sendo rotulada. Ela se sente desestimulada e perde a auto-estima por conta dos fracassos sucessivos”, explica.
Mas o Distúrbio do Déficit de Atenção nem sempre está associado a hiperatividade e se manifesta de forma diferente entre os sexos.
O problema começa a ser percebido principalmente na idade pré-escolar, por volta dos seis anos.
O problema é genético. “Já existem vários genes identificados que estão ligados ao cromossomo sexual”, explica Arruda.
Essa alteração genética provoca um mau funcionamento em algumas áreas cerebrais. Nessa pessoas existe uma disfunção neurológica na região do córtex pré-frontal, responsável pela coordenação do mecanismo chamado ‘break’.
Ele permite, por exemplo, que uma pessoa pare para escutar a outra e preste atenção no que ela está falando.
Uma outra manifestação é a impulsividade. Na infância, ela leva a criança a se envolver mais em acidentes domésticos, na adolescência estimula ao envolvimento em atividades sexuais de risco, direção perigosa e mais fragilidade ao uso e dependência de drogas.
Papel da escola foi fundamental no diagnóstico
Desde que começou a interagir com os brinquedos, Ciro (nome fictício), de 5 anos, não conseguia se brincar com apenas um deles, logo largava ou queria todos ao mesmo tempo
Mas foi aos quatro anos quando começaram as primeiras atividades escolares, que a mãe, a educadora Adriana Vancim começou a observar a dificuldade do filho em se concentrar.
“Ele falava que não conseguia fazer a lição, já dava alguns sinais, mas eu achava que era preguiça ou que poderia ser mimo, já que é filho único”, conta.
Quando a coordenadora pedagógica colocou que a criança não conseguia concluir as atividades, porque logo se dispersava, Adriana decidiu procurar um neuropediatra, que diagnosticou o Distúrbio do Déficit de Atenção.
“A escola teve um papel fundamental, elas reforçaram a minha dúvida”, diz.