Jornal A CIDADE

Leia_A_cidade

Boa Mesa

Quinta-Feira, 28 de Fevereiro 2008 - 23h13

Nhoque da Sorte

F.L.PITON Nhoque da Sorte TRADIÇÃO Francesco e Francisco, donos da Bella Sicília, mostram prato de nhoque sem molho e a tradicional máquina de cortar nhoque que veio da Itália

Uma fortuna em dinheiro, mas que também pode vir em forma de amor, de saúde e de paz. É para sentir o gostinho de ver alguns sonhos realizados que muita gente vai se sentar à mesa hoje e escolher o nhoque como seu prato principal. Desta vez, o tradicional Dia do Nhoque da Fortuna ganha um ar especial já que em fevereiro, o dia 29 só acontece de quatro em quatro anos.
A alimentação à base de nhoque no dia 29 tem rituais diferentes. O básico é sempre colocar uma nota de dinheiro sob o prato e fazer um pedido. A nota deve ser guardada por um ano e, segundo reza a lenda, trará a realização para aquilo que foi desejado.
A origem do costume tem várias versões, mas basicamente aborda a lenda de que um frade andarilho havia pedido comida em uma pequena localidade no interior da Itália. Depois de receber nhoque para se alimentar, ele teria mostrado sua verdadeira identidade e teria agradecido a generosidade fazendo com que notas de dinheiro aparecessem para os que ajudaram. Ele seria na verdade São Genaro ou São Pantaleão.
Existe quem diga que o nhoque da sorte ou da fortuna tenha sido criado por donos de restaurantes afim de alavancar as vendas do prato. O fato é que em um país supersticioso como o Brasil, o ritual logo conquistou a simpatia popular e foi adotado nas cantinas, restaurantes e casas.

Na mesa
É sobre toalhas verdes e vermelhas, tipicamente italianas, que os clientes de Francesco Cammilleri, 84, apreciam o nhoque italiano legítimo. Logo Francesco faz questão de mostrar a antiga máquina de cortar nhoque, que trouxe da Itália e que agora é relíquia admirada em seu retaurante, o Bella Sicília.
A massa leve cortada em pequenas trouxinhas tem sempre por base o ingrediente básico do nhoque: a batata. O molho, em compensação, fica ao gosto do freguês. São 16 tipos, sendo que o mais tradicional é ao sugo e os mais populares são à bolognesa e o de calabreza.
Seu Cammilleri nasceu na Sicília e conhece muito bem a cozinha italiana. Ele afirma que o nhoque é um dos pratos mais típicos da Itália. O povo italiano admira e consome muito nhoque no dia-a-dia, mas no dia 29 de cada mês, o ritual do Dia da Fortuna é sempre levado ao pé da letra. Francisco Carlos Cammilleri, um dos filhos de seu Francesco, sugere que o prato, como qualquer massa, seja acompanhado por um bom vinho ou por um refrigerante.
Ele conta que a tradição do nhoque da fortuna já se popularizou no Brasil entre descendentes e não descendentes de italianos e que a procura é grande todo dia 29. Muitos clientes perguntam e até mandam e-mail para se informar sobre o prato. Mesmo assim, o ritual ainda surpreende em algumas situações. Francisco conta que já chegou a ser questionado com surpresa por uma funcionária do restaurante sobre o que estava acontecendo porque havia encontrado notas embaixo dos pratos.
- O bom do nhoque da fortuna é que ele traz uma história a mais, uma alegria a mais para a mesa, afirma Francisco.
Massa rápida
Na sua opinião, dessa vez o movimento deve ser ainda maior em busca do nhoque por se tratar de um dia diferente em um ano bissexto. Francisco explica que o nhoque faz muito sucesso entre os italianos porque tem uma massa leve, de fácil preparo e que tem preparo relativamente rápido. A massa precisa de apenas quatro minutos de cozimento para ficar pronta. Francisco afirma que o movimento chega a aumentar 30%.

Nhoque de chocolate
Em função do ano bissexto, a rede de restaurantes Spoleto resolveu criar o Super-Dia da Fortuna este ano. As 175 lojas da rede, incluindo duas de Ribeirão, vão distribuir nhoque de chocolate de graça para seus clientes e também vai colocar a chamada “árvore da fortuna” com vale-brindes com os quais os clientes poderão ganhar bebidas e sobremesas.
Embaixo de cada prato, virá uma nota de US$ 1. A massa é simples e fresca e o restaurante também aposta na variedade de molhos e ingredientes. Ao todo são seis opções de molho e oito ingredientes para serem adicionados ao prato.
O proprietário do Spoleto do RibeirãoShopping, Vagner Ruvieri, afirma que mesmo nos outros dias do mês, o nhoque faz sucesso e é um dos carros-chefe das vendas, ao lado do tradicional penne e do raviolli.
Segundo a especialista em marketing da rede, Amanda Ribeiro, a cadeia de restaurantes já registra um movimento até 50% maior todo dia 29, quando há uma grande procura por nhoque. Mas essa será a primeira vez que a rede aproveita o ano bissexto para fazer uma promoção especial.
De acordo com Amanda, os clientes normalmente perguntam sobre o prato, mas a maioria já é adepta do ritual e conhece bem a história.
- Existem aqueles que não deixam de seguir a tradição por nada e todo mês comparecem ao restaurante, disse a especialista em marketing.
Segundo ela, não existe distinção entre os descendentes e não descendentes de italianos. O interesse é grande pelo público freqüentador da casa em geral.



Ritual sagrado
Professora faz questão de guardar a nota de dólar
A treinadora Lusinethe Setter conta que almoça fora de casa todos os dias e que é adepta das massas. Ela acha que as massas preparadas na hora dão uma garantia a mais de que a comida é fresca e, por isso, se tornam mais atrativas. A treinadora, que é de São Paulo, afirma que hoje irá fazer questão de comer o nhoque e que sempre cumpre o ritual do dia 29.
Ela garante que não se importa muito com a superstição em torno do prato, mas que o filho Matheus, de 10 anos, adora ganhar as notas de dólar que alguns restaurantes oferecem.
- Se eu não pudesse comer nhoque no dia 29, isso não me incomodaria, mas como posso, acho interessante. Talvez muita gente faça isso em busca de esperança, de sobrevivência mesmo, diz a treinadora.
Já a professora Raphaella Parizzi afirma que adora o dia da fortuna e que faz questão de cumprir o ritual. Raphaella, que é descendente de italianos, afirma que se sente iluminada depois que come o seu prato de nhoque e que, mesmo que estiver em uma emergência, não gasta a nota usada sob o prato.
- Eu acho que é muito psicológico, mas dá resultados, traz coisas boas para quem acredita, então pretendo continuar cumprindo este ritual. Até porque não é sacrifício nenhum comer nhoque, na minha opinião, disse Raphaella.



Serviço
Onde comer o nhoque da fortuna

• Spoleto RibeirãoShopping:
(16) 3902-1170
• Spoleto Novo Shopping:
(16) 3965-1232
• Bella Sícilia:
Av. Independência, 294
(16) 3610-7466



ADRIANA MATIUZO

  • Imprimir
  • Enviar

É proibida a reprodução do conteúdo dessa página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso sem autorização escrita da Empresa Jornalistica Orestes Lopes de Camargo S\A
ARZ