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Caderno C

Quinta-Feira, 28 de Fevereiro 2008 - 23h18

Luz, câmera e união

Régis Martins
F.L.PITON Luz, câmera e união LOCAÇÕES Equipe começou a gravar o décimo longa-metragem em Brodowski. Fama do grupo de cinema já ultrapassa os limites da região e duas produções já foram exibidas pela Rede Brasil

Eles estão de volta. Os produtores, roteiristas e diretores Caetano Jacob e José Luis “Mith” Mantoani começaram a filmar a nova produção da equipe de cinema mais prolífica da região, quiçá do país.
A fama do grupo de Brodowsky atravessou fronteiras e chegou à Rede Brasil, do governo federal. Dois filmes da equipe foram exibidos no canal e, conseqüentemente, em todo o país: “Dioguinho”, de 2003 e “A Mão do Destino”, de 2005.
O novo longa, “Sementes do Mal”, que deve ficar pronto até o final do ano, segue o mesmo esquema guerrilha de produção. Ou seja, uma equipe mínima de voluntários que trabalha com muita vontade e pouco dinheiro.
- Aqui, ao invés de ganhar, todos pagam para participar, garante José Cadamuro Virgínio, pedreiro aposentado de 78 anos e ator de nove filmes do grupo.

Zorro
Seu José, que faz o papel do porteiro Tonhão no novo filme, não está brincando. Todo o figurino e gastos com transporte são bancados basicamente pelos atores, todos amadores e com quase nenhuma experiência nas artes cênicas.
O aposentado diz que sempre foi um apaixonado pelo cinema, desde a época em que assistiu aos filmes do Zorro no extinto Cine Carlos Gomes de Jardinópolis. Convidado pelo amigo Caetano a atuar, não pensou duas vezes.
- Gosto muito disso aqui. Faz bem para a cabeça, garante.
Munidos de câmeras de vídeo e equipamentos de som emprestados pela TV Educativa de Brodowsky, parceira em todas as etapas de produção, a equipe grava basicamente nos finais de semana para não atrapalhar as outras atividades e profissões do elenco.
O câmera e diretor de fotografia, por exemplo, é professor, presidente da Câmara de Vereadores e diretor da TV Educativa.
O último filme, “Aconteceu Naquele dia”, custou 60 mil reais e 70% deste valor foi bancado pelo elenco e grupo técnico. O restante é patrocinado por alguns comerciantes da cidade em dinheiro ou mesmo em doação de material e liberação de espaço para filmagens.
Na última terça, por exemplo, as gravações foram feitas no estacionamento de uma empresa de revestimentos para móveis da cidade.
- Este é o nosso maior êxito. Encontrar pessoas que nos ajudam, diz Mith Mantoani.

Drama policial
O local foi utilizado para uma das cenas externas de “Sementes do Mal” que, de acordo com Mith, é um misto de drama e ação policial.
Bancário aposentado de 63 anos, Mith assumiu definitivamente o cargo de diretor desde que o amigo Caetano deixou as filmagens para ficar na produção e desenvolvimento de roteiro.
- Escrevemos em dupla. O Caetano vem com a história e eu coloco no papel. Ele também é um cara muito bom para escrever falas, ressalta o diretor.
Ferroviário aposentado de 72 anos, Caetano reuniu há uma década um grupo de amigos que tinha em comum o amor pelo teatro amador e pelo cinema.
Mith que já o conhecia na infância o reencontrou em 2000, quando retornou a Brodowsky depois de viver em Ribeirão Preto por 37 anos. Modesto, Caetano sequer apareceu nos locais de filmagem na última terça para evitar dar entrevistas.
- Ele sempre foi um sujeito muito ativo e determinado. É uma pessoa única, elogia Mith.

“Cafajestes”
Mas o projeto é, acima de tudo, um trabalho de equipe. Todos participam de várias etapas da produção, incluindo opiniões sobre o roteiro.
- Damos liberdade, porque confiamos no ator, garante Mith.
O único integrante do elenco que teve alguma experiência em cinema foi o técnico em refrigeração Clóvis Martins da Silva. Ainda adolescente na década de 60, participou das filmagens de “Como agem os Cafajestes”, uma fita obscura realizada em Super-8 em sua cidade natal, Batatais.
Nos filmes de Brodowsky, Clóvis é especialista em papéis de vilão, principalmente coronéis latifundiários.
- Na rua, me chamam de Coronel Ferreirinha, que foi um dos melhores papéis que fiz, revela.
Uma nova geração de atores também começa a trabalhar com o grupo. Lívia Maria da Costagrande, estudante de Fisioterapia de 19 anos, atua pela segunda vez com a equipe. Estreou em “Aconteceu Naquele Dia” e agora, em “Sementes do Mal”, faz o papel de Carmem, filha de um empresário.
- Meu papel é de uma menina metida, mimada e esnobe, avisa.
Convidada por Mith para atuar, gostou da experiência e promete caprichar no novo papel. Lívia diz que o que mais a motiva é a dedicação da equipe pelo trabalho.
- Minhas amigas em Ribeirão Preto não acreditam que Brodowsky faz cinema, diz.


Mais Projetos
Grupo vai criar Associação Cultural
Apesar do esquema modesto de trabalho, o grupo de cinema de Brodowsky pensa grande. Quer transformar a cidade num pólo cinematográfico e para isso espera contar com a ajuda do governo federal, principalmente do Ministério da Cultura.
A equipe prepara a criação de uma entidade para o desenvolvimento de projetos de captação de recursos, principalmente por meio de leis de incentivo. Já tem até nome: Associação Cultural Caetano Jacob.
- Aqui é um celeiro de craques. Você pode ver que não somos um grupo homogêneo, mas falamos a mesma linguagem. A linguagem do cinema, filosofa Mith Mantoani.

Roteiros
Enquanto o dinheiro não vem, os projetos se avolumam. Mith afirma que ele e Caetano já têm vários roteiros prontos. O próximo longa, por exemplo, que vai ser um western baseado em fatos reais, deve contar com locações no Estúdio Kaiser, em Ribeirão Preto.
Se não bastasse, outro integrante do grupo, o advogado Roberto Videira, presidente do Conselho Municipal de Turismo, prepara um roteiro sobre um famoso crime de Cravinhos, ocorrido na década de 30.
- Mas esse vai demorar, porque vai precisar de muito dinheiro e tempo, explica.
O céu é o limite.

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