Jornal A CIDADE

Especial

Sabado, 1 de Março 2008 - 15h35

Xukurus e terenas entram na UFSCar

Sidnei Quartier
WEBER SIAN Xukurus e terenas entram na UFSCar TAUÃ, TERENA DE AQUIDAUaNA Vai fazer engenharia de produção

Uma data para não ser esquecida. Na tarde de segunda-feira passada (25), um grupo de quinze índios ocupou bancos sombreados no campus da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Nos primeiros momentos, permaneceram agrupados, como numa tática de combate. Fizeram matrícula e ganharam a carteirinha de universitário. Em seguida, dispersaram-se.
Uns foram conhecer a cidade, outros perscrutaram o belo campus onde passarão os próximos anos de sua vida. São os primeiros índios calouros de uma universidade paulista.

Aprovados
Dos dezesseis aprovados, cinco mulheres e onze homens, apenas um não apareceu. Erenilso Severino de Souza, que ingressou em Ciências Sociais, continua recluso no Acre, sem ter como viajar. Não tem dinheiro e a Fundação Nacional do Índio (Funai) não providenciou seu transporte. A matrícula de Erenilso foi feita através de procuração.
A Funai foi criticada pelos calouros. Se dependessem da entidade, nenhum deles teria feito o vestibular.
Dos 127 inscritos, 90 não prestaram porque a Funai não providenciou transporte, além de outros motivos, como desistência, por exemplo. A universidade lamentou a presença de apenas 37 candidatos.
Três índios da etnia Xukuru do Ororubá, do interior de Pernambuco, só viajaram porque ganharam passagens de um político local. E só de ida. Na volta, as passagens foram pagas pela Fundação Nacional da Saúde (Funasa).
“Todos que dependiam da Funai não prestaram o vestibular”, denunciou Marcos Antônio Vieira Atanázio, aprovado em medicina.
Em medicina, por exemplo, dos 26 inscritos, apenas seis prestaram. Em Educação Física, dos 17 inscritos, ninguém apareceu. O único candidato em Física, que seria automaticamente aprovado, também não pôde viajar.
Os 16 indígenas dormirão no campus, onde terão direito a almoço e jantar. A universidade está providenciando a bolsa atividade, que dará a cada um auxílio de R$ 126,50.
“Dinheiro para tomar um ônibus, um refrigerante, um café”, disse a pedagoga Regina Melchiades, para quem, sem essa ajuda, os índios passarão apertados.

Vagas para alunos da rede pública e negros
A UFSCar pôs a disposição dos índios uma vaga para cada um dos 37 cursos de graduação da instituição. A iniciativa da universidade é inédita em São Paulo. É o programa de implantação de políticas afirmativas que permitiu também, a partir deste ano, a destinação de 20% das vagas, em todas as disciplinas, para alunos oriundos da rede pública e negros.
Do total de 20% de vagas de cada curso, 35% estão reservados aos negros e, o restante, aos alunos da escola pública. Entram os que obtêm melhores notas.
“A implantação de políticas afirmativas é uma maneira de corrigir as desigualdades praticadas ao longo dos anos”, explicou Regina Melchiades, pedagoga do Programa de Ações Afirmativas.

Pajé dos xukurus ganhará ajudante médico em breve
O pajé Zéquinha, 80 anos, é uma lenda viva. A pessoa mais respeitada na aldeia Lagoa, da etnia dos Xukurus do Ororubá, índios que habitam o interior de Pernambuco. Se tudo correr bem, em sete anos, o pajé vai ganhar um ajudante especial. É que Marcos Antônio Vieira Atanázio, 27 anos, foi o primeiro xukuru a entrar numa faculdade de medicina. Sua aldeia fica nos arredores de Pesqueira.
Com ele, entraram mais dois xukurus. José Luiz Silva de Santana Filho, 24, da aldeia Curral Velho (fisioterapia) e Ednaldo dos Santos Rodrigues, 29, da aldeia Afetos (psicologia). Os três vizinhos pensam em voltar para casa depois de formados.
O mais novo calouro em medicina na UFSCar fez o ensino fundamental na aldeia mesmo. O ensino médio foi num colégio em Pesqueira. Em Arco Verde, cidade próxima, passou dois anos num proveitoso curso de enfermagem.
Nos últimos dois anos, sem êxito, tentou medicina em Bela Jardim (PB), um centro universitário privado. Até que soube do programa de políticas afirmativas da UFSCar. Prestou exame com seis candidatos e levou a única vaga.
Bem recebido pelos colegas, já ganhou um apelido: Tanga. E gostou. Marcos, por enquanto, não quer discutir especialização.
“Vou sentir o curso, os primeiros anos de aula, para me decidir”.

Entre os terenas de Aquidauana (MS) há até um veterano
Os índios da etnia Terena são maioria em São Carlos. Eles vieram de Aquidauana (MS) e Bauru, interior de São Paulo.
Tauá Ferreira, 17 anos, parece um guerreiro pronto para a batalha. Acabou de participar de uma “calourada”. Os veteranos pintaram-lhe o rosto e cortaram o seu cabelo. Lembra o “último dos moicanos”. Tauã vai fazer engenharia de produção. A família mesmo custeou sua viagem. Tauã é da aldeia de Ipequê, e admirador de João Terena, formado em Comunicação Social, e famoso por suas andanças pelo país.
Agenor Custódio, 34, solteiro, entrou em Imagem e Som. Terena da aldeia de Água Branca, em Aquidauana, é veterano. Fez dois anos de Turismo em Dourado (MS), não gostou do curso e resolveu mudar. Lembra que o último “bravo” de sua família foi a avó-paterna, Luísa Manuel. “Ela nasceu e cresceu numa aldeia nativa”.
Outro engenheiro
Isac Delfino da Silva, 27, terena da aldeia Laguna, entrou em Engenharia Agronômica. Dos quatro irmãos, é o único que chegou à universidade. Seu sonho é retornar à aldeia, em Aquidauana, e plantar muito feijão. “Nosso povo gosta de feijão como ninguém”, justificou.

Entre as mulheres, só deu Terenas
Das quatro índias aprovadas na UFSCar, duas são mães. Jiene Piu, 25, é terena da aldeia Kopenot, a 40 quilômetros de Bauru. Júnior Piu, 6 anos, e Pamela Piu, 11, é o casal que teve com um índio da mesma aldeia.
Enquanto estiver em São Carlos, os meninos serão cuidados pela mãe. Perguntada quem era sua referência na aldeia, Jiene respondeu sem titubear: os mais velhos.
Vera Lúcia Honório, 24, vai fazer Pedagogia. Também é da aldeia Kopenot, e tem dois filhos - Jandersen, 11, e Roseana, 6 - com pais diferentes. Perguntei se é isso é normal na aldeia. Ela respondeu que, com índios da mesma etnia, sim.
Ana Caroline da Costa, 17, e Sara Camila da Costa, 20, são irmãs.
A primeira vai fazer Terapia Ocupacional e, a segunda, Estatística. Elas são da aldeia Ekeruã, em Bauru, solteiras e sem filhos.

  • Imprimir
  • Enviar

É proibida a reprodução do conteúdo dessa página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso sem autorização escrita da Empresa Jornalistica Orestes Lopes de Camargo S\A
ARZ