Especial
Sabado, 1 de Março 2008 - 15h39
ANA CAROLINA, 13 ANOS, E ALEXANDRE ROSA, 15 ANOS Titulares da banda sinfônica respeitada no Estado ensaiam na Estação da Cultura
1º Movimento
A banda sinfônica Cauim, a única de Ribeirão Preto, está pronta para mais um concerto. São 35 músicos. Quase a metade deles chega numa Van, espremidos, vindos da pequena Santa Rosa de Viterbo.
2º Movimento
Agora em março, 14 bandas participam do Coreto Paulista, importante festival em Serra Negra (SP). A apresentação das quatro melhores bandas será no feriado de Corpus Christi: a de sopro de Tatuí, a Mantiqueira (São Paulo); a sinfônica do Estado de São Paulo e ... a banda de Santa Rosa de Viterbo.
3º Movimento
O maestro Lutero Rodrigues, que regeu sete anos a Sinfônica Cultura-Rádio e Televisão, diz que as bandas de São Paulo e de Tatuí são formadas por músicos profissionais e semiprofissionais. Por isso, contratam o que existe de melhor no mercado. A banda de Santa Rosa é formada, unicamente, por músicos amadores. E com um detalhe: toca tão bem quanto às melhores do país.
Tradição
A tradição musical em Santa Rosa vem do início do século passado - 1900 - época em que Henrique Dumont, pai de Santos Dumont, comprou a fazenda Amália. Homem erudito, formou a espetacular banda Dumont.
A tradição foi bem trabalhada, com a criação e o fortalecimento de escolas, formação de bons músicos e professores.
Hoje, não é preciso escolher dia ou hora para ouvir o som de um instrumento em Santa Rosa de Viterbo. É só dar um pulo na antiga estação de trem, no centro da cidade, a 735 metros de altitude, para ouvir alguém ensaiando.
Pode ser Alexandre, 15, e sua flauta transversal. Ou Kennedy Sebastian, 13, e seu trompete. Ou Jonas José, 15, e seu melafone. Ou a professora Josiane, 32, com seu afinador eletrônico ajustando o som dos saxofones.
Às sextas-feiras à noite e sábados de manhã, o espetáculo é completo. A banda ensaia com seus 62 músicos, durante cinco horas, sob a regência do maestro Maurílio de Oliveira Júnior.
Quatro bandas
Santa Rosa de Viterbo tem quatro bandas. A principal, com 62 músicos; a juvenil, com 40; a de acesso, em torno de 40 músicos; e a baby, também perto de 40 integrantes.
É comum, um adolescente de 15 anos tocar na principal e alguém mais velho estar na baby. O grau que mede a escalação de um músico na banda é o do aprendizado. Se for bom, toca na principal, independente da idade.
Além dos 180 músicos que movem as quatro bandas, outros 150 estudam na escola mantida pela prefeitura, Fundação Cultural, patrocinadores e, principalmente, a população, sempre atenta aos concertos.
O instrumento geralmente é da escola e o aluno tem por ele um carinho imenso. É limpo com esmero após cada ensaio. Os professores permitem que instrumentos e partituras sejam levados para casa.
Hoje, a estrutura da banda sinfônica permite que cerca de 200 alunos levem instrumentos para ensaiar em suas residências. São 38 clarinetes, oito flautas, oito trompas, vinte saxofones, quinze trompetes e por aí afora. O local onde a sinfônica ensaia é acústico e dotado de ar-condicionado. De 2003 até hoje, mais de 1.200 cadastros de músicos estão registrados nos arquivos da banda sinfônica.
Tendo a banda sinfônica como base, Santa Rosa passou a abrigar vários conjuntos musicais. E todos muitos requisitados.
A Big Band, com catorze integrantes, é um deles. Tem o Quinteto de Clarinetes, formado por quatro moças e um rapaz. Há o Quinteto de Metais, o grande Conjunto de Samba e o Quarteto de Trompetes. A cidade abriga o coral municipal, uma bela banda de percussão (a Renato Massaro) e a fanfarra municipal.
A qualquer hora, em qualquer dia, há sempre alguém tocando
Quinta-feira, 14h30. Numa das inúmeras salas onde funcionou a antiga estação de trem, Alexandre Rosa, 15 anos, ensaia. Ele é um dos 62 músicos titulares da Banda Sinfônica de Santa Rosa de Viterbo, incluída entre as melhores do Estado. Seu instrumento é a flauta transversal, com quem convive há dois anos. Alexandre é um dos exemplos citados por Lutero Rodrigues, que regeu a orquestra sinfônica de Ribeirão Preto entre 79 a 80.
“Em muitas cidades, por falta de renovação, as bandas vão sendo extintas. Santa Rosa é uma feliz exceção. Ela revela muitos músicos e de excelente qualidade”.
Ana Carolina Isidoro, 12 anos, 7ª série, também ensaia. Esperta, de olhos doces como seu instrumento (flauta transversal) chegou na banda quando tinha dez anos. Começou com sete. Ela quase não fala. Apenas toca e sorri.
Em outra sala, Aline Maceu é um exemplo. Mesmo com 24 anos, está aprendendo flauta transversal. É dedicada e, logo, logo, vai tocar bem. Josiane Cristina Cicolani Marques, 32, é a professora de flauta transversal e de saxofone. Estuda sax com o maestro Manu Faleiros, da Unicamp.
Na sala anexa, o professor de trompete Rogério de Souza observa dois alunos. Kennedy Sebastian Fogaça, 13 aos. Ele toca trompete, um instrumento difícil, que exige muito. Está na banda juvenil há dois anos mas vai subir.
Com um sorriso aberto, Jonas José Silva de Oliveira, 15 anos, escancara sua dentição perfeita. Dentição boa ajuda em instrumento de sopro. Jonas toca melofone - próximo do som da trompa. É da banda juvenil mas tem talento. É assim que Santa Rosa forja seus músicos. Num lindo emaranhado de sons.
O homem que organiza e cuida disso tudo, o maestro Maurílio de Oliveira Júnior, é uma pessoa simples, despojada de vaidade. Quem diz é outro maestro, professor da USP, Lutero Rodrigues.
“O trabalho do Maurílio é notável. É um profissional competente e, o que é raro neste meio, muito mais preocupado com a orquestra, com os músicos, com o aprendizado, do que consigo mesmo”, afirmou.
O Brasil quer mais é guitarra e piano
No último vestibular no conservatório Musical de Tatuí, o curso mais concorrido foi o de guitarra (MPB), com a inscrição de 73 candidatos por vaga. Mas, como sempre, o que mais recebeu inscritos foi o piano, com 211 candidatos. O menos procurado foi o curso de trombone na música comercial. Agora no dia 10 de março, com o reinício das aulas e a chegada dos 1.026 novos aprovados, o Conservatório Dramático e Musical de Tatuí terá 3.200 alunos. A cidade distante 130 quilômetros de São Paulo voltará a respirar música - erudita, MPB, comercial, antiga e luteria (fabricação de instrumentos).
No conservatório existem cerca de 50 grupos instrumentais. Entre eles, a Big Band Sam Jazz, a orquestra de sopros, a orquestra sinfônica jovem e a banda sinfônica.
O conservatório de Tatuí oferece vinte cursos na área erudita; quinze populares; onze na área comercial; e três na música antiga. Os cursos extracurriculares são dez, de regência instrumental e coral até oficinas de teatro de rua e teatro para educadores. A média de duração por curso é de seis anos.
Fundado há 54 anos, o conservatório atrai músicos de toda a América do Sul, especialmente argentinos, uruguaios e paraguaios.
Historiadores anotaram que nas décadas de 30 e 40, Tatuí já podia ser considerada grande fonte de cultura. Os funcionários das três tecelagens da cidade tocavam (muito) por lazer. Formavam grupos e se apresentavam principalmente nos cinemas, ainda mudos. Isso influenciou a criação do conservatório.