Júlio Chiavenato
Sabado, 1 de Março 2008 - 16h48 Há quase meio século, quando eu era repórter, assisti a uma espécie de acareação entre uma moça acusada de prostituição e seus vizinhos. Os vizinhos queixavam-se de que ela “recebia homens” à noite, em sua casa. Lá por 1960 isso era intolerável para as boas famílias de Ribeirão Preto.
Na sala do delegado estavam a moça, seu advogado e os denunciantes. O delegado ouviu os pais de família e pediu explicações à senhorita. O advogado respondeu por ela. Era o seguinte: a jovenzinha, órfã virtuosa, sofrera muito e já fora assaltada várias vezes. À noite entrava em pânico, temendo ser assaltada novamente. Então, enquanto ela dormia no seu quarto, alguns senhores respeitáveis revezavam-se pela madrugada, na sala, para que ela não se sentisse desamparada. Para provar o advogado levou dois desses senhores respeitáveis; um deles já conhecido da reportagem e da Polícia, o Mineirinho, proxeneta bom de rabo de arraia. O delegado dispensou a todos, aconselhando os denunciantes a não se preocuparem, pois estava esclarecido: a moça não era prostituta, apenas uma órfã desamparada que tinha medo dos ladrões. Ela saiu com um sorriso triunfante e os seus vizinhos bufando de raiva surda. Na Polícia as coisas mudaram, isso não acontece mais. Agora é na política. Político sempre tem um advogado a tiracolo, capaz de fazer jogadas de causar inveja a Maradona e Pelé. Mas como sabemos, tão certo como político com advogado a tiracolo é inocente das calúnias que lhe atiram (Buratti acaba de provar), tais jogadas acontecem dentro da lei e a Justiça brasileira não se deixa influenciar por nada que não seja estritamente moral.O mundo muda, mas sempre se encontra um proxeneta bom de rabo de arraia para garantir o sono dos inocentes. Boa noite.