Jornal A CIDADE

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Vicente Golfeto

Segunda-Feira, 3 de Março 2008 - 22h16

Gritos do silêncio


Muitas vezes, a verdade se dilui nas versões. Não raro, o correto é falar. Noutras vezes, não.
Em nossas observações de hoje vamos trazer opinião de muita gente sobre falar ou silenciar. Para Fernando Pessoa “há duas maneiras de dizer: falar e calar”. Calar seria, então, uma das maneiras de falar. No que, aliás, é seguido por André Malraux, autor de As Vozes do Silêncio. O silêncio também fala. Chega até a gritar.
Miguel de Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca, nos diz: “às vezes, calar é mentir”.
É o silêncio covarde, característica da omissão que, para o padre Antônio Vieira, “é um crime que se faz, não fazendo”. Mas o próprio padre Vieira diz: “nunca me arrependi do que eu deixei de falar”.
Na mesma linha de Confúcio, para quem “o silêncio é um amigo que nunca nos traz aflições”. Mas aflições na Terra já que, para as coisas de Deus, o pecado da omissão pode ser manifestação de egoismo. E o combate ao ego, que se expõe, é a grande batalha do cristão. Blaise Pascal, nas Provinciais, nos diz que “a conversão consiste em aniquilar-se”. Vale dizer: esmagar o ego.
O silêncio, no entanto, é um ambiente muito próximo de Deus. O barulho, ao contrário, nos afasta de Deus e é indicativo de pouca inteligência. Pelo menos para quem gosta de suportá-lo. Arthur Schoppenhauer escreve que “a inteligência de uma pessoa é inversamente proporcional à capacidade desta pessoa de suportar ruídos”.
Mas, vêm-me à cabeça os jesuítas. Que tanto prezem o silêncio, sempre ad majorem gloriam dei. Um jesuíta autêntico ouve o dobro do que fala. E pensa o triplo do que ouve. Em linguagem aritmética: pensa seis, ouve três e fala um. Quando fala. Falar é quebrar o silêncio. Isto porque fala-se mais o que se ouve do que o que efetivamente houve. Vindo para o mundo, importa lembrar que Aldous Huxley dizia que “o diabo tem muito o que aprender com os homens”. Afinal, calar ou falar?

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