Jornal A CIDADE

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Júlio Chiavenato

Segunda-Feira, 3 de Março 2008 - 22h16

Invenção do passado


O próximo prefeito de Ribeirão Preto será tão ruim, ou pior, do que Welson Gasparini, se ele próprio não voltar em versão piorada. Convém não acreditar que a chamada “sociedade civil”, essa coisa vaga que os bem postos na vida propõem para “moralizar” a vida pública, possa oferecer alternativas ou freio na politicanalha.
Um raio X da conjuntura política de Ribeirão revelaria no que se transformou o amplo espectro da vida pública. Talvez, pelo menos teoricamente, poderia separar-se o menos ruim do pior. Ribeirão Preto é cidade emblemática da “recriação” do passado: o que não foi, é; o que foi, não é mais.
Temos torturadores que não torturaram; revolucionários que não fizeram a revolução; excomungados que não sofreram estigma. Estão em cena, enquanto aqueles que foram e continuam sendo, são mantidos à margem. O poder não brinca em serviço. Precisa de atores que mudem conforme o cenário, mas repitam sempre o mesmo texto escapista.
Há um velho filme de Hollywood (Meu passado me condena) em que uma mulher não consegue refazer sua vida porque teve um “pecado” quando jovem. Em Ribeirão Preto, o filme se chamaria Meu passado me absolve. Aqui se reinventa o passado, que se usa como muleta para a sobrevivência no presente.
Assim nasceu uma aliança tácita, que se finge não saber, que permite a permanência no poder de mediocridades que cumprem o rito da dominação e se sustentam da representação patética de uns, da crença ilusória de outros e da desinformação geral. Enquanto isso os que lutaram e, claro, foram vencidos, continuam com as feridas na alma e no corpo. Abandonados e bem longe das fantásticas “indenizações” e “aposentadorias” que os heróis de fancaria e os defensores de qualquer sistema recebem do governo.

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