Jornal A CIDADE

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Vicente Golfeto

Quarta-Feira, 5 de Março 2008 - 22h50

Sobre livros e leitores


Thomas Mann dizia que “não devemos ler os livros bons porque existem os ótimos”. Tem lógica. Afinal, acompanhar o ritmo do mercado editoral é um anseio impossível, uma frustração permanente que, como a morte, deve ser encarada como uma fatalidade ecumênica.
Toda pessoa que gosta de ler – livros, jornais – quando se trata de livros principalmente, fica ansiosa porque a capacidade de comprar livros, ou de encontrá-los nas bibliotecas, é sempre maior do que o tempo disponível para lê-los. Quando se tem o hábito de formar uma biblioteca particular – dizem que é um hábito já superado, que não existe mais nos dias atuais a não ser como exceção – a ansiedade aumenta.
Compra-se mais livro do que se lê. E aí vão-se formando pilhas de livros, que entram numa espécie de lista, de fila de espera.
Quando falo de livro lembro-me sempre do poeta italiano Petrarca, ao dizer que “livros têm levado algumas pessoas ao saber. Outras, à insânia”.
Esta síntese é-nos aclarada por Manzanaro, o primeiro capo mafioso de Nova Iorque. Isto nos anos loucos, nos anos vintes do século passado, o curto século 20. Ele dizia que “há homens que devem ler e homens que não podem ler”. O que – convenhamos – é uma verdade inegável.
Os que não podem ler têm, muitas vezes, uma vontade enorme de ler livros. E efetivamente os lêem. Mas, como não têm condições intelectuais de metabolizar o conhecimento adquirido, confundem tudo. Ficam muitas vezes revoltados. Quando são professores não transmitem conhecimento. Vomitam-no. Se são jornalistas, idem.
Algumas pessoas devem utilizar mais músculos do que neurônios. Outras, sim, devem se valer mais dos neurônios.
As primeiras não podem ler. Devem ser desaconselhadas a tal. Tornam-se infelizes. As outras devem ser estimuladas.
Mas não se fala porque “a verdade deve se subordinar ao amor”, como nos ensina Paulo numa de suas epístolas.

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