Jornal A CIDADE

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Marcelo Canellas

Sabado, 8 de Março 2008 - 17h50

A linha da morte


Não são poucas as diferenças entre os escritores profissionais e os jornalistas que, como eu, às vezes escrevem textos não jornalísticos. Literatura e jornalismo são formas distintas de conhecimento, e não, como querem alguns, apenas duas maneiras de descrever a vida: uma buscando conquistar o leitor pela emoção, e a outra pelo relato sucinto e direto dos fatos. Quanto engano! Há sempre uma pitada de emoção no bom jornalismo. E muito da boa literatura que se faz por aí pode ser seca e rascante, sem floreios nem empolações. Talvez por usarem ferramentas afins, escritores e jornalistas vivem discutindo sobre os pontos de contato de suas profissões. Esse imbróglio nunca elucidado se aguçou a partir dos anos de 1960, quando Gay Talese, Norman Mailer, Tom Wolfe, Truman Capote e outros jornalistas norte-americanos passaram a usar técnicas romanescas para escrever grandes reportagens. Era o Novo Jornalismo, que até pode ter nascido nos Estados Unidos como movimento, mas não era novo coisíssima nenhuma. Podíamos encontrar aqui mesmo, no Brasil, algumas das mais brilhantes aproximações entre o jornalismo e a literatura. Bastaria ler os textos dos correspondentes de guerra Joel Silveira e Rubem Braga, que acompanharam a campanha da Força Expedicionária Brasileira na Itália. É puro jornalismo literário, escrito muito antes da turma de Capote & Cia. Sem falar naquela que é uma das mais fantásticas obras da literatura em língua portuguesa, que nada mais é do que uma fenomenal reportagem sobre a guerra de Canudos: Os Sertões, de Euclides da Cunha, cuja primeira edição é de 1902! Essa é uma discussão interminável, mas vou meter minha colher no caldeirão de angústias comuns a jornalistas e escritores. Nenhum ponto de contato é mais dramático do que o dead line, que, numa tradução literal, significa, muito apropriadamente, linha da morte, mas que, no fundo, é apenas e tão somente o famigerado prazo de entrega. O que o Luis Fernando Veríssimo e o Diogo Mainardi têm em comum? Nada. Exceto o prazo de entrega. Autoritário, implacável, improrrogável, o prazo de entrega nivela os bons e os ruins; iguala até mesmo os gênios e os medíocres. E como o meu já está na linha da morte, vou ficando por aqui. Até domingo que vem.


*Marcelo Canellas é jornalista e repórter especial da Rede Globo

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