Vicente Golfeto
Sabado, 8 de Março 2008 - 18h10 No regime de sufrágio universal, as políticas sociais são condição da própria sobrevivência da economia de mercado. Alguém poderá perguntar a razão desta afirmação.
Tento responder: antes de atingir o mercado externo, o produtor nacional precisa ganhar escala na produção.
Para produzir bem é preciso produzir muito. E mais: quanto mais produz, mais barato fica. A busca é por mais produtividade.
Mercado não é território da caridade. É território da inteligência, da intuição, da ousadia.
Quando a indústria – e o comércio e os serviços também – prega melhor distribuição de renda, ela não o faz movida por sentimentos cristãos.
Ela não vê o próximo como irmão, na linguagem do padre durante a missa. Ela o vê como consumidor de seus produtos. É esta a ótica.
Distribuindo-se equitativamente a renda entre as faixas mais modestas da população, na verdade abre-se a possibilidade de, incorporando-se ao mercado consumidor pessoas que só existiam nos livros de demografia, fortalece-se a possibilidade de se produzir mais. E galgar níveis mais excelentes na escala de produtividade. Dentro deste contexto, num país tão desigualmente desenvolvido quanto o Brasil, com concentração de rendimentos das mais injustas do mundo, a distribuição de renda a partir do salário mínimo em termos reais tem grande efeito na economia.
O bolsa família, por exemplo, não abre, numa primeira etapa, para criar cidadãos. Ele cria, sim, consumidores.
Como o consumidor é o primeiro vértice do triângulo da cidadania – os outros dois vértices representam o eleitor e o contribuinte – segue-se que, de fato, estimula-se a geração de cidadãos exatamente num país que insiste em dizer-se uma república mas que não exibe senão súditos.
Súdito vem do latim – sub dictus – isto é, debaixo do que foi dito. Exatamente a negação do que é cidadania.