Especial
Sabado, 8 de Março 2008 - 18h53
BÁRBARA DOLA, 10 ANOS Ao seu lado, dois primos e o irmão Júnior. No fundo, seu tio Wesley Dola
Respeitável público! O Circo Radikal, orgulhosamente, apresenta os irmãos Dola!!!
1º Ato
Os irmãos Dola são mineiros de Belo Horizonte. O mais famoso deles, Ronaldo, é artista internacional, malabarista do circo português Chem. Está muito bem, ganha em euro.
Outros sete Dola tocam o Circo Radikal, armado na periferia de Ribeirão Preto. Conheça a função de cada um na organização.
Emanuel, 45, o mais velho, é bilheteiro e secretário do circo; Wesley, 34, é o apresentador; Claudinei, 29, manipula o chicote; Claudinho, 24, é o palhaço Trim-Trim; Charles, 43, é o palhaço Furreca; Agnaldo, 40, é o sonoplasta; e Claudinéia, 28, é do corpo de bailarinas.
Faltam dois irmãos: Edmar, 36, e Geisilaine, 20, abdicaram do picadeiro para se dedicarem à Cidade do Circo, na avenida Caramuru, Vila Virgínia. Mas, nos bastidores, são importantes. Todos os irmãos dão aulas na Cidade do Circo.
2º Ato
O circo Radikal, há uma semana, ergue-se modesto num terreno ao lado da avenida Celso Charuri, na entrada do bairro São José, zona leste da cidade.
Tem apenas dois mastros, é aconchegante. As cadeiras estão dispostas em torno do picadeiro. Existem duas pequenas arquibancadas. O preço é único: R$ 3 de terça à quinta e R$ 5 nos finais de semana.
Mas engana-se quem confunde a modéstia externa do circo com a qualidade do espetáculo. Os Dola cativam o público. Tanto é que sobrevivem em Ribeirão Preto desde 2004.
Geralmente, depois das duas primeiras apresentações, a propaganda boca-a-boca leva mais gente às cadeiras e arquibancadas do Radikal.
O mais longe que o Radikal ousou nestes quatro anos foi dar espetáculos em Serrana, Bonfim Paulista e Cravinhos. No mais, só em bairros de Ribeirão.
O Radikal tem dois bons motivos para não fazer viagens longas: a escola das crianças e a Oficina de Circo, onde ensinam mais de 70 alunos.
Dos nove irmãos, Geisilaine é a única solteira. Os demais mantêm 24 filhos no circo.
Ao todo, são 48 pessoas ligadas ao Radikal. Os mais habilidosos primos e sobrinhos dos Dola também convivem sob a mesma lona. Eles dividem seis trailer e três ônibus. Apenas Geisilaine e Edmar moram na Oficina. A mascote do circo é a graciosa poodle preta que atende por Mileide.
3º Ato
A trupe dos Dola chegou em Ribeirão em 1993. O então prefeito Antônio Palocci criou o Ribeirão Criança, na Vila Tecnológica, zona norte, e contratou os Dola para dar aulas.
Em 96, ao término da gestão, a trupe regressou à Belo Horizonte. Em 2003, com Palocci reeleito, os Dola retornaram. Em 2004, o vice Gilberto Maggioni assumiu (Palocci foi para o ministério da Fazenda) e extinguiu o Ribeirão Criança.
Os irmãos, briosos, não quiseram voltar. Alugaram um terreno na Vila Virgínia, armaram uma tenda e criaram uma escola. Depois, ativaram o Radikal. Até hoje estão aí, ensinando a arte circense, alegrando crianças, adultos e dando lições civilidade.
O circo e a empresa
Um circo é uma empresa. É preciso saber administrá-la. Uma empresa familiar, com sete sócios, exige cuidados especiais. Tanto na divisão das tarefas como na soma dos ganhos. Os irmãos Dola cuidam bem dessa parte.
Todos eles doam-se diariamente em treinamentos e funções. O dinheiro da bilheteria é dividido em partes iguais. E cada um deles é responsável pelo comércio que floresce dentro do circo. Querem ver como funciona? Confiram.
A família de Claudinha, a bailarinha, ganha com a venda de pastel; Agnaldo é o dono da venda de batata frita, maçã do amor e algodão-doce; a família de Wesley vende crepe suiço, balas e chocolate.
Claudinho lucra com churros; Edmar comercializa refrigerantes; Emanuel, pipoca; e Claudinei, balões (bexigas).
Os irmãos nunca discutiram entre si por causa de ganhos ou perdas financeiras. Um socorre o outro. E assim seguem a vida, espartana e honesta.
Sobrevivem e mantêm vinte e quatro filhos com a dignidade dos bem-aventurados.
O picadeiro, recebe a 3ª geração
São 19h de terça-feira. Agnaldo liga o motor do velho automóvel, aciona o som e percorre as ruas do bairro São José, lembrando que logo mais às 20h30 tem “o casamento do palhaço” no circo Radikal, um espetáculo imperdível, ao preço único de três reais. Uma hora e meia depois, 152 pagantes e 25 menores de três anos lotam as dependências do Radikal. O público é considerado ótimo.
O que se vê é a terceira geração dos Dola no picadeiro. Bárbara, 10 anos, a princezinha do ar, e seu irmão voador, Júnior, 5 anos, são filhos do sonoplasta Agnaldo. A trapezista é Vitória, mulher do apresentador Wesley. Camile, quatro anos, junta-se à mãe Vitória no trapézio. É uma festa só. A platéia acompanha, bate palmas.
Trim-Trim é juventude. Furreca, experiência
O palhaço Trim-Trim leva a molecada à loucura. Mas encanta também os adultos. Interage com a platéia, faz o diabo e quando termina o número e deixa o picadeiro, ouve-se um “Oh!” de quero mais.
No mastro chinês, no malabarismo, nas acrobacias, no trapézio, lá estão os irmãos Dola, seus filhos e sobrinhos. Nos espetáculos, o palhaço Furreca (Charles) dá show, mostrando experiência e talento. Charles lembra que tem um filho na Espanha, Charles Diego, malabarista. “Ele é muito bom”, diz.
Foi Charles quem começou tudo. Aos dez anos, se viu num circo na companhia dos pais (Maria Antônia e José Antônio) e gostou. Primeiro, vendeu pipoca. Depois, pintou o rosto e vestiu roupas maiores para atrair as crianças. Como se mostrou engraçado e comunicativo, tornou-se palhaço de ofício. Foi nele que os irmãos se inspiraram. Um deles, Ronaldo, oito anos mais novo, cresceu tanto nos malabares (arte do malabarismo) que foi parar na Europa. E foi Charles quem formou o circo Radikal.