Sérgio Mascarenhas
Sabado, 8 de Março 2008 - 19h14 Florestas Plantadas representam o futuro do Brasil e do Mundo. Mudanças climáticas globais, energias alternativas, meio ambiente sustentável, diversidade em biomateriais, aproveitamento de recursos hídricos, criação de empregos no campo, fármacos e química fina, reaproveitamento de áreas degradadas, proteção ao desmatamento de florestas naturais, são todos problemas que podem encontrar soluções mesmo que parciais, através de uma política de apoio ao reflorestamento através de florestas plantadas.
O Brasil deve à visão e ao espírito inovador de dois notáveis pioneiros, Edmundo Navarro de Andrade e Max Feffer uma das maiores contribuições à esta política de florestas plantadas, pela introdução de uma planta notável: o eucalipto em nosso País. Um, Navarro de Andrade, foi buscar a planta e muitas de suas espécies na longínqua Austrália. Pensem o que era na época de viajar pelo mundo em busca de plantas exóticas no Brasil, sem aviões transcontinentais, semanas e meses de viagem, e ainda por cima indagando, pesquisando, adquirindo informações estratégicas, fazendo contatos preciosos para intercâmbio internacional científico e garantindo vínculos dessas parcerias. Navarro de Andrade realizou tudo isso e a meu ver foi um dos mais brilhantes cientistas aplicados, como agrônomo, que o Brasil já teve.
Navarro foi em busca de uma árvore de boa madeira, crescimento rápido, adaptável aos nossos climas e solos, resistente a doenças e de múltiplas aplicações industriais. Pareceria incrível que se pudesse achar uma tal planta-mágica! Mas Navarro encontrou-a no Eucalipto australiano. Sua busca era para usá-la para dormentes e postes na implantação das linhas ferroviárias, verdadeiras criadoras da riqueza de São Paulo, de sua expansão virtuosa para o interior e afinal para tornar o Brasil possível econômicamente para a éra moderna da expansão industrial e agrícola. Passadas décadas da saga inventiva e heróica de Navarro, outro brasileiro, Max Feffer, filho de imigrante judeu Leon Feffer, haveria de dar um dos maiores impulsos ao uso do eucalipto, desta vez usando alta-tecnologia química, para fazer papel e celulose do eucalipto de fibra-curta.
Esta contribuição de Max, em colaboração com a Universidade da Flórida, revolucionou o mercado do setor de celulose e papel, hoje um dos mais importantes nichos de mercado nacional e internacional. As indústrias do setor, sempre usaram árvores de crescimento lento como o pinus europeu ou da América do Norte (EE.UU. e Canadá) aproveitáveis apenas após décadas de crescimento.
O Eucalipto pode ser aproveitado em cerca de 6 anos apenas e produz vantajosamente biomassa da mais alta qualidade. Infelizmente o eucalipto, por ignorância ou má-fé sofreu, campanha de descrédito atribuindo-lhe defeitos como planta inadequada para solos, aves e até insetos como abelhas produtoras de mel.
Hoje sabe-se que é exatamente o contrário e florestas plantadas de eucalipto são um precioso bem florestal e que até o mel que é produzido a partir dele é da maior qualidade e sabor. Sob o aspecto econômico os números dizem tudo: setor de papel celulose no Brasil é responsável por bilhões de dólares da nossa economia e tem alta estabilidade resistindo a vários períodos de crises financeiras nacionais e internacionais.
Agora, abre-se uma nova fronteira ainda mais promissora: energia da biomassa de florestas plantadas. Passado o investimento inicial de implantação da floresta, passa a produzir sem descontinuidade das entresafras da cana por ex. e com promissoras tecnologias de fermentação pode produzir etanol e outros biocombustíveis.
A química do eucalipto poderá ser tão importante como a petroquímica e com pesquisas em biotecnologia e engenharia genética apresenta horizontes promissores como obtenção de variedades de fibra mais longa ou métodos de produção de clones de altíssima qualidade tanto sob o ponto de vista fotosintético como da eficiência de suas raízes para maior aproveitamento hídrico e nutricional. Métodos modernos de gestão por imagens, de avaliação e seleção de clones em viveiros imensos (alguns podem ter dezenas de milhões de mudas!) estarão transformando rapidamente as florestas de eucaliptos, em indústrias de tão alta tecnologia como a de semicondutores ou biopolímeros.
Para isso uma política de florestas plantadas de alta tecnologia e inovações precisa ser rapidamente estruturada como política de estado e empresarial pois é uma das maiores oportunidades do nosso agronegócio tropical, responsável por 30% do nosso PIB (cerca de 200 bilhões de dólares por ano) e centenas de milhares de empregos. Precisamos injetar ciência e inovação no setor pois solo, sol e água, sabendo usar, temos de sobra. Na ilustração minha e do Alfonso o Deus Janus bifronte, mira o passado na figura de Navarro de Andrade e o futuro que foi criado, na figura de Max Feffer. Ambos, inesquecíveis personagens da história do nosso desenvolvimento.
*Sérgio Marcarenhas é Físico-IEA-São Carlos