Classe A
Sabado, 8 de Março 2008 - 19h29
"Me lembro que estava na casa do meu avô, e alguém perguntou o que eu iria ser, e me lembro que no colo da minha mãe eu disse que seria médico"
Ele ainda estava no colo da mãe quando disse, pela primeira vez, que ia ser médico. Não havia dúvida e nunca houve. Formado e doutorado pela Universidade São Paulo, professor titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Antonio Carlos Pereira Martins participou, há exatos quarenta anos, de um marco histórico, quando fez, com o professor Áureo Ciconelli, o primeiro transplante de rim de doador cadáver da América Latina. Hoje é um dos luminares da cirurgia urológica e diz que quem viver muito, terá “câncer de próstata”. Ele conta como foi surpreendente, também, a primeira demonstração dos efeitos de um famoso medicamento para ereção, durante um congresso na Europa:
para ser convincente, o tcheco que fazia a explanação não teve dúvidas em baixar as calças.
ENTREVISTA A ANGELO DAVANÇO E RUBENS ZAIDAN (jornalista convidado)
Angelo Davanço - O senhor é de Ribeirão?
Antonio Carlos Pereira Martins - Não, eu nasci numa cidadezinha chamada Fernando Prestes, que fica cerca de 100 quilômetros daqui, nessa região de Monte Alto, Jaboticabal, Taquaritinga. Era, me parece, um distrito de Taquaritinga. Nasci em 1942 e meu pai tinha sido prefeito de Fernando Prestes na época do Getúlio Vargas. Foi um prefeito nomeado, portanto. Meu avô era fazendeiro e depois nós mudamos para a fazenda e então até os cinco anos de idade morei em Fernando Prestes, dos cinco aos nove eu morei nesta fazenda. Eu entrei no grupo escolar Gabriel Hernandes da cidade de Ariranha. Então tinha que levantar às cinco horas da manhã e naquela época não existia energia elétrica, o leite era tirado direto da vaca, então ninguém levantava às cinco para tirar o leite da vaca. Então eu me lembro que minha mãe fazia o arroz preparado de um dia para o outro. Ela esquentava esse arroz com ovo, eu comia e batia a pé até a estradinha para pegar a jardineira e chegava antes das oito e depois retornava após o meio-dia. Isso foi até os nove. Depois eu fui para Monte Alto, fiz a quarta série do grupo lá. Depois eu fiz o ginásio também em Monte Alto. Aí não existia o colegial. O ensino público era tão bom naquela época, os professores eu acho que ganhavam um pouco melhor e eram prestigiados na própria sociedade, era muito bom o nível de ensino, você não precisava estudar o dia inteiro, era das oito ao meio-dia, e ficava bom, aprendia. Aí então eu precisava fazer o colegial. Eu já me imaginava fazendo medicina. Eu me lembro que estava no colo da minha mãe, lá no meio da roça e alguém me perguntou, eu não me lembro quem. Me lembro que estava na casa do meu avô, e alguém perguntou o que eu iria ser, e me lembro que no colo da minha mãe eu disse que seria médico.
Rubens Zaidan - Em 2002 o senhor foi escolhido o urologista do ano. Quem diria que no ano em que o senhor ainda estava fazendo residência, em 1968, o senhor participou da equipe do professor Áureo Ciconelli e fez o primeiro transplante de rim com doador cadáver da América Latina. O senhor ainda estava saindo da residência e já estava numa equipe de pesquisa de frente. Como foi isso?
Martins - Faz quarenta anos. Mas quando eu passei como residente no estágio de urologia, porque a gente faz um rodízio nas várias especialidades, o professor Ciconelli estava começando as experiências em cachorros. Isso foi em 1965. Então, [eram feitos] transplantes em cães, e eu me entusiasmei com essa idéia e acabei fazendo carreira universitária por isso. Urologia e carreira universitária por conta disso. Então nós operamos cães de 1965 a 1968. O professor Ciconelli havia viajado para o exterior e tinha me convidado para ser docente. Então nós treinamos em cães praticamente três anos, toda semana, e aí, já no final de 67 a gente já estava preparado [para transplante em seres humanos]. Então ficamos aguardando um doador e isso aconteceu na noite do dia 12 para 13 de fevereiro de 1968. Fui eu que solicitei o órgão. Na época a legislação era muito clara. Realmente foi um entusiasmo muito grande e eu sou muito agradecido ao Ciconelli, pois ele era o chefe, foi o mentor, e me deu a oportunidade.
Zaidan - Eu me lembro deste dia, fui lá para entrevistá-lo, no HC, onde é a emergência hoje, e vi que ele estava muito emocionado.
Martins - Se todo chefe fosse igual ao Ciconelli, eu acho que esta instituição seria melhor do que ela já é. Foi uma coisa maravilhosa. E eu retirei o órgão do doador, que era uma mulher. Ela descerebrou lá e eu falei com o marido, que era o responsável legal, ele concordou. Naquela época a gente não podia tirar o órgão com o coração batendo, você tinha que esperar o coração parar, pois a lei brasileira definia morte como parada cardiorrespiratória, e não de cérebro.
Zaidan - Esse primeiro receptor de 68 viveu durante quanto tempo?
Martins - Ele viveu uns seis meses, mais ou menos. O ato cirúrgico foi bem sucedido. Não foi rejeição, foi infecção.
Zaidan - Quarenta anos depois essa tecnologia mudou bastante, a sobrevida é maior, naturalmente?
Martins - É muito melhor, por várias coisas, mas sobretudo por causa da melhoria da qualidade da medicação imunosupressora. É claro que os equipamentos, o conhecimento médico também evoluiu, mas os resultados são melhores porque a imunosupressão hoje é melhor, os remédios para evitar a rejeição são melhores, tem remédios novos. Naquela época nós usávamos corticóides e aziotioprina. Hoje você tem a ciclosporina, tem vários outros remédios que são importantes para evitar a rejeição.
Zaidan - Nestes tempos de Viagra e outros semelhantes, que são usados mais para impotência psicológica, me parece que em 70% dos casos, isso está funcionando?
Martins - Está funcionando. Engraçado como evoluiu o conhecimento. O pessoal descobriu o mecanismo da ereção, pois em 68 não se sabia, ninguém sabia. Por exemplo, em 68, já sabia, mas quando eu estudei medicina eles não sabiam a função do timo, para que servia o timo, a mesma coisa o mecanismo da ereção, então, uma vez que você desvenda esse mecanismo, então você começa a usar drogas, por exemplo, o Viagra tem esse nome que é uma corruptela do nome de um sujeito chamado Virag, que era um tcheco. Esse tcheco, num congresso europeu, mostrou pela primeira vez que a injeção de papaverina no pênis causava a ereção. Ele deu a conferência e no final ele abaixou a calça e mostrou o pênis ereto para ninguém duvidar daquilo que ele estava falando. Então primeiro vieram estas injeções intracavernosas, que na verdade, todas elas dão o relaxamento da musculatura do corpo cavernoso. É a papaverina, a fentolamina. Nós agora até vamos testar o veneno de escorpião, porque ele é miorrelaxante, você testa em ratos, depois podemos mandar um escorpiãozinho de presente para os homens, ele pode usar o escorpião, custa mais barato (risos). Mas o Viagra foi uma descoberta acidental. Eu estava neste congresso americano quando os primeiros resultados foram apresentados pelos ingleses. Foi uma descoberta acidental, e aí você conhecendo a molécula vem os outros parecidos, então hoje tem o Viagra, tem o Levitra, o Cialis, todos eles inibem uma enzima que facilita o aumento de concentração de óxido nítrico. Tem até um produto brasileiro agora que chama Eleva. É Releva, Rel (Hell) de inferno e Eva de Eva. Está aprovado, está no mercado.
Zaidan - Esse tipo de medicação deu uma revolução nesta área, não?
Martins - Deu. Veja bem, esses remédios atuam também em impotência orgânica, desde que exista, mas dependendo da gravidade, então aí é preciso usar prótese. A prótese é sempre a última opção.
Angelo - Existem muitos casos de jovens usando para melhorar o desempenho sexual.
Martins - Eu acho que o abuso existe não só em relação a estes remédios, mas também com antiinflamatórios, remédios para inibir apetite, tranqüilizantes. Existe este abuso e é por isso que devia ter controle.
Zaidan - O São Paulo Interior Transplante, que serviu de modelo para o Estado e para o Governo Federal, eu me lembro que vocês trouxeram da França. Como foi essa história?
Martins - Se você me perguntasse - você conseguiu fazer três coisas na carreira universitária que deixasse você feliz, deixasse você pensar que contribuiu de alguma maneira para a melhoria, o transplante de cadáver foi uma, a cirurgia de prótese peniana foi a segunda, a terceira é essa, mas não na mesma seqüência. Eu acho que foi realmente uma coisa muito importante. Isso já foi em 1986, portanto, de 68 para 86 foram 18 anos, 18 anos depois. O que aconteceu? De 1962, quando os transplantes começaram a ser realizados com uma certa rotina no exterior, nos países desenvolvidos, nos Estados Unidos. Por exemplo, o rim artificial surgiu na Alemanha, mas os americanos só foram ter o rim artificial depois da década de 50, por causa da Segunda Guerra. O rim artificial surgiu antes da Primeira Guerra. Bom, então, o que acontece? Assim que surgiu a aziatioprina, em 1960, foi esse imunosupressor que permitiu o transplante entre pessoas que não eram gêmeas, então começou em 61, em um ou outro lugar dos Estados Unidos, Europa, e aí o pessoal começou a ir atrás da similaridade, porque descobriu-se que a rejeição era um fenômeno imunológico, então surgiu toda a questão da compatibilidade. O que os europeus começaram a fazer? E não os americanos? Eles começaram a fazer o seguinte, como eles descobriram a tipagem HLA, existem mais de cem antígenos diferentes, é muito difícil achar uma pessoa bem parecida a outra, pela compatibilidade do tecido. O ABO é fácil, que tem três antígenos - A, B e o O, mas de tecido não, é mais de cem, então é difícil de achar um par, uma pessoa que seja bem parecida, ou idêntica, então eles começaram, como se consegue manter a pessoa com insuficiência renal viva, com rim artificial, eles começaram a agrupar, reunir um grande número de pessoas esperando, quando surgia o cadáver, eles faziam a tipagem, jogavam num programa que dizia onde estavam os receptores, idênticos, de preferência. Você tem cinco mil esperando, a chance de achar um idêntico é grande, muito maior do que se você tem dez no seu centro. Então isso estimulou a associação de centros para você ter um número grande de pessoas que têm a possibilidade de fazer transplante bem parecidos. Então começou lá e nós fomos nos entusiasmando. Em 86 eu fui para a França e gostei do programa, fiquei entusiasmado, o Agenor Ferraz, que era o nefrologista do grupo estava entusiasmado e trouxe todo o material, e o Agenor é que teve um papel muito importante nesta criação do São Paulo Interior Transplante. E o modelo era esse, tinha 37 centros, inclusive, apesar de ser São Paulo Interior Transplante, alguns centros de Minas, como Uberaba, quanto maior o ene, melhor. Um modelo parecido, faz a tipagem, todo mundo fica aguardando, quando surge o doador, você faz o doador encontrar o receptor. O que aconteceu? Dez anos depois o Ministério da Saúde mandou fazer, porque o transplante é de notificação compulsória, você faz um transplante, tem que notificar ao ministério, e a cada ano você tem que mostrar para o Ministério da Saúde como é que está o doente. Então o ministério fez um levantamento e verificou que os nossos resultados eram o dobro melhores que os resultados do resto do Brasil, ou seja, depois de oito anos, os nossos pacientes, 60% dos nossos pacientes estavam com o rim funcionando, enquanto que no restante do Brasil, incluindo a cidade de São Paulo, era menos de 30%.
Zaidan - Teve também um apoio político a isso, o senhor estava na superintendência do HC.
Martins - Isso, foi em 87 isso, eu entrei em 87 na superintendência e realmente o programa começou ali. Então aí o Estado assumiu, hoje tem duas centrais.
Zaidan - Atualmente quantas centrais existem, como está a procura de órgãos?
Martins - Acho que as centrais hoje são estaduais e aqui no Estado de São Paulo há duas, mas estas centrais freqüentemente não se comunicam. Aconteceu um episódio recente aí no Rio de Janeiro, um paciente, acho que de fígado, acabaram jogando o fígado fora, com gente precisando. Então existem ainda muitas falhas, o Brasil é um país continental e um programa deste porte para um país deste tamanho, naturalmente leva tempo para se aprimorar.
Zaidan – Como está a fila de espera?
Martins - Eu ouço, e os números são até contraditórios. Eu falei outro dia aqui em 35 mil, já vi notícia de 65 mil, 70 mil, isso no país. No Estado é sempre metade, mais ou menos.
Zaidan - O senhor é especialista em próstata. Como está o controle? Quais são suas orientações?
Angelo - Existe a questão do preconceito.
Martins - Olha, o problema é o seguinte. Antigamente se dizia que quando o homem nascia, ele tinha certeza de duas coisas - a primeira que ia morrer, e a segunda que ia pagar imposto. E hoje nós podemos dizer que se viver o suficiente, ele vai ter câncer de próstata. Por quê? Porque se você pega uma população de homens de 80 anos de idade, e corta a próstata, tem trabalhos de pesquisa mostrando isso, você vai encontrar câncer de próstata em 60%, 70% deles. Eles não tiveram a manifestação clínica, mas o câncer está lá e vai dar problema lá na frente. O que acontece é que o câncer de próstata é assintomático em princípio e ele só vai dar sintoma lá na frente na hora em que ele não tem mais jeito.
Zaidan - Se a pessoa vai ter câncer, pode ter câncer se viver bastante, mas a maioria vai ter, com a idade, a hiperplasia benigna, isso é natural?
Martins - Você tem dois tipos de tumores, o benigno, que não se maligniza, e o maligno. O benigno, você pega, por exemplo, a partir dos 30 anos de idade, a próstata, em 80% dos homens, vai aumentando de tamanho, e é por causa do tumor benigno. 80% dos homens têm, lá, aos 60, 70 anos, e dos quais, você vai ter uns 20%, 30% com sintomas e que precisam se tratar. E além do tumor benigno você tem o maligno, mais comum no negro do que no branco, é mais raro no asiático, no japonês, no chinês, e é mais agressivo no negro. E se um parente seu teve câncer de próstata, você tem uma chance bem maior de ter.
Zaidan - Além da genética, que outro fator pode ser determinante?
Martins - Você veja, por exemplo. Pega um japonês, você corta a próstata dos japoneses de 80 anos, que vivem no Japão, vai dar um percentual do branco americano, vai dar lá uns 60% de câncer. Mas por que é que muito poucos japoneses que vivem no Japão têm o câncer clínico de próstata? Observaram o seguinte: é o hábito alimentar. O que eles comem lá? Muito vegetal. É soja, até o vinho tinto, que tem o revestrol, que também ajuda na prevenção. Então admite-se que é o estilo de vida, a qualidade da alimentação.
Angelo - Na questão da prevenção, no caso das mulheres existem campanhas do câncer de mama...mas a próstata é um tabu.
Martins - As mulheres estão anos luz à frente da gente. Os homens só mais tardiamente é que estão despertando. Existe um preconceito na avaliação porque subentende-se um toque retal. É dos 50 aos 75 anos, e se tiver antecedente na família ou se for negro, é melhor começar aos 40.
Angelo - O senhor disse que o câncer de próstata é o segundo mais letal.
Martins - Aqui no Brasil, nos Estados Unidos já é o primeiro. E lá as neoplasias já superaram as doenças cardiovasculares.
Angelo - A primeira entre os homens no Brasil qual é?
Martins - É câncer de estômago.
Zaidan - Como o senhor vê essa discussão com relação ao uso de células-tronco? Na urologia este método também pode ser útil?
Martins - Bom, eu acho que há potencial. Tudo aquilo que você não consegue resolver hoje, você pode imaginar em reconstruir. Há muitas situações que você não consegue resolver em urologia hoje. O próprio transplante, se você conseguir desenvolver um órgão in vitro, com célula-tronco, você pode desenvolver um órgão. É só uma questão de saber quais os fatores de crescimento que você vai combinar, é uma questão de tempo eu acho, mas isso vai demorar muito, porque é muito complexo, então eu imagino que no futuro seja possível que você possa obter órgãos para trocar, pois tem rins que são tão danificados que não tem como recuperar, talvez no início da doença você consiga recuperar injetando essa célula-tronco, mas é tudo hipótese, tem que se testar tudo isso. Agora, eu estava em um congresso americano, uns anos atrás e estava assistindo uma palestra sobre a infertilidade. E a discussão ali era que, por exemplo, 50% das causas de um casal não ter filhos, da infertilidade, é de origem do homem, e 50% é da mulher. Você examina o espermatozóide desses homens inférteis, você vai achar defeitos genéticos. A natureza, se a gente analisar um pouco a evolução das espécies, a natureza vai selecionando, quer queira, quer não queira, seja por vontade de Deus ou não, ela vai selecionando aquilo que serve. Ela geralmente não é complacente com erros, por exemplo, veja os dinossauros. Eu não sei se é um modelo pior que o nosso, porque eles viveram 200 milhões de anos, mas desapareceram, quer dizer, foi um modelo errado. Então eu estava raciocinando. A natureza está nos dizendo que a combinação desse genes não é boa. E nós estamos utilizando fertilização in vitro, fazendo de tudo para jogar isso para frente. Veja bem, essa reação é controlada pelos genes. O que acontece com os genes? Quando eles são copiados, a fita é muito grande, é tão comprida que ela é toda enrolada para caber dentro do núcleo da célula, então a cópia, com freqüência, tem defeito. Ou o molde dobra, a cópia tem aminoácido a menos, a fita que está sendo criada dobra e ela fica mais comprida do que podia e você tem outros genes que estão ali de olho, fiscalizando isso, e vão lá e vão consertanto, mas um ou outro defeito passa, vai indo e à medida em que vamos envelhecendo, estes defeitos vão se acumulando. E nós não temos como consertar os genes ainda, então nós achamos o seguinte: a gente deve ter filho quando a gente é novo, os genes são perfeitos, ou mais perfeitos. Então, depois que você passou o gene, o resto das células são de segunda classe, não prestam para mais nada.
Angelo – Para encerrar: o senhor diz então que estamos piorando a espécie?
Martins - Com certeza. Mas o ser humano, uma vez perguntaram ao Einstein, o que ele achava que era o infinito. Ele disse que existiam duas coisas que eram infinitas - o universo e a estupidez humana.