Economia
Sabado, 8 de Março 2008 - 19h32
SOJA Produtores foram surpreendidos por rumores de que a China estaria lançando estoques internos
O que aconteceu durante a semana em relação ao mercado externo de soja, com conseqüência para outras commodities, fez alguns analistas lembrarem o episódio ocorrido no mesmo mês de março, em 2004, e a se perguntarem se “este é um novo negócio da China?”, numa referência tanto à possível tentativa do país asiático de conturbar o mercado, como à expressão popular relativa a situações imaginárias em transações comerciais.
O efeito chinês veio logo em seguida ao início da semana, marcado pela notícia de que as cotações da soja registraram novas altas históricas na Bolsa de Chicago (EUA), postando-se com firmeza acima de 15 dólares/bushel, porque a demanda asiática – nisso se destacando a China – continuava a mover os investidores para a ponta compradora.
Na terça-feira, a notícia contrária: as cotações da soja registraram acentuadas perdas, face aos rumores de que a China estaria preparando um tratamento de choque contra o revigoramento da inflação no país, lançando no mercado estoques internos do grão e do óleo, com o que poderia conseguir – e realmente conseguiu momentaneamente – a baixa do preço no mercado internacional.
Os grãos tratados
Daí veio a recordação do episódio de março de 2004. A soja superava a barreira de 14 dólares/bushel, e para o produtor brasileiro chegava ao preço de 52 reais a saca, o melhor da história em moeda nacional. Foi quando a China rejeitou a entrada da soja brasileira, devido, segundo denunciou, à adição de grãos tratados (com agrotóxicos) nos embarques.
A medida fez o mercado mundial reagir negativamente, a isso se aliando a política cambial brasileira que levou à desvalorização do dólar. Resultado: para o produtor brasileiro, o preço da soja caiu quase pela metade durante 2004.
Anos de crise
Aí se seguiram três anos de crise. Mesmo com a melhoria da cotação da soja no mercado externo, a contínua desvalorização do dólar fez o preço se manter baixo para o produtor brasileiro. Até que a situação melhorou a partir do segundo semestre de 2007. O dólar continuou em queda, mas esta influência foi neutralizada pela progressiva subida da cotação da soja em Chicago, que no início deste ano suplantou 15 dólares/bushel, marca histórica, dando ao produtor a possibilidade de obter perto de 50 reais por saca nesta safra.
Poderia o governo chinês, com sua decisão de liberar os estoques internos, reverter esta situação? O comportamento na Bolsa de Chicago após quarta-feira demonstrou que o “efeito chinês” está acabando por se tornar sem efeito prático no mercado mundial.
A China agora não tem essa força, simplesmente por não possuir estoque sequer razoável, dizem os analistas, entre eles o professor Marcos Fava Neves, da FEA-USP, de Ribeirão Preto, especialista em agronegócio. “O que eles (os chineses) fizeram em 2004 custou muito caro para os produtores brasileiros, mas agora não conseguirão êxito, porque precisam continuar importando, e não têm como abrir mão da soja brasileira”, afirma Neves.
Preço do milho também se recupera
Simultaneamente ao que aconteceu com a soja, o “efeito chinês” provocou baixa na cotação de milho, no mercado externo, na última terça-feira, mas já houve a recuperação no dia seguinte. A posição maio foi cotada em US$ 5,69 bushel e a posição julho em US$ 5,81.
Os produtores brasileiros de milho – inclusive os que nesta região estão agora voltados para o início da safrinha – manifestam otimismo face à melhora do mercado como conseqüência do uso do produto para produção de etanol nos Estados Unidos, maiores produtores e exportadores mundiais.
Café
Já os produtores de café continuam reclamando e apontam o dólar baixo como causa da remuneração que consideram insatisfatória, em torno de 290 reais por saca. E não há perspectiva favorável, pelo contrário. “O que será de nós, cafeicultores, se o dólar chegar a R$ 1,50 ao longo do ano?”, pergunta Gilson Ximenes, presidente do Conselho Nacional do Café.
Algodão
Os preços do algodão em pluma sinalizaram recuperação a partir da última semana de fevereiro. O indicador Cepea/Esalq registrou aumento de 2,6%, e as perspectivas são de que o preço continue em alta, após terem atingido o maior patamar – em dólar – desde 1996. No mercado interno, o preço para o produtor é de R$ 1,34 por arroba.
Feijão
Em relação ao feijão, mudou o quadro de desânimo que existia entre os produtores no início de 2007, porque nos últimos 12 meses o preço teve reajuste em torno de 150%. O plantio ocorre com entusiasmo na região de Guaíra, em área sob irrigação.
Carne
Após ligeira queda, a arroba do boi gordo voltou ao nível de 75 reais na praça de Barretos, porque o setor atacadista constatou a necessidade de reajuste face à baixa oferta.
CARLOS ALBERTO NONINO
Especial para A Cidade