Economia
Sabado, 8 de Março 2008 - 19h35
EDGARD MONFORTE MERLO “A taxa de juros no Brasil ainda é alta para os padrões mundiais”
Iniciada no ano passado e acentuada nos últimos dias, a queda do dólar tem afetado positivamente o bolso da população brasileira, principalmente dos consumidores de produtos com valores relacionados à cotação da moeda norte-americana. Alimentos, bebidas, eletroeletrônicos e brinquedos já apresentam preços mais baixos.
Com cotações abaixo de R$ 2 há alguns meses, o dólar registrou a menor taxa de câmbio desde maio de 1999 nos últimos dias – chegou a R$ 1,6660. Os sucessivos recordes da balança comercial, a diferença entre juros domésticos e internacionais, a atração de capital financeiro para o país são alguns dos fatores que explicam a desvalorização da moeda americana.
“A taxa de juros no Brasil ainda é alta para os padrões mundiais e o país atrai dinheiro de fora para aplicações no mercado financeiro. Quando tem muito dólar sendo convertido e não há tanta demanda, o real se valoriza”, explica o economista Edgard Monforte Merlo, da FEA/USP (Ribeirão Preto).
A redução da taxa do dólar beneficia principalmente os consumidores de alimentos importados. A maior procura recai sobre azeite, bacalhau, vinhos e azeitonas, segundo o diretor regional da Associação Paulista dos Supermercados (Apas), Aurélio Mialich.
Bacalhau e vinhos
Com maior consumo concentrado tradicionalmente na Semana Santa, o bacalhau, de origem norueguesa, está sendo incorporado ao dia-a-dia do brasileiro. Segundo levantamento da Apas, a venda do produto aumentou 20% em São Paulo nos últimos meses – o preço do tipo mais vendido apresenta queda de 30% em Ribeirão Preto.
De acordo com Mialich, a menor margem de diferença entre os produtos nacionais e os importados passa a atrair os consumidores. “Todos os importados estão com preços convidativos nos últimos meses. Com isso, as pessoas migram para este tipo de produto”, afirma.
Os apreciadores de vinho também encontram valores mais suaves. Na Enoteca Expand Ribeirão, a redução média nos preços é de 15% - mas alguns tipos sofreram reajustes de até 30% para baixo. As quedas estão concentradas em produtos vindos de Itália, França, Argentina e Chile. As importações da África do Sul e da Austrália ainda não demonstram o mesmo panorama porque são negociadas por contratos a longo prazo.
Importado da Toscana, na Itália, o vinho IL Brusciato, que era vendido no ano passado a R$ 138, passou para R$ 99. Já o preço do argentino Santa Júlia caiu de R$ 29 para R$ 22.
Brinquedos e eletroeletrônicos
Os reflexos positivos chegaram também aos consumidores que ainda nem sabem fazer contas, as crianças. A biomédica Flávia Ponton comprou há alguns dias, em uma loja do RibeirãoShopping, um brinquedo de pelúcia que canta e dança por valor mais de 50% inferior ao valor cobrado no final do ano passado – a peça foi produzida em Taiwan.
“O preço caiu de R$ 98 em novembro para R$ 45 em março. É uma redução muito interessante. Dá para levar dois pelo preço de um”, disse.
Em menor proporção, os produtos eletroeletrônicos importados, ou fabricados com peças estrangeiras, também têm quedas de preços. No Magazine Luiza, a TV de LCD de 40 polegadas vendida no final do ano passado por R$ 3.999 já sai das lojas a R$ 2.999. O gerente de compras da rede, Júlio César Trajano Rodrigues, atribui a redução de R$ 1.000 à queda do dólar e ao aumento da demanda pelo produto. “Antes, apenas 5% do total faturado com televisores eram de negócios com modelos LCD ou Plasma. Com a redução do preço, essa tecnologia já representa 40% do volume arrecadado”.
Segundo Merlo, o repasse de descontos é mais rápido para as compras realizadas via internet. “Comprando por sites, há facilidade de importação. Já em produtos onde há dependência de redes para fazer a distribuição, o repasse ainda está vindo mais lentamente”.
Para o economista, o quadro de queda dos preços deve persistir durante os próximos meses.
“O Banco Central brasileiro está preocupado com inflação e resiste a reduzir a taxa de juros no país. Enquanto houver redução da taxa nos Estados Unidos, a desvalorização do dólar vai continuar acontecendo”, esclarece.
Prejuízo para as indústrias
O benefício aos consumidores brasileiros contrasta com os prejuízos causados à indústria nacional pela queda do dólar. O país atrai concorrentes internacionais que abordam o mercado com preços considerados muito competitivos.
Segundo o economista Edgard Monforte Merlo, a indústria dos calçados é um exemplo de setor prejudicado. “Algumas indústrias estão com problema de custo e não conseguem competir com o produto importado. De modo geral, produtos industrializados sofrem pressão para ter avanço de produtividade. Quem não consegue, acaba sucumbindo a essa pressão”.
LUIZ ADOLFO
Especial para A Cidade