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Caderno C

Segunda-Feira, 10 de Março 2008 - 22h0

Mulher: Moda de sacrifícios

Adriana Matiuzo
MATHEUS URENHA Mulher: Moda de sacrifícios OLHAR ATENTO A promotora de marketing Milena Del Arco e a estudante Carolina Croisfelt observam acessório em exposição até o dia 23 de março em shopping de Ribeirão Preto

Postura ereta, corpo esguio, cintura fina e seios fartos ainda fazem parte do imaginário das mulheres sobre o ideal de beleza feminino nos dias de hoje. Cinco séculos depois de criar e sofrer com seus próprios acessórios, as mulheres passam a ver peças como o espartilho e a cinta-liga como vestimentas para ocasiões especiais, sem eliminá-los do guarda-roupa. No dia-a-dia, elas querem mesmo é conforto.
O diretor do curso de moda da Universidade de Franca, Julius Pimenta, afirma que espartilhos, sutiãs, achatadores de seios e cinta liga nunca deixaram de ser usados, mas ganharam adaptações e foram incorporados à moda de forma que sobrevivessem ao longo dos séculos.
Para o professor, foi somente no século 20, no entanto, depois da Segunda Grande Guerra Mundial, que as mulheres ganharam a independência intelectual e financeira que precisavam para poderem passar a escolher o que iriam vestir, com ou sem este tipo de acessório.
De acordo com o diretor, hoje a cinta liga e o espartilho são usados em ocasiões especiais, mas a mulher já não é mais obrigada a usá-los. Já o sutiã, muitas vezes com os mesmos efeitos dos achatadores de seios, continua sendo usado e visto pelas mulheres como um recurso a mais para ficar bonita, mesmo no dia-a-dia.
Ele lembra que no musical Moulin Rouge, em 2001, as peças reaparecem com Nicole Kidman fazendo o papel de uma meretriz desejada como um ícone de sedução.

Mulheres de personalidade
A engenheira agrônoma Stefania Caixeta conta que é decidida a não usar nada que a incomode. Ela conta que não abre mão de seu conforto e que não se importa com a beleza proporcionada pelas peças.
- Acho que as mulheres ainda hoje são muito escravas da beleza, disse Stefania.
Já sua amiga Cláudia Denise da Silva afirma que também evitaria usar esse tipo de peça e que prima pelo conforto porque não gosta de usar peças que a incomodem.
Já Mariana Silva Rosa disse que usaria com tranqüilidade um espartilho ou um sutiã modelador desde que fosse em uma ocasião especial. Para ela, as peças são um artifício de sedução válido ainda hoje.
- Acho que não dá para usar no dia-a-dia, mas acho legal para uma data especial, com alguém especial, disse a engenheira.
Para a estudante Carolina Croisfelt, o interessante é usar esse tipo de peça quando a mulher se sente realmente bem e bonita.
- Acho que realmente essas peças valorizam a beleza da mulher, mas a mulher antes de tudo tem de se sentir bem porque se ela usar porque o namorado pediu, pode virar uma obrigação chata, disse Carolina.
Para Carolina, o interessante de viver nos dias de hoje é justamente pode escolher qualquer tipo de roupa e ficar bem.
A promotora de marketing Milena Del Arco acha que a mulher muitas vezes se vulgariza para alcançar um padrão de beleza e que a maioria das mulheres ainda fica escravizada pela moda.
- Eu teria muita dificuldade em viver em uma outra época. O mais legal dos dias de hoje é poder escolher o que vai usar, disse Milena.
A dona-de-casa Tereza Zambianchi afirma que não usaria jamais as peças do passado e que prefere a moda atual, que não impõe peças muito apertadas, que exijam sacrifícios das mulheres.
- Para mim, quando mais soltinha a roupa melhor. Penso mais no meu conforto, antes de me preocupar com beleza, disse Tereza.

Espartilho
O espartilho surgiu por volta do século 16. A idéia inicial era manter a postura ereta e dar suporte aos seios. Somente a partir do século 19 o acessório passou a ser usado com a finalidade de demarcar a cintura. Foi somente nessa época que passou-se a usar barbatanas de baleia para dar firmeza ao espartilho. A chamada era vitoriana, que teve como uma de suas principais características a busca obsessiva das mulheres pela cintura fina.
Foi somente com a forte personalidade da rainha Maria Antonieta, mulher influente politicamente na França, que o espartilho passou a ser visto como um acessório de transformação na forma de se vestir. O acessório passou a ser usado por mulheres fortes, que queriam se sobressair na sociedade.
O espartilho, no entanto, era uma ameaça à saúde da mulher. De acordo com o professor Julius Pimenta, era comum as mulheres chegarem ao ponto de desmaiar. Também há relatos de mulheres que tiveram as costelas fraturadas por usarem o acessório.
O espartilho só deixou de ser item obrigatório na vestimenta da mulher por volta do século 20, quando entrou em cena o sutiã.
A grande vitória das mulheres no século 20 é que elas passaram a ter o direito de escolher se usam ou não o acessório. Já naquela época (séculos 16, 17 e 18) o uso era uma questão de decência e pudor, disse o professor.
Segundo o docente, os artigos são não sumiram completamente da moda porque vão de encontro à busca das mulheres por feminilidade, ainda que em ocasiões especiais.
Pimenta afirma que se por um lado a mulher deixou de ser fissurada por espartilhos e sutiãs, elas hoje vivem uma nova fase com outros tipos de obsessão, que vão desde a busca incessante pela magreza até a grande quantidade de cirurgias plásticas a que são submetidas.
- Com relação às peças, a mulher passou por uma evolução porque hoje pode escolher usar ou não. Ela descobriu que sua feminilidade está nos gestos e não nas roupas, afirmou o docente.

Sutiã e cinta-liga
Já o sutiã surgiu há um século. A norte-americana Mary Phelps Jacob patenteou a invenção. Nesse meio tempo, o acessório serviu para sustentar o busto, mas também para aumentar ou diminuir os seios conforme a época.
Segundo o professor, a queima dos sutiãs nos anos 60 foi apenas simbólica e hoje as mulheres reconhecem a importância da peça na manutenção da musculatura.
No caso da cinta-liga, Pimenta afirma que a peça surgiu inicialmente, nos anos 10, como um acessório útil para prender as meias. Na época não existia ainda a meia-calça, criada nos anos 60. Já nos anos 40 passou a ganhar uma conotação de sensualidade quando as saias começaram a ficar mais curtas e deixar as pernas à mostra.
- A meia-calça é muito prática para a mulher, mas não é sensual, afirma o professor.

Achatadores
Os achatadores começaram a ser usados no final do século 18. A peça servia para empurrar os seios para cima, valorizando o colo das mulheres. A peça era uma espécie de faixa usada junto aos seios. O acessório, praticamente abolido em sua forma original, ganhou mil e uma versões na sua fusão com o sutiã. Hoje há uma vasta linha de modelos que levantam, juntam e até aumentam o volume dos seios.
Segundo Pimenta, quando surgiu, o achatador era uma peça obrigatória.


Em busca de conforto
Os modelos atuais são muito mais leves
Além de ter o uso mais restrito, essas peças hoje ganharam materiais e formas que permitem maior conforto para as mulheres. O espartilho, por exemplo, inicialmente era feito com tecidos engomados e reforçados com junco e cordas. De acordo com o professor, as peças ganharam versões mais confortáveis, mas em geral continuam no guarda-roupa apenas por ocasiões especiais.

Exposição
Quem quiser conhecer um pouco mais sobre as peças de sedução da história da moda feminina pode visitar a exposição “Entre Espartilhos e Silicones”, que conta a história dos adereços de sedução usados no século 19. A mostra começou na última quarta-feira para homenagear o Dia Internacional da Mulher. As peças e fotos poderão ser vistas até o dia 23 de março. A exposição é aberta ao público na praça central do RibeirãoShopping.

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